Covid-19: dissecar os números e combater o pânico

A missão de racionalizar os números e de subtrair emoção à análise devia ser parte do trabalho dos media mas infelizmente nem sempre tem sido.

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Perante situações de emergência todos agimos de maneira diferente. Consoante o sentimento que nos domina tendemos a paralisar, fugir ou agir, fazendo aquilo que nos parece ser a opção mais correcta para salvaguardar o nosso futuro. Estas reações são naturais e em parte motivadas pelo devir animal que partilhamos enquanto espécie. Ninguém fica indiferente ao número de infectados, internados e mortos e a reação a este tipo de informação impacta-nos não só do ponto de vista intelectual como do ponto de vista emocional.

Um dos sentimentos mais comuns é o do medo. Num mundo que se tornou, em comparação com outros tempos, absolutamente pacífico e onde nos habituámos a viver sem grandes receios de maior, a confrontação com a dimensão destes números sem uma perspectiva racional e, se quisermos, fria, alimenta o nosso sentimento de impotência e torna-se terreno fértil para esta sensação frustrante e desgastante. A verdade é que não podemos fazer mais do que a nossa pequena parte, respeitando as indicações das autoridades e evitando o contacto físico com outras pessoas, mas podemos escolher a forma como nos sentimos em relação a este assunto. E isso pode fazer toda a diferença, não só para nós como para os que nos rodeiam.

A missão de racionalizar os números e de subtrair emoção à análise devia ser parte do trabalho dos media mas infelizmente nem sempre tem sido. A rentabilização da emoção, do medo e até da falsa solidariedade — os directos em funerais ou à porta de hospitais que nada mais fazem do que gerar ansiedade, a contabilização dos mortos como se um campeonato por pontos se tratasse — tem sido a opção em grande parte dos canais tradicionais e não só. Assim, urge perspectivar os números e quebrar a corrente do medo, tal como com as nossas atitudes podemos quebrar as cadeias de contágio deste novo vírus. Urge quebrar a falsa equivalência entre medo e preocupação, e perceber que podemos ser sensatos, cuidadosos e úteis, mantendo uma normal disposição. Embora possa parecer um pormenor fútil face a um problema complexo, cultivarmos uma sensação de segurança pode ajudar aqueles que lidam com ansiedades ou depressões a passarem por este momento com maior tranquilidade, promovendo a compreensão em vez de o alarme.

Peguemos no tweet feito pelo Jorge Félix Cardoso que aponta para o relatório criado pelo Instituto de Superior de Saúde com uma análise cuidada dos dados italianos ao dia 17 de Março. Embora neste relatório não se alterem, é claro, o número de infectados e mortos que conhecemos, a perspectiva que nos oferece sobre os dados, contextualiza e de que maneira estes números permitindo-nos olhar para eles com racionalidade aconselhável. Não se trata de desvalorizar os dados, as vítimas, trata-se de perceber concretamente a realidade criada por este vírus até para que se possam desenhar estratégias de acção que se foquem em proteger os mais vulneráveis, garantindo que se lida com o problema na sua amplitude completa. É importante lembrar que, tal como disse Graças Freitas numa das suas intervenções, o mais provável é que este vírus se torne residente como tantos outros pelo que a urgência do pânico a pouco nos vai ajudar.

Comecemos por fazer um ponto prévio sobre o que dizem os dados sobre o perfil de incidência do vírus. Neste particular, é extraordinariamente importante percebermos que a taxa de infectados por idade numa determinada amostra de um determinado país não nos oferece informação completa sobre o perigo do vírus para determinada faixa etária. Isto é simples de perceber se pensarmos que nem todas as sociedades são compostas pela mesma percentagem de pessoas com diferentes idades, um dado simples para o percebermos é por exemplo a média de idade de cada país. Itália, por exemplo, tem uma mediana de idades de 45 anos, enquanto que os Estados Unidos da América têm uma mediana de idade de 38 anos, a China tem mediana de 37,4 e Portugal de 42,2. Assim acaba por ser previsível que nos Estados Unidos da América a percentagem de infectados jovens possa ser maior do que em Itália, pelo simples facto de na América existirem mais jovens.

Importa também referir que algumas das doenças que potenciam o efeito do vírus têm por si só efeito na redução da esperança média de vida, pelo que, estatisticamente, é possível que existam menos pessoas mais velhas com este tipo de contexto. Pensemos por exemplo na obesidade, o risco associado a doenças cardiovasculares reduz, segundo estudos do sistema nacional de saúde britânico, a esperança média de vida de um indivíduo entre 11 a 19 anos. 

Avancemos na análise para focar nas 4 imagens do tweet. Desde logo salta a vista a mediana da idade entre as pessoas que faleceram com o vírus. A 17 de Março, no universo de falecidos em Itália esse valor era de 80,5, enquanto que a mediana de idades dos infectados era de 63 anos. Este dado permite-nos um olhar mais próximo sobre a realidade italiana e aferir que a mediana de idade entre os falecidos se aproxima em muito da esperança média de vida em Itália (82,5 anos). Juntando este dado ao das comorbidades – doenças que os pacientes tinham antes de contrair o COVID-19 – a ilustração da situação em Itália fica ainda mais clara. 

No relatório vemos a análise de uma amostra de 300 falecimentos quanto às suas comorbidades. O resultado dessa análise aponta que, em média, neste grupo, os falecidos tinham entre 2 a 3 (2,7) das doenças descritas no quadro – entre elas hipertensão, diabetes, cardiopatia isquémica, entre outros. Na mesma amostra afere-se que apenas 0,8% dos falecidos não tinha qualquer comorbidade, que 25% tinha 1, 26% tinha 2, e 48,5% tinha 3 ou mais.

Isto não significa que desconsideremos o potencial do vírus nestas pessoas, antes pelo contrário, serve para percebermos como determinados contextos potenciam altamente o risco para que possamos agir em conformidade e preparar estratégias mais eficazes de proteção destes e na manutenção da vida quotidiana — até para que a certo ponto se atinja um nível de imunidade de grupo que nos permita voltar a uma vida normal. Olhar para os números é um exercício extraordinariamente útil mas extrair deles conclusões demanda a sua contextualização. Num contexto tão sensível quanto este qualquer modelo matemático é altamente falível – para se fazerem previsões e tomarem decisões são precisas equipas multidisciplinares que olhem para os dados de diversas perspectivas. Só essa análise nos permite passar da histeria dos mortos crescentes para a operatividade das ideias lógicas e articuladas.

Até lá, todos somos agentes de saúde pública. Devemos seguir à risca as indicações das autoridades de saúde, promover o distanciamento físico com outros e evitar ao máximo qualquer saída que não seja por motivos de força maior. Porque numa doença com uma taxa de contágio tão elevada e com uma letalidade que deve ser tida em conta é importante que tenhamos atenção à saúde física mas também à mental.

Importa lembrar que pouco sabemos do que fica depois desta pandemia passar e que mesmo que as taxas de letalidade entre os mais jovens sejam baixas, o vírus pode ter efeitos e o contágio dá-se a uma velocidade estonteante entre estes. Não entrar em pânico não significa desprezar os perigos, mas simplesmente conseguir viver em paz numa altura em que por todo o lado se fala de guerra.

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