BUBBA: Kaytranada de volta mas sem impressionar

3 anos depois do lançamento do seu primeiro álbum de estúdio, Louis Kevin Celestin, ou Kaytranada apresenta-nos a segunda instância da sua discografia, BUBBA.

Uma particularidade interessante dos projetos de Kaytranada é o facto de, apesar de o produtor “não ter voz”, quase sempre convocar outro artista que possa cantar por ele. No entanto, este convidado raramente lhe rouba o protagonismo; o ponto alto das faixas continua a ser sempre a produção.

Antes de entrar nos detalhes da review, gostava só de sugerir que na primeira vez que ouvirem este álbum o façam num sítio calmo e com uns fones que captem bem baixas frequências. Não digo que tenham de ser bass boosted mas certifiquem-se de que conseguem de facto sentir o baixo porque se há coisa que Kaytranada faz bem é desenhar linhas de baixo, o que enriquece exponencialmente cada uma das suas faixas.

Quando comecei a ouvir BUBBA pela primeira vez, devo admitir que as minhas expectativas eram bastante altas. 99.9% (o seu primeiro álbum) é um projeto extremamente coeso e os singles soltos que Kaytranada lançou durante o intervalo de tempo entre ambos os projetos deixaram-me bastante entusiasmado. Para além disto, Kaytranada é um produtor espetacular e o lead single, “10%”, no qual Kali Uchis “dá uma mãozinha”, foi fresco o suficiente para me fazer pensar que o álbum ia ocupar um bom lugar em muitas das listas de melhores álbuns do ano (inclusive na minha). No entanto, ao ouvir o álbum algumas vezes, depressa concluí que apesar de ter umas quantas faixas memoráveis, uma boa parte da tracklist não correspondeu às minhas expectativas.

A primeira faixa, “DO IT”, está munida de sons que os fãs podem reconhecer do seu álbum anterior e como faixa introdutória funciona extremamente bem: nada está em demasia e nada está em falta, constituindo uma introdução muito equilibrada em termos sónicos e boa para os passageiros embarcarem suavemente no comboio de Kaytranada.

De seguida temos um dos maiores pontos altos do álbum, “2 The Music”, onde Kaytranada colabora com o artista Iman Omari. Apesar da música ser muito reminiscente daquilo que os Daft Punk fizeram no seu álbum de 2013, Random Access Memories, não perde o seu crédito porque mesmo assim tem vários toques únicos de Kaytranada, seja o baixo “bubbly” ou a outro instrumental muito típica do artista. Outros pontos altos do álbum incluem “Puff Lah”, uma faixa instrumental que devido à sua curta duração nos faz chorar por mais, “10%”, que é uma simbiose perfeita entre os instrumentais ricos de Kaytranada e a voz angelical de Kali Uchis e “Need It”, que conta com a participação de Masego e com o refrão mais contagioso do projecto, que acaba por ficar a zumbir nos nossos ouvidos mesmo quando a música acaba.

O final de “Need It” é uma curta transição para “Taste”, que infelizmente acaba por se perder na tracklist, visto que não consegue igualar a energia da anterior. A melhor parte desta faixa é o final, que transita espetacularmente para “Oh No”, que acaba também por não corresponder, a nível instrumental, aos standards impostos pelo artista. A música não é de todo má, mas sinto que lhe falta a energia característica de um álbum de Kaytranada. No entanto, “What You Need” consegue recuperar um pouco da energia perdida com um instrumental viciante e um refrão espetacular de Charlotte Day Wilson.

Logo a seguir, temos “Vex Oh”, um outro ponto muito alto do álbum, em que é possível verificar uma mistura muito variada de estilos musicais, onde a batida tem uma influência notável do dance hall que Drake muito tem tentado executar, com colaborações de Goldlink, Eight9Fly e Ari PenSmith.

Apesar deste ponto muito alto, é entre “Vex Oh” e a última faixa que sentimos alguma “falta de fôlego” de Kaytranada. Temos então 5 músicas que são notavelmente menos entusiásticas do que as anteriores, o que infelizmente deixa a sensação de que o álbum se arrasta demasiado até ao fim. “Scared To Death” e “September 21” são duas faixas instrumentais que contrariamente a “Puff Lah”, se tornam aborrecidas muito depressa, “Freefall” é pouco memorável, tanto a nível instrumental como vocal, e o mesmo se verifica com “Culture”. Entre estas cinco faixas, há, no entanto, uma que se distingue ligeiramente, “The Worst In Time”, pelo refrão vibrante, mas cujo instrumental falha a acompanhar. Todas as músicas acabam por ter alguma coisa que as distingue mas, como partes de um todo, acabam por se tornar aborrecidas. O mesmo acontece com “Go DJ” e “Gray Area”, que apesar de contarem com participação de dois artistas em franca ascensão, SiR e Mick Jenkins respectivamente, acabam também por perder um pouco o seu valor devido à aparente falta de trabalho nos instrumentais.

O projeto termina com a faixa “Midsection”, onde em conjunto com uma das lendas da indústria da música, Pharell Williams, Kaytranada cria uma faixa bastante diferente do que tenho ouvido recentemente. É groovy, funky e tem um toque de soul, no entanto, e tendo em conta que estes elementos são algo característicos dos anos 80, a música parece extremamente atual e funciona espetacularmente bem.

O que Kaytranada fez bem no seu último projeto foi ter criado um álbum onde cada música se acompanha muito bem, não deixando que a energia se esgote antes da última faixa. Com Bubba, fica um pouco atrás, visto que algumas das suas faixas não acompanham as restantes e isso acaba por fazer com que o álbum perca a emoção que seria esperada.

O álbum não é mau, visto que a maioria funciona muito bem para o seu propósito: entreter a audiência e ritmicamente forçá-la a dançar durante o seu tempo de reprodução, no entanto, acho que há um lapso notável na tracklist e se algumas faixas tivessem sido mais retocadas e aprofundadas e outras tivessem sido removidas, o resultado poderia ter sido muito melhor.