Plantemos mais árvores, plantemos mais comunidade

A plantação das árvores tornou-se um momento comunitário, como numa cidade pouco se vê. Lisboa ficou mais verde, mas esta iniciativa teve um efeito secundário interessante: colocou desconhecidos a confraternizarem uns com os outros, a ajudarem-se, a conhecerem-se…

Fotografia via Shifter
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Numa cidade as relações humanas parecem sempre tão frias, distantes e fugazes. Cada um está por si, há um sentimento de indiferença em relação ao próximo e poucas coisas parecem conseguir unir as pessoas. No metro empurramo-nos para sairmos primeiro, no trânsito apressamo-nos a passar o vermelho porque queremos chegar mais rápido, nas loja são simpáticos connosco por mera cortesia e obrigação comercial…

Na manhã deste domingo, em Lisboa, plantaram-se mais de 20 mil árvores pelas mãos, enxadas e pás de milhares de voluntários, que aceitaram o convite feito pela Câmara. Estava à espera de um evento mais político, mas não havia políticos (pelo menos assumidamente) e ninguém nos chateou com discursos sobre a ‘Capital Verde Europeia 2020’. Esse discurso ficou guardado para as redes sociais da Câmara, da Capital Verde e de Medina. No local colaboradores da Câmara iam organizando grupos de cerca de 50 pessoas entre a multidão que desde as 9 horas se foi acumulando e esperando no largo do quiosque do Parque Urbano do Vale da Montanha, um dos locais da plantação (*).

Cada grupo foi levado para uma zona diferente do Parque, existindo áreas de plantação mais difíceis que outras, dependendo da inclinação do terreno – as crianças, por exemplo, foram acompanhadas para as partes mais planas. As covas estavam pré-feitas e as plantas no local em vasos, prontas a serem plantadas. Havia pás, enxadas, adubo e outras ferramentas que tínhamos de partilhar uns com os outros porque não havia para todos. Uma técnica dava algumas orientações-chave e orientava o grupo para um local vago; a partir daí, estávamos por nossa conta e risco.

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A plantação das árvores tornou-se um momento comunitário, como numa cidade pouco se vê. Lisboa ficou mais verde, mas esta iniciativa teve um efeito secundário interessante: colocou desconhecidos a confraternizarem uns com os outros, a ajudarem-se, a conhecerem-se… É que, apesar de muitas pessoas irem com amigos ou familiares, foram “obrigadas” a interagir com desconhecidos – ora porque faltava uma enxada, ora porque o adubo acabou e era preciso ir buscar mais à “base”.

Lisboa precisa de árvores – e esta iniciativa, inédita, plantou 21 mil novas árvores na capital, com fé de que agora a Natureza as deixe sobreviver –; mas Lisboa precisa também desse espírito comunitário. Eventos organizados pela Câmara Municipal podem ter sempre aquele peso maçudos e chato, mas iniciativas como esta, que são simples (e divertidas), podem ajudar a humanizar a cidade e a fortalecer os laços entre as pessoas, sempre tão frias, distantes e fugazes. Venham daí mais plantações de árvores!

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(*) O Parque Urbano do Vale da Montanha, que fica entre o Areeiro e Chelas, tendo ligação directa para outros dois parques urbanos – o da Bela Vista e o do Vale de Chelas – e formando, assim, uma grande mancha verde no coração da cidade.

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