Filipe Sambado: detalhes arabescos e sentimentos intrínsecos no regresso do cantor algarvio

Filipe Sambado está de volta “a casa” e Revezo marca o regresso do cantor que continua a cruzar o tradicional e o pop.

Fotografia de Joana Matos/Shifter

Filipe Sambado está de volta aos lançamentos; Revezo marca o regresso do cantor que continua a cruzar o tradicional e o pop. Ao terceiro álbum de estúdio, Filipe Sambado volta a estar a solo, sem os Acompanhantes de Luxo. O disco é uma “…planificação de conforto privilegiado na horizontal”, preenchido pela rotina trabalho/casa, e expressa o manifesto de poder concretizar alguns desejos enquanto se debruça em novos ambientes, novas texturas e contingências estéticas, sempre com a mesma capacidade de nos levar até porto seguro e acarinhar melodias.

“Jóia da Rotina” foi o single de abertura para esta viagem de amores e ritmos – tanto melancólicos como entusiasmantes –, com um videoclipe recheado de elementos tradicionais e uma afirmação triunfal de Filipe Sambado. Em Revezo, o foco criativo teve várias dinâmicas e junções. Do último álbum “colheram-se” alguns elementos como percussões densas, electrónica e presença de flautas, uns “toques” de psicadelismo pop e até umas castanholas, que agora integram a estrutura de um disco que entra pelo mundo do folclore e da música popular portuguesa – através do acompanhamento da habitual voz de Filipe Sambado, que tanto nos dá um conforto emocional como enorme vontade de dançar.

Revezo é um regresso ao passado e às tradições bem portuguesas com os olhos postos no futuro e no que a liberdade artística permite fazer; é o refletir sobre as incertezas da sociedade, das relações e da vida quotidiana espelhadas em grandes canções de amor; é o adoptar de ritmos tipicamente portugueses como o vira-vira, o malhão ou o corridinho e concilio com estilos recreativos, inspirados em lendas do passado como Fausto e Zeca Afonso ou ícones do momento, como Rosalía.

O segundo álbum de Sambado com carimbo da Valentim de Carvalho promete dar que falar e é mais uma vez forte candidato a servir como reafirmação do talento que o cantor já deu a mostrar. São 10 faixas tipicamente portuguesas e uma maturidade artística que é notável e solidifica o legado de Filipe Sambado. Revezo é apenas mais uma prova do já longo e sólido catálogo de projetos que o cantor tem vindo a difundir ao longo da carreira e com a particularidade de que, a cada álbum, vemos um engrandecimento simbólico – tanto na música como na personalidade, sempre inquietante e liberta.

Foi numa manhã fria e inquieta que fomos saber mais sobre o novo disco, o jardim do Príncipe Real serviu de local de encontro para a entrevista. 11 graus marcavam lá fora em contraste com os 30 graus que se faziam sentir dentro do café onde Filipe Sambado respondeu às nossas perguntas; de pequeno-almoço tomado e voz aquecida, o ambiente reconfortante daquele café deu espaço para a simpatia e para o peculiar e engraçado nervosismo do cantor surgirem.

Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo foi considerado por muitos um dos melhores discos nacionais de 2018, sentes o peso da responsabilidade neste novo disco?

Não sei, isso ajudou-me a estar até mais relaxado, na medida em que de certa forma sinto que já tenho do meu lado alguma imprensa. Isso deu-me até mais conforto do que preocupações porque, quando ninguém te conhece, sabes que tens de estar sempre a batalhar mais para te fazeres conhecer no sentido de chegar a mais públicos ou assim. E não senti decrescimento de carreira. Acho que a preocupação de ganhar mais público tem mais a ver com a tua sustentabilidade enquanto trabalhador e não tanto na tua criatividade enquanto artista. É mais “posso estar a fazer isto ou então tenho de ir arranjar outro trabalho”. Recentemente consegui deixar de ter/precisar de um segundo trabalho e consegui estar dedicado à música, portanto nesse sentido acho que isto é só mais confortável. Agora o resultado que isto possa vir a ter no futuro é um bocado indiferente.

O lançamento da música “Jóia da Rotina” foi uma estratégia para revelar que o tradicional e o pop compõem a sonoridade do teu novo álbum?

Não sei se passa por ideia de estratégia, foi só uma decisão tomada em conjunto com a Valentim de lançar aquela que pudesse desempenhar o melhor papel de single. O meu disco tenta fazer esse caminho, não é? Mas não é tanto na ideia de revelar, é mais uma tentativa de investigação minha: quero ver de que forma é que posso fazer/tentar jogar com essa zona mais folclórica e com os ritmos mais pop; mas não teve uma estratégia nesse sentido, era o que me fazia mais sentido ser assim.

Revezo assinala a combinação de vários instrumentais, a introdução de uma estética renovada e texturas tipicamente portuguesas. O que te fez caminhar neste sentido?

Cheguei aí mais ao menos a meio do processo do arranjo das canções. Eu fiz as canções todas e depois, quando decidi começar a trabalhá-las, fui atrás daquilo que estava a ouvir mais na altura… E eram artistas que se calhar já o faziam no seu tempo, como o Fausto e o Zeca; eles já o faziam no seu tempo. Achei que era interessante o que eles também fizeram com a sua noção do folclore e como se apropriaram dele para fazer as suas canções; tentei fazer uma coisa, se calhar, ao meu jeito. Depois, a meio do processo, comecei também a interessar-me muito pelo disco El Mal Querer da Rosália e de certa forma ajudou-me também a ter ideias na medida como ela o fez com o seu folclore e como eu o poderia fazer – se bem que, lá está, não é bem a mesma coisa.

Já é bastante notório que em todos os teus projetos há sempre uma predominância de sentimentos e amor, é algo que vês como recorrente no teu processo artístico?

Sim, é a minha maneira de falar das coisas. É um interesse que tenho: falar sobre os meus sentimentos, porque é aquilo que eu tento dominar. Até por questões de inquietação pessoal, tentar falar sobre os meus sentimentos ajuda-me numa vida mais terapêutica.

Qual é a sensação de participar no Festival da Canção?

Estou bastante ansioso, é um bocado cansativo; não estou a saber lidar muito bem com a hype ou o stress de ter de lidar com um evento com uma dimensão tão grande, mas vamos ver como é que corre. Não sou muito fã da ideia de competição – isto parece que se cria uma espécie de convite para as pessoas começarem a apoiar as canções quase como se fossem clubes ou partidos ou uma coisa assim. É assim meio estranho, parece que deixam de ouvir a canção; parece que têm uma opinião sobre o desempenho que ela pode ter, que determinadas funções e não no seu valor concreto.

No último álbum, maquilhagem e roupas eram temas bem presentes como forma de denunciar aquilo que não é aceitável segundo os padrões da sociedade; sentes que ainda é necessário haver consciencialização sobre o assunto?

Claro e continuo a sentir agora que passaram dois anos do outro disco. Se calhar, senti menos urgência de falar deles mas continuo a sentir muita urgência de demonstrar a minha necessidade de liberdade. Se calhar, fiquei mais em paz com esses tópicos e daí, entretanto, não querer inclui-los em letras ou assim, pelo menos não de uma forma tão vincada. Mas é super importante continuar a dar espaço a essa temática, sim.

Podemos dizer que este novo álbum é um regresso ao “Filipe Sambado” de discos pessoais e emotivos?

Sim, mas eu tento ter sempre esse lado. Quanto ao último, eu acho que houve uma ideia um bocado marcada porque há duas músicas que têm tópicos muito fraturantes, que são a “Deixem Lá” e a “Indumentária”, e depois ouves uma voz assim forte; mas maior parte do disco anterior também é a falar muito sobre o meu estado de espírito e mesmo essas músicas que podem parecer mais políticas podem ser também bastante emotivas. Neste, o que eu sinto que acontece – mas noto mais nisso depois de ter o disco concluído – é que é um disco que tem uma convicção bastante consciente e política; só que é feito com uma noção um bocadinho diferente; com mais noção daquilo que posso dizer, um bocado mais convicto das frases que são só minhas ou assim.

Percebi que no outro [disco] há muita pertinência naquilo que disse, mas que mesmo que às vezes possa ter desempenhado um papel que se calhar poderia tê-lo feito com mais calma. Neste falo muito das minhas coisas, dos meus problemas mais ligados ao trabalho; por exemplo, que é uma coisa que acaba por ser uma prisão muito grande para mim. Achei engraçado ir-me debruçando sobre essas temáticas e perceber de que forma é que tenho um lugar feliz fora daí e acho que isso acaba por também marcar uma posição política interessante – que é o teu “safe place”, por assim dizer. Ao longo do disco eu vou falando um bocado disso.

Dirias que este álbum pode ter também um pouco de influência da música mediaval?

Não tenho noção disso, por exemplo. Medieval, não. Acho que tem do lado mais português que eu conheço, a “Gerbera [Amarela do Sul]” tem um reminiscência qualquer mais arabesca, mas acho que se deve também ao meu período mais algarvio. É um bocado feira de Silves ou assim, músicas do mundo na feira de Silves, qualquer coisa assim; não é tanto uma ideia medieval, são detalhes mais arabescos dessa ideia da música de fusão lá em baixo. Acho que é mais por aí do que outra coisa.

Quais diriam ser as tuas maiores inspirações?

Quais são as minhas maiores inspirações, hm… dos últimos três discos a banda que me acompanhou mais foram mesmo os Animal Collective porque estiveram sempre próximos de tudo. Mas depois há coisas que vou sempre ouvindo; tipo Robert Wyatt, vou picando, volta e meia; The Twins também é uma coisa que estou sempre a passar. Depois neste disco houve uma predominância, como estava a dizer há pouco, de uma música daquele período dos anos 60/70, da canção da resistência e protesto e não sei quê, que me ajudou como intermediário para conhecer melhor uma tradição mais popular portuguesa. Porque, de certa forma, não fui tentar ir à raiz das coisas; não andei a consumir música de rancho nem nada disso. Foi, portanto, por uma terceira via; foi um consumo indireto, por assim dizer.

Fotografias de Joana Matos/Shifter

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