Coronavírus: a nova estirpe e o desenrolar de uma epidemia

Chamam-lhe “novo” coronavírus porque, na realidade, já ocorreram outros surtos provocados por vírus desta família.

Imagem Ilustrativa via Unsplash/Jeremy Stenuit

A 31 de dezembro de 2019, dia de festividades de ano-novo para os seguidores do calendário gregoriano, foram reportados em Wuhan, cidade chinesa com cerca de 11 milhões de habitantes, um conjunto de casos de pneumonia atípica que tinham como ponto em comum o Wuhan’s Huanan Seafood Wholesale Market, um mercado que vende peixes e outras espécies de animais vivos.

A 9 de janeiro de 2020, o Chinese Center For Disease Control And Prevention anunciava que o responsável por estes casos é um novo coronavírus. Chamam-lhe “novo” coronavírus porque, na realidade, já ocorreram outros surtos provocados por vírus desta família: O MERS- CoV, que causa A Middle east respiratory syndrome e o SARS- CoV, causador de Severe acute respiratory syndrome.

Os coronavírus podem causar doença em humanos ou circular entre animais, incluindo camelos, gatos e morcegos. Ocasionalmente, os coronavírus de animais podem evoluir, passando a infetar humanos e a transmitir-se entre eles: foi o caso do MERS-CoV, do SARS-CoV e, à luz da evidência epidemiológica, parece ser também o caso do novo coronavírus.

A Middle east respiratory syndrome é uma infeção respiratória aguda. Foi identificada pela primeira vez na Arábia Saudita, em 2012. O espectro clínico da infeção pode ir da ausência de sintomas ou sintomas respiratórios ligeiros a pneumonia grave e rapidamente progressiva, síndrome respiratório agudo, choque séptico ou falência de múltiplos órgãos, resultando em morte. Este vírus tem a capacidade de passar de dromedários para humanos e continua atualmente em circulação.

Tal como o nome indica, a Severe acute respiratory syndrome provoca também um quadro de infeção respiratória que pode ser rapidamente progressiva. Os primeiros casos de SARS tiveram origem no sul da China (província de Guangdong) em novembro de 2002. Em 2003 estes casos isolados evoluíram para um surto de proporções internacionais que afetou 29 países, principalmente a China, Hong Kong, Taiwan, Singapura e Canadá. Atualmente não há casos conhecidos de SARS, sendo que os últimos casos foram registados em abril de 2004. Acredita-se que inicialmente o vírus terá passado para humanos devido ao consumo de um animal exótico, a civeta, e depois terá sofrido uma série de mutações que o tornaram progressivamente mais infecioso.

O novo corona vírus provocou, até à data e de acordo com informação do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), 560 casos confirmados laboratorialmente. Na China, ocorreram 641, incluindo 17 óbitos. Fora deste país registaram-se 4 casos na Tailândia, 3 em Hong Kong, 2 em Macau, 1 no Japão, 1 na Coreia do Sul, 1 no Taiwan e 1 nos EUA.

Todos os casos registados fora do epicentro de Wuhan têm ligações a esta cidade. Praticamente todos os indivíduos tiveram contacto com um mercado como o Wuhan’s Huanan Seafood Wholesale Market, que foi limpo e encerrado ao público a 1 de janeiro de 2020. Ainda assim, alguns casos parecem não ter ligação a mercados de produtos animais pelo que a hipótese de transmissão pessoa-a-pessoa foi ganhando força. Atualmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já confirmou a transmissão pessoa-a-pessoa, contudo ainda não se sabe ao certo com que facilidade é que a mesma ocorre.

Via Wikimedia/Cypp0847 CC BY-SA 4.0

Em época de festividades do ano-novo chinês, que comemora a chegada do ano do Rato, estamos perante um surto de um novo coronavírus que ameaça espalhar-se rapidamente devido à elevada movimentação de pessoas que ocorre na China por esta altura. De forma figurada, o rato, clássico animal portador de doenças, conseguiu trazer uma nova epidemia.

Neste contexto podemos interrogar-nos: como se gere uma epidemia?

Simplificando, podemos partir de um manual da OMS sobre como lidar com epidemias, o Managing Epidemics: key facts about major deadly diseases, que identifica as várias fases de resposta a uma situação deste tipo.

Primeiro, são acionados vários sistemas e organizações que permitem a antecipação do surgimento ou ressurgimento de doenças infeciosas e que permitem que tenhamos uma resposta rápida e estruturada a este evento. Neste surto, temos o exemplo da notificação dos casos de pneumonia atípica, o fecho do mercado e a caracterização rápida do novo vírus. Segue-se a identificação precoce do agente causador em animais e humanos, o que incluí delinear um plano para gerir aqueles que estiveram em contacto próximo com os doentes. Seguidamente, aplicam-se as medidas de contenção que deverão culminar na eliminação do risco de surto ou, idealmente, na erradicação da doença.

Apesar de não existir certeza absoluta sobre os reservatórios animais e as formas de transmissão do novo vírus, com os dados atuais e fazendo alguns paralelismos com os outros coronavírus, já foi possível delinear algumas medidas de contenção. Foi precisamente isso que a OMS com a elaboração do documento Infection prevention and control during health care whennovel coronavirus (nCoV) infection is suspected. Neste documento são descritas recomendações gerais para hospitais ao nível da prevenção da transmissão por via área, como máscaras faciais, quartos com pressão negativa ou, se estes estiverem indisponíveis, com filtro adequado e precauções em procedimentos que possam gerar aerossóis (como uma intubação). A lavagem das mãos e a utilização de luvas e roupa protetora pelos profissionais de saúde são também recomendadas. Descreve-se igualmente como devem ser manuseadas e eliminadas as amostras biológicas que vão ser alvo de análise.

Em Wuhan, além da triagem de saída no aeroporto internacional Wuhan Tianhe, as autoridades de Wuhan começaram por reforçar as medidas de rastreio noutros aeroportos, estações ferroviárias e de autocarros. Na quarta-feira, dia 22 de Janeiro, foi anunciado um shut-down dos transportes públicos — incluindo aeroportos. Já os veículos particulares estão a ser verificados quanto à presença de aves vivas e animais selvagens e as pessoas são aconselhadas a não andar em grupo. Os passageiros com febre são registados, recebem folhetos informativos e máscaras faciais e são encaminhadas para instituições médicas. Entretanto também as cidade de Huanggang e Ezhou adoptaram medidas similares.

Ainda não foram impostas restrições a nível de viagens ou de comércio, mas a OMS, ECDC e a Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos da América emitiram uma série de recomendações para viajantes de e para Wuhan, sendo que nesta terça-feira o nível de alerta quanto a viagens subiu do nível 1 da CDC (vigilância, implementar precauções habituais) para o nível 2 (estado de alerta, implementar precauções especiais):

Os viajantes para toda a Ásia devem:

  • Evitar o contacto com pessoas doentes;
  • Evitar animais (vivos ou mortos), mercados de animais e produtos provenientes de animais (como carne não cozida);
  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabão durante pelo menos 20 segundos. Usar um desinfetante para as mãos à base de álcool se não houver água e sabão.

Regressados da Ásia com febre, tosse ou dificuldade em respirar, devem:

  • Procurar atendimento médico imediatamente. Antes de ir ao consultório médico ou à sala de emergência, ligar com antecedência e informar sobre a viagem recente e seus sintomas;
  • Evitar o contacto com outras pessoas;
  •  Não viajar enquanto estiver doente;
  •  Cobrir a boca e o nariz com um lenço de papel ou a manga (e não as mãos) ao tossir ou espirrar;
  •  Lavar as mãos frequentemente com água e sabão por pelo menos 20 segundos. Usar um desinfetante para as mãos à base de álcool, se não houver água e sabão.

Quando à transmissão dentro de aviões, devem ser aplicadas as guidelines Risk Assessment Guidance for Infectious Diseases transmitted on Aircraft (RAGIDA) referentes ao SARS-CoV.

Em alguns aeroportos, nomeadamente nos Estados Unidos e alguns países asiáticos como a Tailândia, Malásia ou Singapura, entre outros, estão a fazer um rastreio de sintomas em passageiros que chegam de Wuhan. Na Europa há voos com ligações diretas a Wuhan em Paris, Londres e Roma e alguns aeroportos já estão a rastrear os viajantes que chegam desta cidade.

Na quarta-feira, dia 22 de Janeiro, a OMS reuniu para decidir sobre a declaração de Emergência de Saúde Pública Internacional ao surto, o que resultaria numa maior alocação de meios e fundos para combater a epidemia e poderia levar a restrições a nível de viagens e trocas comerciais. Pelas 19h50 a OMS fez uma declaração onde refere considerar ainda não possuir informação suficiente para tomar esta decisão pelo que voltará a reunir durante quinta-feira, dia 23.

Nesta conferência de imprensa, o Dr Michael Ryan explicou que para um surto ser considerado uma emergência internacional deve cumprir critérios como transmissão da doença fora do local de origem, ou seja, entre residentes de um país que não a China e compreender se há interferência da doença em viagens e comércio. Ainda sobre esta questão, o Professor Dider Houssin refere que faltam apurar questões relacionadas com a gravidade e transmissibilidade do vírus para tomar uma decisão final.

Texto de Maria Moreno

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