“O que eu sei é que gosto de explorar a escrita”: Amaura e os contrastes do seu álbum de estreia

A carreira a solo ainda agora deu os primeiros passos mas a maturidade de Amaura aliada à capacidade de incorporar influências do R&B augura um futuro brilhante.

(Joana Matos/Shifter)

… Na vida, tu vais começando a perceber qual é a tua tribo, mais ou menos. Eu nunca tive muito isso desde miúda, então sempre fui assim muito pautada em contrastes…” afirma Maura Magarinhos, mais conhecida como Amaura, e que a 27 de Setembro de 2019 nos “brindou” com o tão aguardado álbum de estreia. EmContraste é o nome do trabalho que fala sobre isso, um contraste de emoções, sentimentos e desgostos de um coração partido. O início da sua carreira começou com uma série de colaborações que a ajudaram a dar os primeiros grandes passos de uma carreira que promete ser promissora. Fred, TNT e Classe Crua foram alguns dos nomes que abriram as portas à cantora de R&B que se estreara pouco depois a solo.

EmContraste começou a ser construído ao longo do ano, com o lançamento das faixas “Blues do Tinto”, “Dança” (que conta com a participação do já mencionado TNT), “Surfista da Banheira” e “Coopero”, temas que antecipavam aquele que iria ser um álbum com uma sonoridade neo-soul, jazzy e R&B. Composto com um storytelling significativo de amores impotentes, capacidade de encontrar e reproduzir melodias que ficam no ouvido e uma maturidade imperativa, o álbum define Amaura como uma artista que seguramente tem muito para dar e ainda mais para receber.

A fragilidade da cantora transpõe-se através da emoção e da harmonia que nos chega ao ouvido através da sua doce voz, criando um clima relaxante e por vezes sexy ao longo dos vários temas que compõem o álbum. Mas como a falar é que a gente se entende, fomos descobrir o que Amaura tem a dizer sobre o álbum de estreia e o que podemos esperar no futuro de Maura Magarinhos.

O dia apresentava-se meio nublado com uns raios de sol tímidos; o encontro estava marcado para as 15h no Jardim da Gulbenkian, que parecendo que não, se assimila à tranquilidade da sonoridade de Amaura, tendo a natureza como fundo num anfiteatro com crianças a brincar e pessoas a descontrair. Com o meu “trabalhinho de casa” feito a entrevista decorreu dentro dos possíveis, sempre com a constante de ter aviões ocasionais a passar, o barulho de brincadeiras de crianças e momentos de reflexão e discussão com a artista alfacinha. Com um ar tímido e ansioso durante as fotos, fomos desconstruíndo essa vergonha e a conversa fluiu ao longo dos vários locais que passámos e dos vários registos fotográficos. Uma vergonha que certamente não demonstra na sua música, nem na voz que é harmoniosa a falar e que se torna ainda mais doce e contagiante ao cantar.

A carreira a solo ainda agora deu os primeiros passos mas a maturidade de Amaura aliada à capacidade de incorporar influências do R&B nas músicas prevê um futuro brilhante, e se alguém tivesse dúvidas Amaura está aqui para mostrar que o futuro do R&B português está em boas mãos.

B: És descrita como “…uma das vozes mais promissoras da música Soul e R&B feita em Portugal…” sentes o peso e a responsabilidade nisso?

A: Não sinto a responsabilidade dessa afirmação, sinto a responsabilidade de saber que estou a trabalhar numa área que não é tão explorada, mas se fosse pop, fado ou rock eu iria ter essa responsabilidade na mesma, não deixo que isso seja um acréscimo, é o que é. Uma responsabilidade.

B: De onde surgiu a ideia para o nome Emcontraste? Este primeiro álbum define a tua personalidade e processo criativo?

A: Eu desde muito miúda nunca tive aquela cena — imagina, tu vais começando a perceber qual é a tua tribo, mais ou menos — eu nunca tive muito isso desde miúda então sempre fui assim muito pautada em contrastes. Acho que isso me fez sentido mesmo com os temas que foram surgindo, eram todos muito diferentes uns dos outros; acho que fez sentido porque explica, tu lês em contraste, já sabes o que vais levar.

B: Daí teres o M e não o N

A: Também, também, era encontraste de encontrar, em contraste de contraste, encontras-te de pergunta… foi muito por ai; — tou a ver que fizeste o trabalhinho de casa!

B: O rio Tejo tem grande influência nas tuas canções e é motivo de destaque nos temas que abordas, porquê?

A: Porque eu sou uma lisboeta de gema não é, sou mesmo alfacinha — represento mesmo aquela frase ‘nascida e criada’. Eu acho que tu desenvolves aquele olhar diferente de Lisboa quando vais para fora e depois voltas. Sabes aquela sensação quando o avião começa a chegar à ponte e tu pensas “Pode cair aqui, aqui pode cair”. Mas eu sempre tive uma ligação a Lisboa muito doce, e como Lisboa para mim sempre foi aquela mistura, aquela miscelânea de coisas — como eu gosto, com contrastes — eu acho Lisboa uma cidade única.

B: E o Rio Tejo é um dos locais que…

A: Sem dúvida, deve tar farto de mim.

B: Quais são as tuas maiores inspirações dentro do R&B?

A: Olha as minhas inspirações não passam muito pelo R&B, mas dentro do R&B, vou dizer-te uma inspiração assim atual, não te vou estar a dar aqueles nomes clichés, tipo Aaliyah e as Destiny Child. Gosto de uma cantora britânica que faz assim um R&B buéda doce que deixou de se fazer que é a NAO, é mesmo aquele doce de diabete, mas é bom. Mas assim atual acho que escolhia-a a ela.

B: Este é o teu primeiro debut com artista a solo, o que podemos esperar futuramente de Amaura?

A: Sim, eu não tenho assim uma ideia daquilo que vou fazer daqui a dois, três, quatro ou cinco anos, a única coisa que eu sei é que gosto de explorar a escrita, portanto tanto me pode levar para um conteúdo muito próprio, muito pessoal, como pode surgir um álbum onde eu descrevo qualquer coisa que até posso ter vivido aqui contigo e com a Joana (fotógrafa); quero explorar esse voyeurismo de personagem, acho que é mais por aí. Quanto a sonoridades pode ser parecido, pode ser diferente ou o que me apetecer na altura…

(Joana Matos/Shifter)

B: És romântica nas tuas músicas mas não parece que queiras algo cliché, o que te inspira para esse romantismo?

A: Lá está eu acho que o amor tem de ser 50% cliché, 50% originalidade e sempre gostei muito daquele amor cómico, menos em comédias, eu não aguento comédias românticas, fico mesmo ‘porque é que paguei para ver esta…’ *risos* Mas eu vejo as coisas românticas na comédia porque eu acho que eu não conseguia namorar com alguém que não fosse cómico — acho que é mais por aí. Mas sou uma romântica, uma cagona como diz a minha mãe.

B: Na canção Marvel da Tuga descreves essa personagem como sendo a “banda desenhada da tuga”, isto é o teu surgimento como um personagem nesta banda desenhada? Defines-te como uma Marvel da Tuga?

A: Não, embora aos poucos me comece a sentir assim. Quando eu falo de “Lá vais tu no teu scroll” eu estou a falar de mim, aquilo foi uma situação que me aconteceu a mim e em que me senti a pior pessoa do mundo; não que eu não estivesse atenta àquele velhinho, mas aquilo aconteceu-me de eu ir tão cusca, que o senhor teve de me dar o toque e eu senti-me super mal com essa situação então, e depois tu notas que vais fazendo aquela coisa de ires apreciando e vês que aquela pessoa está cansada, que começa o dia e já está cansada? Então acho que isso, aproveitando o clichezão dos filmes, em que às vezes o herói está mesmo ali, é um ganda clichezão, mas é o que existe.

B: Como foi trabalhar com o pessoal da Mano a Mano e com o Pedro Quaresma, como surgiu essa ligação?

A: Foi uma cena bué tipo de oportunidade única, eu não sabia quem era O Pedro Quaresma depois quando soube, já não havia aquele peso de querer impressionar. De qualquer das formas foi ótimo, porque eu acho que se não fosse ele o meu som não tinha chegado de uma forma tão exata àquilo que eu queria para mim. Quanto a trabalhar com a Mano a Mano, além de serem ultra competentes, têm uma vertente que eu gosto imenso que é a liberdade criativa. As nossas formas de estar encaixam portanto é basicamente família.

(Joana Matos/Shifter)

B: Dizes que és do trap mas nasceste do jazz, são estes os géneros que mais inspiram a tua música? Se tivesses de escolher entre viver na década mais influente do jazz ou na atual preferias qual?

A: Olha eu seria uma mentirosa se não dissesse que…eu pus a cena do trap porque é uma tendência, não sou uma grande apreciadora de trap. É assim, eu reconheço quando é bom, mas não é para mim. Jazz já sou super, mas não sou aquela cota chata do “se ouves trap ah não isso é uma porcaria, jazz é que é bom”, não sou essa cota chata.

B e J: Dás liberdade aos dois, não é liberdade é… liberdade criativa, toda a gente pode gostar… tás aberta aos dois é isso?

A: É, batem me os dois à porta eu deixo os dois entrarem, mas depois…

B: Só que um fica mais em casa que o outro…

A: Só que um fica na casa de banho e o outro tem lugar na sala *risos*

B: Se tivesses de escolher entre viver na década mais influente do jazz ou na atual preferias qual?

A: Não sei.. Eu sou ultra nervosa, e acho que nessa altura não ia haver grande espaço para, entendes?, mas era tudo tão bom e tão bruto então acho que se pudesse, pronto lá ia eu. Gostava de puder trazer algumas coisas do antigamente para agora, mas também gostava de fazer aquela coisa, aquela cena do Regresso ao Passado ou Regresso ao Futuro — tipo fazer um clash entre uma coisa e outra, mas eu enquanto cantora não gostava de ter vivido naquela época.

B: Se calhar a tua música seria diferente.

A: Se calhar não havia.

J: Se calhar nem havia abertura para esse tipo.

A: Para esse tipo e esse jazz assim mesmo “from roots” eu não tenho essa, acho eu que não tenho. Mas era mais isso trazer alguma coisa do passado para agora, acho que ia trazer umas cenas fixes.

 

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