O que vamos vestir amanhã? Roupa de cânhamo

O cultivo do cânhamo ajuda a controlar a erosão do solo, é renovável, precisa de menos água em relação ao cultivo do algodão e cresce bastante rápido, resultando em mais 250% de fibra em relação ao algodão na mesma quantidade de terra, só para terem uma ideia.

Foto de Marialma/DR

Quando ouves ou lês a palavra canábis, é provável que o nome faça soar umas campainhas recreativas na tua mente. Mas canábis é muito mais. Sabias que existem diversos usos desta planta, que um deles é o têxtil e que não é de agora? Permite-me que a apresente: a canábis (ou Cannabis) é um tipo de angiospermas que inclui três variedades diferentes, sendo elas a Cannabis Sativa, Cannabis Indica e Cannabis Ruderalis. Esta criação da Natureza é amplamente conhecida e discutida pela sua utilização para fins medicinais e recreativos. Menos conhecido, porém diverso, é o seu uso industrial, em áreas tão diversas como alimentação, isolamento térmico e acústico de casas e edifícios, bioconstrução, biocombustível, madeira, embalamento, cosmética, recuperação de solos contaminados, papel, fibra têxtil e há ainda quem defenda existirem 60 mil finalidades para esta planta. Levantada a ponta do véu sobre o mundo infinito das utilizações da canábis, as linhas que se seguem lançam a luz sobre a sua aplicação na área têxtil.

A história desta erva, originária da Ásia, na produção têxtil é longa, com provas dadas que viajam no tempo até  8 mil A.C., existindo indícios da sua utilização ao longo dos tempos. Em meados de 1930, com a introdução do nylon no mercado (fibra sintética derivada de petróleo), a gigante empresa Dupont descredibilizou a fibra desta planta através de campanhas anti-canábis que conduziram à proibição do seu uso e a uma fama negativa associada que continua até hoje. Já a China, que anda nisto do cultivo da canábis há mais de sete mil anos, é actualmente a maior produtora mundial desta fibra, responsável por 70% do volume mundial. Nesta era em que a palavra Sustentabilidade é pregada um pouco por toda a parte, esta é, sem dúvida, uma fibra a considerar no mercado têxtil.

A Cannabis Sativa, ou Cânhamo, é a variedade com menor taxa de THC e a mais utilizada industrialmente. O fio para o tecido de canhamo é “produzido a partir das fibras internas do caule da planta de uma das variantes da Cannabis Sativa, não requer pesticidas nem produtos tóxicos para o seu cultivo”, explica Ana Osório, co-fundadora da marca portuguesa de têxteis lar Marialma, com uma filosofia de marca assente nos princípios do movimento Slow Living,  que elege o cânhamo como uma das suas fibras de eleição. “Somos a primeira marca portuguesa a produzir lençóis 100% de cânhamo, tecido com fio fino e com um toque extra suave. O processo de acabamento desse tipo de fibra quando utilizada a 100%, é complexo e foi moroso chegarmos ao produto ideal, pois a fibra é rija e bem mais longa do que o linho.”

O cultivo do cânhamo ajuda a  controlar a erosão do solo, é renovável, precisa de menos água em relação ao cultivo do algodão e cresce bastante rápido, resultando em mais 250% de fibra em relação ao algodão na mesma quantidade de terra, só para terem uma ideia.

Ana Osório, co-fundadora da Marialma (foto DR)

“A sua produção por hectare é muito superior à do algodão e eucalipto, e requer uma quantidade pequena de insumos agrícolas para o seu cultivo quando comparado com outras culturas,” diz-nos Ana e diz-nos também um estudo feito pelo Instituto do Ambiente de Estocolmo (SEI) com o apoio do BioRegional Development Group (BDG) e do World Wide Fund for Nature (WWFF).

Mas há mais, desta vez no tecido: de aparência semelhante ao linho, o cânhamo é biodegradável, respirável e adequado a climas quentes e húmidos pela sua qualidade porosa e pode ser combinado com outras fibras. A aposta num tecido de Cânhamo puro é possível e, embora resulte num tecido de toque mais áspero, o uso e as lavagens tornam-no mais macio. Quando misturado com outras fibras, são escolhidos para a mesclagem o algodão ou a seda que conferem ao tecido final um toque mais suave.

Além destas coisas boas todas, há ainda alguns aspectos interessantes a acrescentar. “Para além de ser inigualável em propriedades tais como: durabilidade, resistência”, tem características  “antimicrobianas e antifúngicas, tornando a fibra mais popular para os ecologicamente conscientes”, refere Ana Osório.

O tecido feito da fibra de Cânhamo tem uma resistência que lhe permite uma durabilidade muito superior ao algodão, por exemplo. A sua aplicação na Indústria Têxtil vai desde artigos mais maleáveis e suaves como o vestuário, até peças mais estruturadas e rígidas como estofos, calçado e acessórios. E isto apenas na área Têxtil. Agora pensem.

No caso da marca Marialma o objectivo passou por “desenvolver uma técnica que permitisse a produção de tecidos super macios utilizando 100% cânhamo. Quem gosta de linho, adere facilmente ao 100% cânhamo. Os que nunca experimentaram, quando o fazem têm uma agradável surpresa ficando de imediato adeptos!”

Foto via Marialma/DR

Dadas as suas vantagens ecológicas, porque é que não se ouve falar mais nisto? É só estar atento. Há marcas bem conhecidas que introduziram a fibra de Cânhamo na produção de alguns dos seus artigos como é o caso da H&M, Patagonia, Quiksilver e a nossa “convidada” Marialma. Como sabemos e Ana reforça, “a Indústria Têxtil é uma das mais poluentes, e todas as etapas da cadeia produtiva pertencentes a esta indústria geram efeitos na natureza e consequentemente na saúde humana. Não é nada fácil sermos totalmente sustentáveis neste sector.” Contudo Marialma faz por seguir trilhos sustentáveis: “toda a nossa produção é realizada em Portugal. Desde o processo de fiação até à confecção final, controlamos de perto tudo assegurando a qualidade dos produtos como também qualquer irregularidade do processo que eventualmente possa acontecer.”

Além da Marialma, existem no mercado outras marcas, desde vestuário a calçado, que fazem do Cânhamo uma das suas matérias primas de eleição, prontos a ser desfrutados por quem quiser e puder. “Acredito que sempre irão existir grupos distintos de consumidores” diz Ana, acrescentando que de um modo geral “os consumidores estão mais atentos às questões sustentáveis e exigem cada vez mais das marcas que as mesmas inovem os seus processos produtivos por forma a criar um compromisso mais sólido com as causas sociais e ambientais de forma transparente.” Entre as marcas existentes no mercado, destaque para a portuguesa Sapato Verde com oferta de vestuário para homem e mulher, bem como dezenas de marcas internacionais, tais como: Zouri, Acabada Active, Hemp in Nepal, Nomads Hemp Wear, Thought, Hempy’s, THTC, WAMA Underwear.

E já que estamos a falar da Indústria Têxtil, vale mencionar que, tal como o Cânhamo, outras fibras orgânicas e até mesmo fibras recicladas, apesar de serem um óptimo passo em direcção à sustentabilidade, não são a solução para o problema ambiental e social (e que problema!) causado por esta Indústria. Substituir os materiais é um remendo, não resolve as causas. A solução passa, acima de tudo, pelo repensar do consumo e olhar de forma mais consciente para as nossas necessidades e para o nosso impacto individual que se torna colectivo.  Essa consciência é essencial. “Buy less, choose well”, como diz, e bem, Vivienne Westwood.

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