Crise climática ameaça espécie humana, assume JP Morgan, um dos maiores financiadores de combustíveis fósseis

Um dos maiores financiadores de combustíveis fósseis do mundo divulgou um documento que diz que as mudanças climáticas podem acabar com a "vida humana como a conhecemos".

Foto de Martin Sepion/via Unsplash
 
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Parece contraditório, mas o maior financiador mundial de combustíveis fósseis divulgou a semana passada um documento para alertar os seus clientes de que a crise climática ameaça a sobrevivência da humanidade e que o planeta está numa trajetória insustentável.

O relatório da JP Morgan sobre os riscos económicos do aquecimento global causado pelo homem afirma que a política climática tem mesmo de mudar ou que o mundo enfrenta consequências irreversíveis. O jornal britânico The Guardian, que teve acesso e divulgou o documento, refere que o estudo condena implicitamente a estratégia de investimento do próprio banco norte-americano e destaca preocupações crescentes entre as principais instituições de Wall Street sobre os riscos financeiros e de reputação do financiamento contínuo de indústrias de carbono, como petróleo e gás.

A JP Morgan forneceu 75 mil milhões de dólares em serviços financeiros para as empresas que se expandem mais agressivamente em setores como fracking (ou fraturamento hidráulico, um método que possibilita a extração de combustíveis líquidos e gasosos do subsolo) e exploração de petróleo e gás no Ártico desde o acordo de Paris, segundo uma análise compilada pelo Guardian no ano passado.

O The Guardian revela ainda que o relatório foi obtido por Rupert Read, um porta-voz do grupo activista Extinction Rebellion e académico de Filosofia da Universidade britânica de East Anglia.

Segundo a BBC, o banco já tinha alertado os seus clientes para as consequências das alterações climáticas outras vezes, mas nunca com termos tão fortes como os usados agora. A pesquisa dos economistas da JP Morgan, David Mackie e Jessica Murray, diz que a crise climática afetará não só a economia mundial, mas a saúde humana, o stress hídrico, a migração e a sobrevivência de outras espécies na Terra. “Não podemos descartar resultados catastróficos onde a vida humana como a conhecemos está ameaçada”, observa o artigo, datado de 14 de janeiro.

Com base em extensa literatura académica e previsões do Fundo Monetário Internacional e do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o artigo observa que o aquecimento global está a caminho de atingir 3,5°C acima dos níveis pré-industriais até ao final deste século. Os autores urgem a ação dos responsáveis políticos, escrevendo que as decisões precisam de mudar de direção porque uma política climática business-as-usual iria levar a Terra a “um ponto em que não a vemos há muitos milhões de anos”, com resultados que podem ser impossíveis de reverter.

Imposto Global

O banco de investimentos diz que as mudanças climáticas “refletem uma falha no mercado global no sentido de que produtores e consumidores de emissões de CO2 não paguem pelos danos climáticos resultantes”. Para reverter isso, destaca a necessidade da criação de um imposto global sobre o carbono, mas alerta que tal “não acontecerá tão cedo” devido a preocupações com empregos e competitividade.

Sem nomear nenhuma organização, os autores dizem que mudanças estão apenas a acontecer a um nível “micro”, envolvendo alterações no comportamento de indivíduos, empresas e investidores, mas é improvável que isso seja suficiente sem o envolvimento das autoridades fiscais e financeiras.

No ano passado, uma análise compilada pela Rainforest Action Network (uma organização ambiental dos EUA) para o The Guardian, revelou que a JP Morgan forneceu mais financiamento ao sector de combustíveis fósseis entre 2016 e 2018, que qualquer outro banco do mundo.

Rupert Read, o professor responsável por divulgar o estudo ao The Guardian, comentou que o banco é “considerado por alguns o maior financiador de combustíveis fósseis do mundo” e que se os próprios investigadores da instituição dizem “que o futuro da raça humana está em jogo”, o próprio banco deve mudar de direção. “É bom que eles [os investigadores] estejam a dizer a verdade – não é bom que eles [o banco] continuem sendo um forte financiador de combustíveis fósseis”, disse ele. “Toda a gente tem de ter responsabilidade pela mudança, sejam eles gestores de ativos, investidores institucionais, executivos ou acionistas“, acrescentou. 

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