Na guerra entre Trump e Huawei, os EUA parecem cada vez mais sós

Os Estados Unidos não estão satisfeitos com o avanço de empresas chinesas em relação às empresas locais e abriram uma guerra para fragilizar a tecnologia chinesa.

Foto de Kārlis Dambrāns via Flickr, CC BY 2.0
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A Huawei nunca teve muito sucesso no mercado norte-americano mas o bloqueio comercial imposto no ano passado pelos EUA à tecnológica chinesa tornou tudo muito mais confuso e difícil. O Huawei Mate 30 Pro, o mais recente topo-de-gama da Huawei, chegou este ano a Portugal sem serviços da Google e com um processo de venda auxiliado por representantes da marca, de forma a garantir que os consumidores estão devidamente informados sobre o produto que estão a comprar.

Ou seja, a guerra entre a China e os EUA não mexe apenas com os respectivos países, mercados e consumidores. É uma questão política com um impacto global, até num país pequeno como Portugal.

O próximo telemóvel da Huawei, o P40, também será lançado sem suporte da norte-americana Google, porque a proibição da Huawei de fazer comércio com empresas dos EUA continua. A tecnológica chinesa redobrou os esforços, entretanto, para criar o seu próprio sistema operativo, a sua própria loja de aplicações e está a investir para que programadores de todo o mundo desenvolvam apps compatíveis com os telemóveis da marca; a Huawei continua a ser a segunda fabricante no mundo com maior quota de mercado em smartphones, posicionando-se entre a sul-coreana Samsung e a norte-americana Apple. Ao mesmo tempo, a Huawei está a fazer novos aliados, como a holandesa TomTom, cujos mapas, dados e software de navegação substituirá o famoso Google Maps nos equipamentos da marca.

O assunto China-EUA não é, no entanto, uma questão de telemóveis ou de marcas comercial. É um problema de tecnologia e um problema político. Os Estados Unidos não estão satisfeitos com o avanço de empresas chinesas em relação às empresas locais e abriram uma guerra para fragilizar a tecnologia chinesa. A Huawei está bastante avançada em matéria de 5G e pronta a implementar infra-estrutura para a nova geração de telecomunicações numa série de países, como Portugal ou Reino Unido — onde ainda esta semana foi notícia.

Os EUA – que não têm nem de perto nem de longe uma boa alternativa ao ‘5G chinês’ – têm tentado de tudo para contrariar esse poder, desde pressão directa aos seus aliados políticos, a ameaças de perda de ajuda norte-americana a países que avancem com o 5G da Huawei ou propostas de fundos milionários para financiar alternativas made-in-America.

O assunto é tão complexo e com tantas voltas e reviravoltas que é fácil perdermos o fio à meada; mas felizmente o site CNET construiu uma linha temporal com as últimas actualizações sobre este assunto, e que ajuda a perceber o que está ou vai acontecer. O tópico nem tão pouco se resume a Huawei e 5G; como referimos, tem a ver com o avanço tecnológico da China em relação aos EUA e ainda na recta final do ano passado um conjunto de 28 start-ups chinesas foram colocadas na mesma “lista negra” da Huawei.

Essas empresas de tecnologia – que incluem três start-ups de inteligência artificial (IA) avaliadas em mais de um mil milhões de dólares (a SenseTime, a Megvii e a Yitu) – ficam, assim, impedidas de fazer comércio com firmas norte-americanas. A justificação do Departamento de Comércio dos EUA é que essas entidades violam direitos humanos, favorecendo a opressão dos muçulmanos uigures e outras minorias na China. A SenseTime, por exemplo, valia 4,5 mil milhões de dólares em 2018, sendo à data a tecnológica no campo da IA mais bem posicionada no mundo inteiro.

Será este braço de ferro Trump vs. Huawei a solução para os EUA atrasarem a China e apanharem o passo? A Wired argumenta que não, depois de o Reino Unido não ter seguido os EUA num bloqueio à tecnologia 5G da chinesa. O país de Boris Johnson deu, esta semana, luz verde à Huawei para fornecer as partes não essenciais da rede 5G britânica. Também a União Europeia está de acordo com a Huawei fornecer tecnologia 5G, mas deixa dois avisos: um para haver outros fornecedores de forma a que a Huawei não se torne num monopólio; outro para os países naturalmente avaliarem o perfil de risco desses fornecedores.

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