Micro Clima: uma festa com viagem no tempo incluída e sem sair de Lisboa

A promessa fica aqui feita: voltar ao Micro Clima no ano que vem e estar atento ao que o SMUP tem para oferecer até lá!

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Comecemos pelas casas-de-banho. Aquela parte que nos festivais, principalmente nos de Verão, é frequentemente uma zona suja, feia e com odores desconfortáveis. Em festivais de interior, como o Micro Clima, que decorreu no último fim-de-semana em Parede, o cenário é diferente mas ainda assim as casas-de-banho são zonas sem interesse de reportagem.

As do Micro Clima não seguem essa “regra” e daí iniciarmos este texto por elas. O artista Rappepa Bedjo Tempo teve carta branca para fazer com os azulejos vazios dos quatro WCs do festival o que quisesse e o resultado não poderia ser melhor, seguindo a onda do que apresenta no seu Instagram. Nas paredes de uma das casas-de-banho, por exemplo, havia dicas sobre a masculinidade tóxica e apontamentos sobre racismo, escritos e desenhados com classe artística mas na linguagem de tags que costumamos ver nesses espaços públicos. Uma surpresa para quem só ia lá porque o corpo obrigava mas sentiu-se na necessidade de sacar do telemóvel e a fazer aquela foto para as Stories.

A instalação de Rappepa Bedjo Tempo era apenas uma das que se podia encontrar no Micro Clima, comprovando a teoria de que nos festivais de música há espaço para outras artes. Havia também trabalhos do colectivo portuense Berru e da Plasticus Maritimus a.k.a. Ana Pêgo, ambos com uma mensagem ecológica por detrás, lembrando-nos do lixo electrónico e do plástico que vai parar aos mares e oceanos.

O Micro Clima realizou-se no ‘fim-de-semana de São Valentim’ em Parede, em Cascais. Com comboio quase à porta e os ubers da vida a cobrirem agora toda a área metropolitana de Lisboa, o acesso a partir da capital era fácil e “isso é longe” servia apenas como desculpa para aos mais preguiçosos. Eles é que perdem. Por falar em desculpas, o Micro Clima foi uma para conheceremos a Sociedade Musical União Paredense – ou SMUP.

Com mais de 120 anos de história, a SMUP mantém-se viva e a dar vida a Parede. Pelas suas paredes encontram-se pósteres de variadíssimas actividades promovidas ao longo do ano, dentro e fora de portas, desde festas na praia a festivais feministas, bailes populares ou peças de teatro. De repente, percebemos que o Micro Clima não é uma excepção num ano monótono mas um convite para conhecer um espaço que, apesar da sua antiguidade, conta com uma programação moderna, regular e apelativa.

O Micro Clima “caiu que nem ginja” dentro do SMUP. Entre paredes carregadas de história e aquela arquitectura de Estado Novo, as instalações artísticas e os concertos não destoaram do espaço que inevitavelmente nos transportava para uns anos 70 ou 80 – o próprio nome S.M.U.P. levava para esse imaginário. Por algum motivo, as modas no que toca a vestuário estão nessa onda retro e todo este Micro Clima pareceu, assim, uma viagem no tempo para um episódio de Conta-me Como Foi. Camisas coloridas, aqueles bigodes assumidos, por aí… É claro que as percepções são subjectivas, este é um texto subjectivo e este vosso escriba até pode estar sozinho nesta sua humilde avaliação – até porque ele não viveu no tempo que descreve, tendo tido acesso a ele unicamente através de fotografias, séries e cinema que lhe vai chegando.

Certo é que também a música nos embalou para uma daquelas festas malucas que, segundo contam, se faziam nessa altura. Luís Severo levou-nos com a sua voz e guitarra pelas músicas dos seus três álbuns; não houve “singles” e o resto, houve canções cantadas e tocadas numa simplicidade que não encontramos no álbum. A melodia e as letras estavam lá, mesmo que não estivessem todos os sons e instrumentos. Seguiu-se Alek Rein e a sua banda, provavelmente o nome mais desconhecido da noite, menos para ouvintes da Antena 3; é sempre agradável ter aquelas surpresas e ouvido aberto nos festivais, apanhando sons novos e aproveitando a festa.

A acabar – quer dizer, quem fechou mesmo a noite foi o DJ set de Pedro Tudela – estiveram os Sensible Soccers. Não interessa que álbum tocaram, quanto tempo estiveram em palco ou o que é que disseram durante o set. O que importa é a porrada de energia que ali descarregaram, permitindo a todo o público descarregar também, dançando como se não houvesse amanhã. Como se fosse ano novo. Como se tivesse acabado de existir uma revolução e estivéssemos todos felizes.

A festa de dia 14 foi tal que chegou e sobrou. Não foi preciso ir na noite seguinte, dia de Cave Story, Zanibar Aliens e Bonga, em substituição de Allen Halloween que anunciou o fim da sua carreira. A promessa fica aqui feita: voltar ao Micro Clima no ano que vem (esperando que o grupo de voluntários que o faz continue a ter tudo aquilo de que precisa para continuar a fazê-lo) e estar atento ao que o SMUP tem para oferecer até lá!

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