Breaking News: Balenciaga usa a moda para questionar norma política

“O que é que se passa com a Balenciaga?" - o artista Will Benedict criou o vídeo da última campanha da marca, onde pivôs e repórteres são substituídos por modelos a conduzir uma emissão de telejornal.

 
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Entre a quarentena das vítimas de Codvid19, os jogos de futebol e os últimos encontros de Trump, as notícias de telejornal representam um enquadramento da realidade que se situa entre o espanto que é conseguir comunicar acontecimentos em dois minutos e o terror de deixar de fora nuances da realidade. Ligar a televisão em “horário nobre” pode significar ficar assoberbado com o que se passa lá fora, mas importa lembrar essas camadas que não cabem no enquadramento.

Foi a pensar nesta sensação que o artista plástico Will Benedict criou o vídeo da última campanha da Balenciaga, onde pivôs e repórteres são substituídos por modelos aparentemente alienígenas – ou alienados? -, a conduzir uma emissão de telejornal que no Twitter aparece num loop de 24 horas. Com um trabalho que pisa constantemente a linha entre o real e o ficcional, a fotografia e a pintura, e outros binómios convencionalmente separados, o artista americano radicado em Paris conseguiu deixar os intervenientes de uma indústria tantas vezes previsível a questionar o que é que se passa com a Balenciaga?”

Benedict explica à Vogue que, na verdade, este cenário estranho e alienígena é bem melhor que a realidade e que “se fosse fazer o que está realmente nas notícias” ia “assustar as pessoas”, por isso “não podia ser tão hard-core como as notícias reais”. Acompanhado por uma banda sonora criada por Wolf Eyes, o vídeo vai lançando as notícias do dia num mundo distópico, onde subtilmente se vão mostrando as peças da nova coleção da casa francesa – ora como simples guarda-roupa das personagens, ora como recurso para acontecimentos.

Ainda antes de se ter lançado o vídeo nas redes sociais, já tinha sido dada a conhecer a campanha Primavera-Verão 2020 através de fotografias que se assemelham às de uma propaganda política, não fossem estas realmente da autoria de Laurence Chaperon, fotógrafa cujo portfólio está cheio de trabalhos com, e para, políticos. Liderado por uma espécie de Bernie Sanders andrógino (como Aleks Eror identifica), o casting fez-se por pessoas de diferentes etnias acompanhadas por mensagens positivas e genéricas – como em qualquer campanha política – como “Love is for everyone”, “Power of Dreams”, “Think Big” e “We Vote For Tomorrow”. Qualquer semelhança com os slogans “Not me. Us”, do próprio Sanders, ou mesmo “Lead with Love”, da candidata democrata Tulsi Gabbard, não serão pura coincidência — e a campanha ter saído em plena época de eleições primárias nos Democratas também não.

Se repararmos com atenção, todas as características das personagens-tipo dos dias que correm, estão lá – do desfile à campanha em fotografia e vídeo. Demna Gvasalia, o diretor criativo da Balenciaga, levou para o seu campo de trabalho todos os estereótipos que tantas vezes associamos à América, usando-os para se questionarem a si mesmos. Políticos que prometem um futuro com mais amor para todos, homens e mulheres desenhados por operações plásticas, cartões de crédito que não transportam peso de culpa e jornalistas que trabalham num loop sem questionarem o enquadramento que fazem; todos estão representados.

Segundo uma entrevista que deu à revista Vogue, Inge Grognard, maquilhadora responsável pelo desfile da marca, Gvasalia perguntou-lhe se estava “pronta para esticar os limites no que diz respeito ao rosto”. Lauren Valenti, jornalista da Vogue, chama-lhe “hiperrealidade”.

Demna Gvasalia não só é diretor criativo da Balenciaga, como co-fundador da Vêtements, a marca que rasgou o capitalismo em pedaços e o costurou em peças de roupa. Através de um trabalho criativo sempre em coletivo, o diretor criativo natural da Georgia, tem vindo a rir da moda dentro do seu próprio circuito enquanto, ao mesmo tempo, a leva a sério. Líder da casa francesa desde 2015, foi considerado um dos BoF500 pela Business of Fashion e, apesar de ter sido questionado múltiplas vezes sobre os limites da apropriação, aos 38 anos já é visto com certeza na (e pela) indústria.

 

A tomada de posição em campanhas de moda não é de agora – ainda que por vezes seja questionável. Das manifestações de Vivienne Westwood pelas alterações climáticas à manifestação encenada por Karl Lagerfeld no desfile de Primavera/Verão da Chanel 2015, até às incontornáveis campanhas de Oliviero Toscani para a Benetton ou a campanha desprovida de sentido da Just Cavali no Outono/Inverno de 2013; levar para um desfile ou uma campanha uma carga política nem sempre é sinal de consciência.

Se Vivienne Westwood faz dos problemas ambientais uma luta diária e Oliviero Toscani não fez do tomar de posição um acontecimento esporádico, já Karl Lagerfeld criou um momento de hipocrisia e a Just Cavali fez do estilo o mote para uma revolução, desprovida de qualquer sentido. Com Demna Gvasalia podemos duvidar do questionamento ao sistema capitalista dentro de uma grande casa de moda que mexe com milhares de euros, mas sabemos que, munido de uma equipa que sabe como fazer as coisas, vai pôr quem vê a moda como um campo da futilidade, onde não existem intenções artísticas, a pensar.

A heterogeniedade do casting e dos coordenados que, sem querer, acabam por passar para segundo plano, contrasta com as mensagens quase genéricas que servem de slogan à campanha falsificada. Numa espécie de alerta que nos chega tão subtilmente como as sugestões geradas por algoritmos no feed, a Balenciaga põe noutra dimensão a plasticidade das fórmulas — da fotografia à escrita para campanha.A  moda pode, sim, ajudar-nos a questionar-nos enquanto agentes políticos. Com esta campanha Demna Gvasalia parece querer recordar-nos de que as pessoas são o último reduto da humanidade, e como aquilo que vestem pode ajudar a construir uma persona – sem que, muitas vezes, nos apercebamos disso conscientemente.

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