E se convidássemos um constitucionalista para selecionador nacional?

Poucos minutos depois de André Ventura ter estado na TVI a falar sobre "racismo estrutural", o selecionador nacional Fernando Santos foi ao Prós e Contras discutir a Eutanásia.

Estes últimos dois dias em Portugal têm sido fartos em discussão acesa sobre temas fraturantes. Misturando-os à maneira algorítmica das redes sociais, tudo começou com a saída de rompante de Moussa Marega do jogo entre Vitória SC e FC Porto e terminou ontem com um Prós e Contras sobre a eutanásia com a participação especial de Fernando Santos, selecionador nacional. Se aparentemente estes dois assuntos não têm nada a ver um com o outro, a forma como foram explorados mediaticamente dá-nos um retrato do nosso país que vos convido a assistir.

Já que falo no assunto, começo a minha reflexão por condenar o comportamento dos energúmenos que decidiram proferir insultos racistas na direção de Moussa Marega, avançado do Futebol Clube de Porto, mas dizer — por uma questão de consciência — que isso pouco me surpreende. Qualquer pessoa que veja futebol em Portugal e que já tenha visitado um estádio sabe do ambiente violento que se vive e que se propaga aos anos, alimentado por um clima de desconfiança constante sobre o próprio jogo e uma postura inerte das instituições que têm como função regulá-lo. A título de exemplo, cito a multa de cerca de 500 euros aplicada ao Rio Ave por insultos racistas proferidos pelos seus adeptos na direção do então jogador do Benfica, Renato Sanches. Feito este ponto, deixemos essa discussão para outro momento e voltemos ao cerne deste artigo de opinião, fazendo votos de que o caso seja exemplar e a inércia acabe pelo menos neste particular tóxico que é o racismo.

Aproveitando a toada, comecemos por aqui expor a relação torpe entre este tema e o panorama mediático. Poucos minutos passavam do sucedido em Guimarães, quando na página do deputado à Assembleia da República pelo partido Chega surgia uma mensagem crítica da atitude do jogador. “País de hipocrisia em que tudo é racismo e tudo merece imediatamente uma chuva de lamentos e de análises histórico – megalómanas. O nosso problema não é o racismo. É a hipocrisia. É o síndrome Joacine que começa a invadir as mentalidades. Por mim não passarão”, escreveu André Ventura, aproveitando o episódio de forma torpe para colher proveitos políticos e atacar o seu alvo predilecto, Joacine Katar Moreira. Dispensando por momento juízos sobre o conteúdo da publicação do deputado que vale 0,43% dos votos, a verdade é que o post acabou por se tornar, pela força das críticas de que foi alvo, um dos protagonistas da noite. Gerando milhares de reações no próprio Facebook e partilhas em forma de printscreen pelas restantes redes sociais, os loios ou as vaias trouxeram mais uma vez André Ventura para debaixo dos holofotes, e o que era uma declaração fútil — ofensiva, insultuosa, mas fútil — rapidamente ganhou a dimensão de polémica. A partir daí, foi mais um passo, até que André Ventura fosse convidado a explicar as suas “declarações polémicas” na antena da TVI, tal como já tinha sido anteriormente, ganhando mais uma oportunidade para que, em horário nobre e antena aberta, pudesse esgrimir os seus argumentos populistas sobre “porque é que na sua opinião não houve insultos racistas em Guimarães”, como se a imitação de símios, como diz o pivot da TVI, quando o jogador tem a bola valesse muitas interpretações. De resto, nesse particular, André Ventura acaba por ceder o ponto, mas não deixa de se servir do whataboutism sobre ‘racismo estrutural’, para mais um momento de construção da narrativa nós vs os outros em que se reitera isolado e um caso único. Hoje, o vídeo já consta nas redes sociais do Chega com mais de 35 mil visualizações e 3 mil votos positivos.

Como diz Sousa Tavares, o que espanta é a pressa de André Ventura em dizer que não havia racismo no caso. Ainda assim, o que não deve deixar de nos espantar é que uma atitude deste género, reitero a palavra fútil, mereça ser debatida em horário nobre como se um post de Facebook de 3 linhas se tratasse de um enorme contributo para o debate que merecesse ser explanado e debatido. Por muito que se considere o conteúdo do post válido, a sua superficialidade é gritante, e não o digo só por obviamente divergir da sua posição.

Mudando repentinamente de assunto, tal como nos acontece nos feeds, passado poucos minutos começava na RTP o programa Prós e Contras. Entre os convidados, a minha atenção e intriga não pôde deixar de se virar para Fernando Santos. O treinador de futebol foi um dos convidados especiais do programa e ocupava portanto lugar na fila da frente com direito a microfone. Não foram precisos muitos minutos de debate para que o mister interrompesse a intervenção do constitucionalista convidado a defender a posição a favor da eutanásia, para, sucintamente, defender os cristãos de uma acusação que ninguém ouvira. Com um ar impertigado e uma retórica baseada num suposto ataque à convicção cristã, Fernando Santos foi das primeiras intervenções acesas de um debate que juntara, e bem, médicos, advogados, constitucionalistas, políticos, cientistas e… o selecionador nacional. Não obstante ao teor das suas intervenções passíveis de concordância ou discordância como quaisquer outras, a presença daquele corpo estranho num painel tão específico é o ponto que me interessa isolar para dar saída a esta reflexão. Fernando Santos foi convidado, suponho, como representante da sociedade civil por ter uma posição conhecida contra a eutanásia e, agora, a favor do referendo. Contudo, tal como no caso de André Ventura, a posição que lhe é conhecida, por muito defensável e convicta que seja, é, mais uma vez, superficial e um acrescento muito débil a um debate tão complexo.

Compare-se, por exemplo, à posição de Adolfo Mesquita Nunes, o antigo deputado do CDS, que na mesma linha de raciocínio lançou importantes questões para o debate sem partir da posição de vítima, para se perceber que mesmo convicções pessoais podem ter uma expressão argumentativa para além de uma retórica assertiva. Contudo, não é o teor ou a retórica das participações que me interessa analisar. Nem tão pouco os casos concretos, sobre os quais nada me apraz dizer especificamente. Acredito na pluralidade e que essa deve ser uma pedra basilar de qualquer meio de comunicação social mas acredito ainda mais no potencial que a crítica tem enquanto elemento de reflexão e é por isso que escrevo isto. As intervenções de ontem à noite e que aqui exponho, revelam de forma tácita a forma como em Portugal, frequentemente, confundimos protagonismo com relevância; o querer dizer com o ter algo interessante ou importante para dizer. Assim, em vez de gerarmos discussões profundas sobre assuntos complexos geramos debates superficiais entre figuras públicas que na superficialidade das suas convicções darão todas as voltas possíveis e imaginárias para defender o seu ponto, seja ele qual for.

Reitero que com esta opinião não procuro, como nunca procurei ou procurarei, restringir a legitimidade daqueles que têm tanto direito como eu a exprimir-se. Por outro lado, procuro que pensemos sobre a forma perversa como, ao tentar ser plural, um debate se pode tornar uma mera câmara de eco para difundir explicações de alguém que, por dispor de uma plataforma mediática, conseguiu expor a sua opinião acima do tom dos demais. As posições de André Ventura ou de Fernando Santos são o que são mas na minha opinião… dispensam explicações dignas do interesse público. Até porque para bem do debate de temas mais complexos, devemos rejeitar a política da influência e o culto das personalidades.

Eutanásia: uma questão urgente para discutir sem pressas

 

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