Consumo de carne vermelha: um risco para a saúde ou para o ambiente?

Deixando os mitos de parte, foquemo-nos nos estudos que se debruçam sobre as evidências ao dispor da ciência num e noutro caso.

Theo Leconte via Unsplash

Durante os últimos anos as carnes vermelhas têm sido altamente diabolizadas. Por um lado, há quem afirme que podem ter um contributo significativo para o desenvolvimento cancerigeno, por outro, quem aponte que a sua produção é uma das responsáveis pela crise climática. Deixando os mitos de parte, foquemo-nos nos estudos que se debruçam sobre as evidências ao dispor da ciência num e noutro caso.

Sobre a saúde humana:

Durante muitos anos, muitas organizações têm afirmado que a carne vermelha e processada é prejudicial para a saúde. As Recomendações Americanas Dietéticas 2015-2020 recomendam limitar o consumo de carne vermelha para uma única vez por semana, enquanto que a World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research recomenda, genericamente, limitar o consumo de carne vermelha para quantidades moderadas e o consumo de carne processada para quantidades muito reduzidas. A World Health Organization International Agency for Research on Cancer chegou inclusive a classificar o consume de carne vermelha como “provavelmente carcinogénico” para os humanos, e a carne processada como “carcinogénica”. Contudo, todas estas recomendações, bem como muitas outras, foram realizadas com base em estudos observacionais, o que as torna de pouca robustez e evidência limitada.

Face a estas limitações foi criado um grupo independente composto por clínicos e nutricionistas com competência em metodologia de revisões sistemáticas e criação de recomendações práticas. Este grupo desenvolveu um consórcio internacional de recomendações nutricionais, chamado NutriRECS, para produzir recomendações nutricionais consistentes e baseadas na evidência.

Mais de 100 estudos, incluindo mais de 6 milhões de participantes foram analisados e, em Novembro de 2019 saíram novas recomendações nutricionais, contrárias a quase todas as que existiam até então. As conclusões gerais foram que as dietas contemplando reduções no consumo de carne resultam apenas em pequenas diferenças no risco de doenças cardiometabólicas e cancerígenas. Estas novas recomendações sugerem assim que os adultos podem ou devem manter o actual consumo de carne vermelha.

Analisando de forma mais pormenorizada os vários estudos efectuados podemos perceber que a redução do consumo de carne vermelha pode levar a uma pequena diminuição do risco de doença cardiometabólica e da mortalidade global, no entanto, a magnitude do efeito absoluto é muito pequena. 1 Relativamente à incidência global de cancro e mortalidade associada ao mesmo, as reduções de risco verificadas também foram muito pequenas, com uma fraca evidência associada.2

Apesar disto, verificou-se que, de uma maneira geral, a magnitude do efeito adverso aparente do consumo de carne processada na saúde foi, em certa medida, maior comparativamente ao observado para o consumo de carne vermelha não processada.3 Apesar deste pequeno risco associado ao consumo de carnes vermelhas encontrado, parecem existir alguns benefícios com a sua ingestão no que toca ao desenvolvimento muscular e ao desenvolvimento de anemia, quando comparado a dietas vegetarianas.4

Sobre as consequências ambientais:

No que toca a questões ambientais, o consumo de carne vermelha já não parece ter um efeito tão suave e imperceptível. Sabe-se com grande nível de certeza que a indústria de carnes, através da criação e manutenção de grandes gados, tem um elevado impacto ambiental, não só devido à grande utilização de água potável, como também devido à utilização de milhares de hectares de terreno e à produção de enormes quantidades de gases.

De acordo com o relatório da Organização de Agricultura das Nações Unidas, a criação de gado para indústria de carne utiliza cerca de 30% dos terrenos mundiais, ameaçando a biodiversidade que anteriormente os utilizava como habitat. 5 A par disto, a pecuária intensiva é um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global, emitindo 18% da totalidade de gases actualmente produzidos, constituindo assim uma parcela maior do que a dos próprios transportes.6 Por este motivo, e devido à redução da emissão de gases que a opção por uma dieta vegetariana em detrimento de uma dieta baseada em animais pode representar, é possível afirmar que a escolha individual e pessoal da dieta é tão importante como a escolha do próprio meio de transporte.

A criação de gado é também, tal como referido anteriormente, um dos responsáveis pelo grande problema de escassez de água que se enfrenta a nível mundial, sendo directamente responsável por 8% da sua utilização.7 Para além destes gastos exorbitantes, afecta ainda negativamente a reposição de água doce, compactando o solo (o que reduz a infiltração), contribuindo para a desflorestação (o que aumenta o escoamento), degradando as margens dos cursos dos rios e reduzindo a extensão e armazenamento dos lençóis de água.

De acordo com vários estudos que compararam uma dieta baseada em proteína animal e proteína vegetal, verificou-se que para produzir a mesma quantidade de proteína a partir de fontes animais são necessários 11 vezes mais combustíveis fósseis e 100 vezes mais quantidades de água, quando comparado com a produção de proteína a partir de fontes vegetais. 8

Concluindo, a evidência sugere que a adopção global de uma dieta com menos carne vermelha e mais vegetais, apesar de não afectar de forma tão marcada a nossa saúde, reduz de forma significativa o impacto humano no ambiente e pode melhorar consideravelmente problemas ambientais como o aquecimento global e a escassez de água a nível mundial. Contudo, é preciso ter em conta que afirmações deste tipo não devem ser tidas como verdades absolutas nem transformadas em mitos fundamentalistas, uma vez que para saber os resultados, para o ambiente, da substituição das carnes vermelhas na dieta da maioria das pessoas, era preciso perceber qual a escolha alternativa.

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