Artista leva ‘golpe de realidade’ em mochila da Glovo a Feira Internacional de Arte de Madrid

Miss Beige quis levar um golpe de realidade a uma feira que é geralmente dedicada às elites e reforçar o mercantilismo de empresas como a Glovo.

Cortesia de Ana Gallego
 

Comecemos por assumir o óbvio: surgirão com certeza comentários a esta notícia pondo entre aspas a palavra artista e provavelmente dizendo que qualquer um faria o que Miss Beige fez. Não obstante, e considerando arte como uma categoria ampla que tem como uma das possibilidades de sucesso o facto de gerar discussão, trazer novas perspectivas para o espaço público ou ser simplesmente (e subjectivamente) interessante, a performance de Miss Beige na Feira Internacional de Arte de Madrid, a Arco, chamou-nos à atenção.

A performer que nem tinha sido convidada a actuar no certame decidiu colocar às costas uma mochila da conhecida empresa de entregas Glovo e irromper, pavilhão a dentro, com o seu vestido beige e a sua mochila desproporcional – reportando tudo através da sua conta de Instagram.

Como explicou à revista Verne, a sua intenção era levar um golpe de realidade a uma feira que é geralmente dedicada às elites e, para Miss Beige, uma forma de reforçar o mercantilismo de empresas como a Glovo. Recorde-se que empresas com o mesmo modelo de negócio têm sido alvo de críticas pela sua estrutura muitas vezes baseada em trabalhadores precários e por, de certa forma, apelarem a um lado ainda mais comodista da sociedade à custa destes.

Ana Esmith, nome da actriz que dá vida à personagem, remata mesmo que a realidade não é bem vinda nestes eventos e que foi isso que a motivou a entrar nesta toada provocadora. De resto, a Miss Beige já é bem conhecida das ruas de Madrid pelas suas performances constantemente críticas — até no Instagram se descreve como a artista anti-selfie.

Miss Beige acabou por ser expulsa da feira uma hora e meia depois de entrar, ao que tudo indica, especialmente porque as mochilas são proibidas no interior do certame. Para a história fica o momento em que uma mochila de entregas rápidas invade uma das feiras de arte mais conceituadas na Peninsula Ibérica, trazendo para um espaço de reflexão artística e conceptual um apontamento crítico da realidade que tão importante deve ser na prática artística.

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