EUA e Irão: o ‘reality show’ da política norte-americana no Twitter

Foi no Twitter que Trump justificou o ataque, ameaçou novos ataques de outros tipos – nomeadamente a sites – e reiterou a sua retórica.

As relações entre Irão e Estados Unidos da América são desde há muito tempo uma das mais prementes em todo o globo. Se Obama ainda forjou uma aproximação entre as duas potências, Donald Trump guinou em sentido contrário desde os primeiros dias da sua presidência e assim tem continuado.

Os acontecimentos dos últimos dias, nomeadamente a morte do General Qassem Soleimani, são apenas o último desenvolvimento de um cortar de relações que já tinha tido outros momentos importantes como em 2018, quando Trump rasgou o acordo nuclear estabelecido em 2015 entre EUA, Rússia, China, França e Reino Unido, Alemanha e Irão e voltou a aplicar sanções económicas àquele país.

Se tudo isto se foi passando entre gabinetes e Twitter, desde a escalada de tensão com a morte de um dos homens mais importantes na hierarquia política iraniana, a rede social que implica limite de caracteres tem ganho uma grande preponderância – bem como os anúncios no vizinho Facebook, como reporta o BuzzFeed News.

Numa espécie de diplomacia em 240 caracteres, Trump tem substituído os encontros bilaterais e até a comunicação com o Congresso por tweets, numa abordagem que lhe é característica mas que não deixa de ser surpreendente pela gravidade da situação. Já os líderes iranianos têm respondido na mesma rede social utilizando até a hashtag #SevereRevenge para antecipar possíveis retaliações.

Entre tweets belicistas e dirigidos ao Irão, pontualmente na conta de Donald Trump surgem também tweets sobre as boas relações com a Arábia Saudita e retweets da Fox News e de outros políticos que lhe dão razão neste ou noutros assuntos – como o afamado impeachment (que depois do ataque perpetrado pelos Estados Unidos passou para segundo plano). De resto, este particular da história assemelha-se ao ano 1998, quando Clinton ordenou um ataque ao Iraque e se viu a braços quando um processo do mesmo tipo. 

Desde o dia da morte de Soleimani, 3 de Janeiro, que a conta de Trump não tem parado por muitas horas, criando uma espécie de reality show da política externa norte-americana, que, conforme se pode supor pelos comentários em resposta, parece agradar a muitos dos seus apoiantes. Até o último acontecimento, a reacção ao ataque iraniano a duas bases militares norte-americanas no Iraque, foi feito em directo no Twitter, com o anúncio de um comunicado formal para breve.

Foi no Twitter que Trump justificou o ataque, ameaçou novos ataques de outros tipos – nomeadamente a sites – e reiterou a sua retórica. Se, como dizia Marshall McLuhan, o meio é a mensagem, uma guerra (que para todos os efeitos já o é) a decorrer em pleno Twitter mostra como esta é interessante para os interesses de Trump, que não procura qualquer discrição.

Na rede social também já começou a circular a hashtag #TrumpWarOfMassDistraction, acompanhando tweets que sublinham a ideia de que tudo não passa de uma estratégia política orquestrada por Trump. A dar força a esta ideia estão as suas declarações em 2012 quando disse que Obama poderia começar uma guerra com o Irão para ser re-eleito.

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