Porque é que o Facebook está sempre a lançar novas apps?

A esperança média de vida destas aplicações é curta, os conceitos são dispersos e não há associação directa ao ecossistema do Facebook.

Primeiro o Bump, uma aplicação que permitia conversar a partir de perguntas ou tópicos lançados numa espécie de fórum. Sem imagens, vídeos ou links, só bolhas de chat de texto. Depois o Aux, app que explora a ideia de ouvir música com amigos, permitindo que a uma dada hora todos pudessem sintonizar uma espécie de rádio comunitária na qual cada um pode contribuir para a playlist que está a tocar. Seguiu-se o Whale, uma terceira aplicação que servia para criar memes a partir de fotografias e de um editor que permitia cortar imagens, e adicionar filtros, emojis e stickers, dando a opção de partilhar o resultado nas redes sociais ou por mensagem directa. Estas são algumas das aplicações que o Facebook já criou e acabou por descontinuar.

Se nunca ouviste falar de nenhuma destas apps, é normal porque nem chegaram a ser distribuídas globalmente, e acabaram por durar poucos meses nas apps stores. Semelhante destino se pode esperar do Hobbi, aplicação agora lançada e que não parece reunir condições para ser excepção a esta regra.

Hobbi, a nova experiência do Facebook (screenshot via App Store)

A esperança média de vida destas aplicações é, por norma, curta, os conceitos são dispersos e não há associação directa ao ecossistema do Facebook. Então, por que motivo é que o Facebook anda a lançar apps atrás de apps? A resposta é simples: experimentação. E pede uma pequena análise.

O Hobbi, o mais recente lançamento, emula a ideia do Pinterest; é um espaço digital onde os utilizadores podem capturar e organizar o seu processo criativo, guardando fotos projectos nos quais estão a trabalhar, seja na área da culinária, fitness, decoração, DIY, artes, o que quiserem. Contudo, ao contrário do Pinterest, a app do Facebook não tem funcionalidade de pesquisa, que permita a outros utilizadores encontrar ou seguir o trabalho de perfis que lhe interessem, guardando-os em pastas ou colecções privadas para inspiração.

Bump, Aux, Whale e Hobbi foram aplicações criadas por uma equipa do Facebook focada no teste de novas ideias e produtos. Chama-se NPE Team, foi apresentada em Julho do ano passado e, como se lê na sua página web, “muitas vezes, começar pequeno é a melhor maneira de fazer as maiores descobertas”. O site da NPE Team é uma página simples, só com dois parágrafos, sem qualquer informação ou referência aos produtos já desenvolvidos por esta equipa; só se consegue associar o Bump, Aux, Whale e Hobbi à NPE Team pelas referências na App Store.

Muitos dos produtos que criamos começam pequenos e podem não chegar a todos. E esperamos que muitos deles acabem descontinuados. É OK. Porque acreditamos que construir sem medo do fracasso é a única maneira de alcançar o sucesso.

O império do Facebook é constituído pelo Facebook, Instagram, Messenger e WhatsApp. Segundo dados revelados recentemente, o WhatsApp conta com 2 mil milhões de utilizadores a usar a aplicação todos os meses. O Instagram tem para cima de mil milhões e o Facebook regista 2,5 mil milhões de utilizadores, o Messenger terá 1,3. Com o declínio das interacções no Facebook, principalmente entre as camadas mais jovens, o Instagram é, combinado com o WhatsApp, actualmente onde Mark Zuckerberg está a apostar as fichas todas.

Os mais novos, que acabam por influenciar tendências, estão a usar cada vez mais o Instagram e o WhatsApp, mas também plataformas como o YouTube e o TikTok. “Ainda usas Facebook?” ou “aquilo está morto” são comentários frequentes e difíceis de ignorar a propósito da rede social que outrora concentrava todas as partilhas e chats com amigos. Negócios e projectos parecem mais concentrados agora no Instagram, não só em promover os seus perfis naquela rede social, a criar conteúdos para Stories e a promover os seus @usernames nos meios de comunicação offline de que dispõem.

Foto via Kon Karampelas via Unsplash

Não se sabe até quando a “galinha de ovos de ouro” do Facebook continuará a dar… “ovos de ouro”. Certo é que Zuckerberg não tem parado de adicionar funcionalidades ao Instagram e de surfar o hype. Entretanto, o TikTok está a dar a origem a uma nova geração de influenciadores – em Portugal, até já existe uma casa de TikTokers. Considerada uma das aplicações mais descarregadas da década (2010-2019), o TikTok foi lançado em Setembro de 2016 pela tecnológica chinesa ByteDance no mercado doméstico e só um ano depois é que chegou a todo o mundo – a sua popularidade começou a ser assinalável desde meados de 2018. Foi descarregada mais de 1,5 mil milhões de vezes, de acordo com dados da SensorTower; 44% dos seus utilizadores têm entre 16 e 24 anos, segundo a Globalwebindex; e estima-se que 800 milhões de utilizadores se liguem mensalmente ao TikTok.

O Facebook já tentou copiar o TikTok com uma aplicação chamada Lasso. Lançada discretamente em 2018, a app está ao contrário das referidas no início deste artigo associada directamente à empresa de Zuckerberg e ainda activa. Todavia não está disponível em todos os mercados e nunca ganhou a tracção que o TikTok tem ganho. O Lasso não deixa de ser uma experiência do Facebook, que ao longo dos anos, ainda sem NPE Team, tem apresentado outras: Paper, Bonfire, Notify, Slingshot, Moments e Rooms foram alguns dos testes, tentativas e falhanços. Parte não deu em nada, outra parte deu ao Facebook ideias para novas funcionalidades ou permitiu à empresa recolher insights do mercado.

Lasso, a tentativa do Facebook de surfar a onda do TikTok (screenshot via App Store)

Enquanto grande tecnológica, o Facebook tem capacidade de criar e testar que outras empresas de menor dimensão não conseguem. Tem equipas que podem estar a desenvolver novas aplicações, que tanto podem servir para prova de conceito como para recolher dados sobre o comportamento e reacção dos utilizadores. As novas apps do Facebook são ideias que podem dar ideias melhores e assegurar o futuro da empresa, mesmo que esse futuro não passe por novas apps mas pelas actuais. De qualquer forma, uma coisa é certa, tudo o que o Facebook faça será notícia e essa é desde logo uma vantagem face aos seus concorrentes, naturalmente mais pequenos e com menos atenção mediática.

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