“Uma revolução aconteceu e nós estávamos a ver Netflix” – Brian Eno sobre o Brexit

Para o músico é claro que "aqueles que se consideram liberais ou democratas" não prestaram atenção às classes trabalhadoras e perderam a noção de como o seu modo de vida estava em declínio.

Foto de Shamil Tanna, modificada por Shifter
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Brian Eno, conhecido músico britânico, foi ao longo dos tempos uma voz activa no comentário político. Sempre com algum distanciamento, o artista ia exprimindo as suas opiniões sobre o mundo, sem cair num registo demasiado directo ou num comentário formal sobre assuntos concretos. Fê-lo aquando da eleição de Trump e agora à boleia do Brexit, numa extensa carta publicada no site do partido fundado por Yanis Varoufakis, o DiEM 25.

Brian Eno mostra-se um convicto opositor ao Brexit e escreve aos seus amigos europeus, num registo que mistura o tom pessoal e o comentário e no qual se propõe a dizer o que aconteceu em Inglaterra. Brian começa por apontar o que considera terem sido os ingredientes do Brexit: a imprensa que diz ser detida por um grupo restrito de pessoas ricas, a fantasia sobre o passado imperial da coroa britânica, o modelo de negócio dos media focados em cliques e que privilegia posições populistas, e as redes sociais que nos levam a ter discussões polarizadas mais do que a chegar a compromissos de entendimento.

Na segunda parte da carta, Eno explica um outro fenómeno no qual reconhece alguma responsabilidade pessoal. Para o músico é claro que “aqueles que se consideram liberais ou democratas” não prestaram atenção às classes trabalhadoras e perderam a noção de como o seu modo de vida estava em declínio, deixando os media criar a narrativa de que os culpados desta deterioração das condições eram os mais frágeis, como imigrantes ou refugiados.

Eno é peremptório em apontar o conforto em que actualmente se vive como um dos segredos para o triunfo dos que intitula de populistas – “tínhamos os nossos iPhones, as nossas apps, a conta na Amazon, os voos baratos para sítios costeiros e outras formas de desperdiçar o nosso tempo”, escreve numa analogia a uma espécie de alienação que procura criticar.

“Uma revolução aconteceu e nós estávamos sentados a ver Netflix” é, talvez, uma das frases mais lapidares da carta do músico, que termina a sua carta deixando o aviso de que em outros países pode acontecer um fenómeno semelhante ao do Brexit. Eno recomenda a quem se opõe a políticos como Trump e Boris Johnson que não ria apenas deles, que os combata pensando e criando alternativas válidas.

Eno critica ainda a forma como a União Europeia se tornou um alvo fácil que políticos populistas não se coíbem de aproveitar na construção da sua narrativa.

Na mesma página da carta, surge logo uma resposta de Yanis Varoufakis, fundador do DiEM 25, que expressa a sua solidariedade para com Eno, dizendo que a grande lição que tira da partida dos britânicos é a de que o fenómeno chegou para convencer Eno de que “se a União Europeia não existisse, tinha de ser inventada”. Varoufakis finaliza a sua resposta com uma toada de esperança dizendo que ‘a luta’ nos diferentes países ainda só agora começou e que é preciso aproveitá-la.

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