Entre o que somos e queremos ser, contam-se 10000 Gestos

Assistimos a 10000 Gestos, espetáculo que Boris Charmatz criou em 2017, onde tudo parece uma constante novidade, uma narrativa sem fio condutor que se compõe por múltiplos clímaxes.

10000 gestos Tristam Kenton via Culturgest
 
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Num auditório a meia-luz, uma bailarina com um fato de saia e casaco em lantejoulas vermelhas corre da cochia para o palco sem que alguém avise que começou. Quase num sussurro, ao fundo, ouve-se algo que se assemelha ao Requiem de Mozart, que se vai fundindo na respiração que marca os tempos de cada gesto da bailarina. Numa avalanche de passos, juntam-se em palco mais dezoito bailarinos.

No auditório principal da Culturgest assistimos a 10000 Gestos, o espetáculo que Boris Charmatz criou em 2017 e sabemos, à partida, que naquele palco nenhum gesto se vai repetir. Deixamos lá fora um mundo onde reina a novidade da presença humana – ou pelo menos achamos que deixámos.

É quando a banda sonora aumenta ligeiramente de volume que conseguimos confirmar que estamos numa viagem musicada por Mozart e que, dali para a frente, o volume inconstante a que o Requiem em D menor sai das colunas vai contagiar até o ritmo nossa respiração. Em frente às três paredes que formam o palco, cada bailarino delimita individualmente o espaço que lhes pertenceaté, num conjunto de gestos frenéticos e irrepetíveis, começar a questionar os limites que criou. Em grupo, mas cada um por si, saltam para as colunas, correm entre cochias e sintonizam-se na mesma frequência a derrubar tantas vezes quanto possível a quarta parede; uma sensação que já tinha sido dada pela ausência de escuridão do lado de cá, do público.

10000 gestos Tristam Kenton via Culturgest

Numa espécie de efeito borboleta, contagiam-se sem terem de se tocar ou sequer de se olhar. Une-os o tempo, o espaço, o som. Distancia-os o esforço hercúleo de cumprir ou criar a sua própria coreografia, individualmente, a partir da memória do corpo de cada um. 

Se por um lado tentamos inventariar cada gesto, como se quiséssemos agarrar a sua efemeridade e transportá-la para uma base de dados ou um museu dos gestos, por outro desistimos de tentar perceber se algum gesto realmente se repetiu e entramos novamente na viagem conduzida por Charmatz, musicada por Mozart e destabilizada por dezanove bailarinos.

Ainda que possamos reconhecer o legado de Merce Cunningham — que já foi, na verdade, o ponto de partida para um dos espetáculos do coreógrafo francês — ou de Pina Bausch em algum momento, 10000 Gestos não se trata de criar uma compilação “em modo referencial”, como o próprio Charmatz indica na entrevista que deu ao escritor Gilles Amalvi em setembro de 2016 e que serve de contexto na folha de sala. Mas tal como os pontos divergentes entre estilos de Cunningham e Bausch, tudo em 10000 Gestos vive em tensão.

Do grito catártico de dezanove pessoas que se torna ensurdecedor ao silêncio repentino mas natural que serve de respiro a outros momentos de catarse, todos os momentos em 10000 Gestos são tão discretos na sua intenção como cheios dela. Depois da tempestade, o caos.

O Requiem continua, há uma contagem em voz alta, e uma mancha de gente quebra, de uma vez por todas a quarta parede. Por entre as cadeiras da plateia, continua a questionar-se os limites do espaço – o nosso e o do outro. Colados às cadeiras, espectadores dividem-se entre os que se deixam contagiar e os que continuam a segurar a máscara social que parece relembrar como é que é suposto comportarmo-nos numa sala de espetáculos – Podemos rir? Podemos dar a mão a quem nos convida para dançar? Podemos desatar a correr para o palco?

10000 gestos Tristam Kenton via Culturgest

Em 10000 Gestos tudo parece uma constante novidade, uma narrativa sem fio condutor que se compõe por múltiplos clímaxes e da qual, a certa altura, percebemos que sempre fizemos parte. Na verdade, não há lado de cá nem lado de lá. Somos todos humanos a carregar as nossas máscaras, sempre perto de poder falhar e ultrapassar o risco que delimita o nosso próprio espaço.  Mesmo em grupo – sobretudo em grupo -, demarcamos o espaço que dificilmente deixamos invadir e vamos vivendo um solo que se vai encontrando em pas-de-deux.

Em crescendum o Requiem chega ao fim, as luzes apagam-se e a composição de gestos vive, por fim, na efemeridade. Lá fora, a vida segue num compasso diferente do que seguia quando entrámos. Os gestos repetem-se.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!