Entre Presidente da República e Delegado de Turma: descobre as diferenças

O mais curioso da afirmação de Cristina Ferreira – que, sublinhe-se, tem tanto direito a expressar a sua vontade ao cargo como qualquer outro cidadão nacional – é a distinção que faz entre a preparação necessária para o cargo de Primeiro-Ministro e o de Presidente da República.

Imagem via Shifter
 
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Nos últimos dias, tem sido notícia a frase de Cristina Ferreira em entrevista à revista Visão em que a apresentadora de televisão assume com alguma naturalidade que, apesar de não ter capacidades para ser Primeira-Ministra, poderia ser Presidente da República e representar todos os portugueses sem falhas.

No discurso, Cristina Ferreira diz que nunca tinha pensado nessa possibilidade mas que a começou a encarar quando sucessivas pessoas lhe disseram que tinha potencial e essa simplicidade lógica fez-me imediatamente pensar na semelhança – com diferente escala – na percepção que hoje em dia se tem sobre um Presidente da República e a figura clássica, que todos conhecemos, do Delegado de Turma.

O traço mais comum entre estas duas figuras é que, embora todos lhe reconheçamos importância, ninguém sabe bem o que fazem e qual a responsabilidade que têm. Na entrevista, Cristina fala do cargo de Presidente da República como um representante de todos os portugueses, tal como os colegas de turma vêem o seu delegado.

“Agora, representar todos os portugueses? Acho que um dia o poderia fazer, que me iria preparar e que não iria falhar”

Como a própria acaba por dizer tacitamente, esta imagem da presidência – associada quase em exclusivo a uma distribuição democrática de afectos – é fruto da sua apreciação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que a própria confessa admirar. Mais ainda tem subjacente uma lógica um tanto ou quanto populista que equivale popularidade e mediatismo a um certo grau de preparação para exercer um cargo político desta natureza.

Cristina Ferreira diz que reconhece algumas parecenças entre si e Marcelo Rebelo de Sousa, embora sejam separados por muitos anos e venham de diferentes mundos; a apresentadora diz que esta preocupação do “afecto para com o outro”, como refere o Público, os aproxima, num argumento que procura legitimar a putativa candidatura.

O mais curioso da afirmação de Cristina Ferreira – que, sublinhe-se, tem tanto direito a expressar a sua vontade ao cargo como qualquer outro cidadão nacional – é a distinção que faz entre a preparação necessária para o cargo de Primeiro-Ministro e o de Presidente da República, algo que se pode associar ao estilo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa – que tantas vezes deixa a política dos afectos e do mediatismo sobrepor-se à vertente de real politik, que num mundo em mudança será cada vez mais importante.

De resto, é importante sublinhar que esta tendência para as figuras mediáticas se desviarem para o mundo político não é propriamente nova – desde Donald Trump, figura central de um reality show, até Zelenski, comediante, a lista é extensa e vai até Ronald Reagan que foi actor antes de abraçar a carreira política.

O intuito deste artigo não é, de todo, descredibilizar as intenções ou o potencial de Cristina Ferreira à frente dos desígnios do país – como referido, todos temos o mesmo direito a essa vontade. Mas para lá chegar e para o cargo não perder importância, seria interessante que lesse a Constituição da Republica Portuguesa e percebesse que ser Presidente da República implica outros deveres para além da responsabilidade afectiva, que o estilo de Marcelo Rebelo de Sousa tornou tão preponderante e popular. Até o próprio Marcelo o sabe, embora poucas vezes o profira.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!