OnlyFans quer devolver o controlo aos criadores… até de pornografia

Uma rede social cuja premissa é a criação e partilha de conteúdo em forma de canal, assente num modelo que conhecemos bem: a subscrição de conteúdo streaming. Mas e se essa rede for utilizada para partilhar pornografia?

Foto via Shifter

O OnlyFans surgiu em 2016, criado pela Fenix International Limited, que o apresentou como uma ferramenta poderosa e útil para youtubers, influenciadores, treinadores pessoais, entre outros, monetizarem aquilo que fazem cobrando por cada conteúdo. De acordo com o site, o utilizador ganha 80% da receita que produz e a plataforma fica com os restantes 20%. Quanto aos utilizadores, cada um escolhe os canais que lhe despertam mais interesse e pode subscrevê-los mediante o pagamento de um valor variável. Até aqui tudo como outros sites bem conhecidos como o Patreon.

A diferença desta plataforma para o Patreon, por exemplo, é o facto de o Patreon assumir que permite a partilha de nudez, mas nunca de pornografia, apelando a que os utilizadores confirmem com eles se tiverem dúvidas sobre a linha que separa uma coisa da outra. Já o OnlyFans não faz distinção, incentivando a publicação de qualquer tipo de conteúdo, pelo que se tem vindo a tornar o site de eleição para venda de nudes, divulgação de vídeos de masturbação e sexo explícito, entre muitos outros.

Screenshot via Shifter

A pergunta que surge é então: que regulação é aplicada no registo neste site? Para participar, os utilizadores têm de passar por um processo de candidatura no qual devem provar a sua maioridade, através da apresentação de um documento de identificação e posterior preenchimento de um formulário. Não existem certezas sobre o rigor deste processo, mas o utilizador tem de esperar alguns dias até receber a aprovação. A partir daí, é só subscrever.

Em três anos de existência, o OnlyFans conseguiu acumular uma grande legião de adeptos que acreditam na segurança do site e que apreciam o controlo que têm no mesmo. É reconfortante para quem partilha saber que apenas os interessados vão aceder ao conteúdo, sendo que, se quiser entrar em contacto com o dono do canal, o utilizador tem de pagar um valor extra para enviar mensagem privada. Existe ainda a funcionalidade de enviar gorjetas que começam nos 5 dólares.

Aliado a este controlo, existe ainda a enorme mudança no paradigma da pornografia online que os Fans defendem. Jenna Love, uma utilizadora da plataforma, comentou à revista Dazed que, quando as pessoas que aparecem nos vídeos, têm o controlo e recebem o lucro total, pelo que esta via se pode considerar um caminho positivo. Olhando para o mundo da pornografia, repleto de polémicas de abuso e exploração, assim como sexismo e discriminação, este argumento de valorização dos trabalhadores sexuais ganha força: com o OnlyFans quem participa nos vídeos tem controlo total sobre o conteúdo que cria, o que decide partilhar e a quem quer chegar.

No entanto, independentemente da referência a direitos autorais, não existe forma de garantir que os utilizadores não guardam o conteúdo ou o divulgam através de capturas de ecrã ou gravação do mesmo. Quão seguro é o site se essa porta for deixada aberta? E embora a partilha deva ser original, a verdade é que nem sempre se consegue assegurar que o conteúdo não foi roubado ou partilhado com má-fé por terceiros.

Ganha mais que o salário mínimo

Violet Hart aceitou trocar umas ideias com o Shifter, sobre esta plataforma onde partilha conteúdo que considera um trabalho como os outros, começando por deixar claro que a concepção de que “vender nudes na net é dinheiro fácil” é falsa. Violet nunca tinha publicado fotografias explícitas suas e foi precisamente a existência do OnlyFans que a fez começar. Experimentou por brincadeira com duas fotografias e só passado algum tempo começou a dedicar-se à produção de mais conteúdo.

Screenshot via Shifter

Tal como vários outros utilizadores, acredita que o OnlyFans traz consigo uma mudança sobre quem passa a ser detentor de poder: “especialmente por sermos nos próprias a ser as nossas patroas e tudo ser feito nos nossos termos e condições”. Faz questão de acrescentar ainda que a plataforma tem formas de proteger os utilizadores através de um “programa de proteção ao conteúdo, pelo que se for roubado e colocado noutro website o responsável será processado e eventualmente terá de pagar multa”. E em relação aos valores? Violet Hart deixa claro que é preciso algum empenho para conseguir bons resultados, mas que actualmente faz mais do que o salário mínimo, sendo que o conteúdo que vende mais é Fetish.

Neste momento, o OnlyFans existe apenas como site, sendo que a Apple recusa-se a deixá-lo entrar na App Store, precisamente pelo conteúdo explícito a que está associado, que não cumpre as restrições. A Google Play Store chegou a integrar a app do OnlyFans, mas desde a última revisão ao centro de políticas do programador, passou a proibi-la por “conteúdo impróprio”.

Será o OnlyFans uma mudança positiva para os trabalhadores sexuais ou apenas uma nova forma de perpetuar um mundo de sobre-exploração sexual? E quão saudável é ter este tipo de redes sociais tão perto das gerações mais novas? A plataforma cresce, ainda assim, sendo amplamente divulgada através do Twitter onde os participantes partilham pequenos teasers e informam sobre a saída de novos vídeos.

Texto de Catarina Coelho

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