Jeff Bezos tem 10 mil milhões para as alterações climáticas e uma empresa para gerir

Deve Bezos ter o poder de controlar o discurso público assim sem mais nem menos?

Imagem via Shifter

O homem mais rico do mundo, que é também o dono da gigante Amazon, anunciou esta semana um fundo de 10 mil milhões de dólares destinado ao financiamento de projectos que ajudem a contrariar as alterações climáticas. O chamado ‘Bezos Earth Fund’ destina-se ao financiamento de “cientistas, activistas, organizações sem fins lucrativos – qualquer esforço que ofereça uma possibilidade real de ajudar a preservar e proteger o mundo natural”, segundo anunciou Jeff Bezos na sua conta de Instagram.

Para os seus 1,5 milhões de seguidores, Bezos escreveu também que o fundo vai começar com 10 mil milhões e que os financiamentos vão começar a ser feitos neste Verão. Por agora, não adiantou mais detalhes sobre como é que o dinheiro vai ser gasto – por exemplo, em que projectos.

O fundo de Bezos de 10 mil milhões é agora o terceiro maior bolo de financiamento do género para o combate às alterações climáticas. Em 2018, um conjunto de 29 organizações filantrópicas tinham anunciado um fundo de 4 mil milhões. Os 10 mil milhões de Bezos podem também servir de contra-ponto aos milhares de milhões de dólares gastos por oponentes das alterações climáticas. De acordo com um estudo de Robert J. Brulle, um professor da Universidade de Drexet especialista em política e ambiente, entre 2000 e 2016 companhias de electricidade, empresas de combustíveis fósseis e o sector dos transportes gastaram colectivamente mais de 1,2 mil milhões em lobby a favor dos seus negócios e contra as alterações climáticas. Outro estudo, que o mesmo investigador co-autorou e que a Wired cita, refere que entre 1986 e 2015 cinco das maiores firmas de combustíveis fósseis gastaram pelo menos 3,6 mil milhões em publicidade e comunicação nos Estados Unidos.

Em suma, fundos como o de Bezos podem equilibrar o discurso mas servem também para magnatas como o CEO da Amazon controlarem o discurso público e melhorarem a sua imagem. Com uma fortuna estimada em 115 mil milhões de dólares, Bezos pode, como alguns defendem, simplesmente pagar mais impostos e dessa forma deixar que o seu dinheiro seja usado para aquilo que os políticos eleitos definem como estratégia. Bezos não é caso único; outras figuras com fortunas avultadas – de Bill Gates a George Soros, só para referir dois nomes – também criam fundos ou fazem investimentos que permitem levar o discurso para o caminho que desejam.

Importa ainda notar que Bezos é dono de uma grande multinacional, a Amazon, com uma pegada ambiental significativa e políticas controversas, que se sente desde o negócio de e-commerce ao de alojamento web. Só em 2018 a empresa anunciou ter emitido 44,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono, mais do que a própria Suíça, dispersos pelos seus vários negócios. Para além da dependência de combustíveis fósseis nomeadamente para o transporte das mercadorias, a crítica incide também sobre o modelo de negócio de Bezos que se foca numa lógica de consumo desnecessário e incentiva muitas vezes ao consumo fútil. 

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