Relógio do Apocalipse e Calendário Cósmico: duas formas de pôr a Humanidade em perspectiva

A diferença entre a idade da nossa espécie e a idade do nosso lugar, entre a nossa esperança média de vida e o ritmo de alguns fenómenos naturais, nem sempre nos permite pôr as coisas em perspectiva, nem ter noção real das mudanças globais.

Imagem via Shifter

Se há conceitos que nos circuitos mais especializados geram discórdia são os mais elementares que constituem a experiência humana, entre eles tempo e espaço. Embora o relógio circunscrito às 24h diárias nos habitue a esta convenção, é vulgar ouvirmos falar nas diferenças na escala do tempo nas diferentes ciências. Se para nós, comuns mortais, 1 ano pode ser muito tempo, na escala da geologia é uma parcela quase insignificante.

A diferença entre a idade da nossa espécie e a idade do nosso lugar, entre a nossa esperança média de vida e o ritmo de alguns fenómenos naturais, é o gerador desta dissonância, que nem sempre nos permite pôr as coisas em perspectiva, nem ter noção real das mudanças globais.

É por isso que, entre cientistas, se criam ferramentas simbólicas para nos dar uma ajuda neste exercício. Duas das mais famosas são o Relógio do Apocalipse – ou Doomsday Clock –, acertado todos os anos; e o Calendário Cósmico, criado por Carl Sagan e publicado no livro Os Dragões do Éden, em 1977.

O Relógio do Apocalipse

O Doomsday Clock, ou Relógio do Apocalipse, é como um despertador que nos diz daqui por quanto tempo o mundo pode entrar numa fase apocalíptica – por acção humana ou desastres naturais por esta potenciados.

O Relógio do Apocalipse é definido pela Bulletin of Atomic Sciences, associação formada por alguns dos membros do Manhattan Project – responsáveis pela criação da bomba nuclear – e que já contou com membros como Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer, Carl Sagan, Al Gore, Isaac Asimov, e Arthur C. Clarke. O relógio é acertado apenas quando se altera o nível de perigos para a Humanidade.

Imagem de Fastfission via Wikimedia Commons, CC0 1.0

A proximidade do ponteiro à hora final foi a forma encontrada pela organização sem fins lucrativos para representar o perigo para a Humanidade de entrar em colapso. Este ano, pela primeira vez, foram também consultados na decisão membros dos The Elders, uma ONG fundada por Nelson Mandela e da qual fazem parte, por exemplo, Ban Ki-Moon, antigo Secretário de Estado das Nações Unidas.

É na reunião de pontos de diferentes pontos de vista, desde o de cientistas ao de altos representantes políticos como Ban Ki-Moon ou o antigo secretário da Defesa de Bill Clinton, agora presidente do Bulletin, que o ‘relógio’ colhe a sua notoriedade. Não sendo uma ferramenta objectiva, ou cujo resultado seja exacto, o Doomsday Clock deve ser alvo de escrutínio e de crítica; há quem, por exemplo, aponte uma agenda política por de trás das ameaças que são apontadas e quem explique o fenómeno pela estratégia de marketing.

A verdade é que, sempre que há mudanças, há headlines; gera-se alarme mas nem por isso se percebe o que muda para além da celeuma.

Foto de Bulletin of the Atomic Scientists/DR

Este ano o relógio avançou como nunca para perto da meia-noite – hora do Apocalipse – em resposta às duas ameaças existenciais simultâneas: guerra nuclear e mudança climática. Para além destas duas, numa nota emitida pela organização, a guerra de informação provocada pelos meios digitais é um terceiro vector de agravamento, uma vez que impede a sociedade de responder convenientemente às ameaças que vê. Pela primeira vez na história do relógio, o tempo em 2020 expressa-se em segundos – 100 segundos –, aproximando-se 20 da meia noite, depois em 2018 se ter situado nos 2 minutos para a meia noite.

O Calendário Cósmico

Numa outra perspectiva, menos catastrófica, podemos falar de um outro instrumento, também ele desenvolvido por um cientista, para colocar o tempo em perspectiva. O Calendário Cósmico não nos diz o quão próximo estamos do final, mas mostra o quão irrelevante é a expressão temporal que a Humanidade ocupa na história do mundo – mostrando-nos, quiçá, o quão efémera é a experiência da humana.

Popularizado pelo físico e escritor de divulgação e ficção cientifica, Carl Sagan, no seu livro de 1977, Os Dragões do Éden, este calendário pretende-se situar-nos não em relação ao fim mas ao princípio da vida na Terra. Para isso, todos os eventos conhecidos na história da Terra são transpostos para a escala temporal que nos é mais familiar, começando na unidade de ‘1 ano’.

Imagem de Efbrazil via Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Nesta escala, em que o dia 1 de Janeiro seria o Big Bang, marcando o princípio da formação da Terra há 13,8 mil milhões de anos atrás, apenas a 14 de Setembro surgiriam as primeiras formas de vida conhecidas pelo Homem – há 4,1 mil milhões de anos. Já a vida humana e os seus ancestrais surgiriam apenas no dia 30 de Dezembro, com cada parcela a representar pouco mais do que um par de minutos. Os conhecidos Impérios da história da Humanidade representam nesta escala apenas segundos e o tempo do Renascimento na Europa, seria sensivelmente às 23:59:58, com a história recente da Humanidade restrita ao último segundo da escala – representando sensivelmente 438 anos.

Ao permitir uma visão da pequenez da Humanidade em relação à história da Terra como um todo, este calendário pode motivar-nos a agir. Se o Relógio do Apocalipse diz que em 100 segundos tudo pode mudar, o Calendário Cósmico mostra como cada fase não passa de um piscar de olhos à escala do tempo global; e, se tudo pode mudar a esta escala, instantaneamente, se não fizermos nada é provável que o nosso período nem chegue a ser um segundo da história.

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