‘Future Nostalgia’: a magia retro-futurista de Dua Lipa vai converter até os mais cépticos

Com Future Nostalgia, Dua Lipa vai chegar a uma nova vaga de fãs que procuram algo mais sofisticado do que um mero bate-pé de música comercial. A mim já me tem certamente convertido.

Capa do disco 'Future Nostalgia'
 
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A ascensão de Dua Lipa a estrela pop de renome foi uma que, olhando agora, só pode ser vista como arquitetada pela própria para atingir um sucesso que, embora não-imediato, se antevia como inevitável. A cantora britânica fez covers de vários êxitos pop durante a adolescência; entrou no ramo da moda com o objetivo principal de encontrar alguém que a levasse a falar com as grandes editoras; em 2015, altura em que tinha 19 anos, conseguiu um acordo de extrema segurança com a Warner Music Group, de onde resultaram músicas que preencheram o top 10 de vários pontos da Europa; foi protagonista de um documentário da revista Fader. Tudo isto antes de largar o seu auto-intitulado primeiro álbum, em 2017, e cujo resultado foi exatamente o esperado: um sucesso inevitável.

Pessoalmente, nunca tinha prestado atenção a Dua Lipa até à edição de 2019 dos Grammys. A sua performance com St. Vincent (artista que sempre admirei imenso) — que combinou o estilo de ambas num híbrido de “pop aguitarrado”, vendido por duas artistas com confiança e química — deixou em mim uma boa impressão de Lipa como artista de palco. Mas não foi o suficiente para varrer o meu cinismo e desconfiança perante a possível qualidade (subjectiva, claro) do seu trabalho, que para mim era mais do mesmo standard-fare pop de rádio. Mal podia antecipar que, pouco mais de um ano depois, estaria absolutamente rendido — e digo-me mesmo prostrado da cabeça aos pés — perante a jornada neon-pop que é o seu segundo álbum, Future Nostalgia.

Aqui não há lamechices nauseabundas, nem tentativas de agarrar o ouvido através da regurgitação de sons que já se ouviram N e N vezes nas últimas duas décadas de MTV. Os ingredientes são muitas vezes os mesmos — os pianos e palmas sintetizados, os coros, o som razoavelmente comprimido que nos enche o ouvido — mas aqui são aprimorados de um requinte e tacto que implica uma quase obsessiva atenção ao detalhe de cada música, batida, arranjo e melodia, atenção esta que não anula, mas sim contribui imenso para a confiança e atitude felina da voz de Dua Lipa. Admito que desde o magnífico Art Angels de Grimes que nenhum álbum pop teve tal efeito em mim.

O impacto é sentido logo na linha de partida, com a música que partilha o título do álbum. Um ritmo meio abafado que, com a ajuda dum sintetizador brincalhão e a voz cheíssima de um nariz arrebitado, saltita no interior do nosso crânio até explodir em montanhas de percussão e eletricidade. Notei também que a faixa é preenchida por um conjunto de letras que espelham e de que maneira aquilo que eu achava de Lipa até ao minuto anterior: “I know you’re dying trying to figure me out / My name’s on the tip of your tongue, keep running your mouth.”

As influências retro até então sentidas agravam-se ainda mais em “Don’t Start Now”, com um trio de baixo, bateria e teclado que gritam um disco que tanto tem de antigo como novo, fundindo com sopros artificiais que vêm diretamente importados da vaga francesa de música House. “Cool”, que acaba por não ser um dos pontos mais altos do álbum, despe o manto nostálgico e expõe-se como a faixa que mais abraça a pop moderna mais mainstream e habitual, mas sem perder a personalidade até então estabelecida, principalmente com o seu refrão bastante veranil. As coisas aquecem e de que maneira com “Physical”, um hino festivaleiro carregado de sintetizadores à la Eurythmics, carregando consigo uma das entoações mais simples e cativantes do álbum, que se prende no ouvido com uma pastilha elástica ao sapato: “So come on (Come on), come on (Come on), come on (Come on) / Let’s get physical!”

Chega então a música que aponto como uma das jóias da coroa de Future Nostalgia: a muito “daft-punkesca”, “Levitating”. O baixo e palmas atrevidas conjugam lindamente com a dicção rápida de Lipa nos versos, e atingem um dos mais satisfatórios clímaxes sonoros do álbum, onde uma guitarra que tanto tem de fina como de preenchida é carregada pelos sintetizadores e um baixo eletrónico ondulatório que fazem do título da faixa uma premonição impossível de escapar a qualquer um que se veja preso no seu fluxo sonoro.

Segue-se “Pretty Please”, a música mais relaxada do molho e perfeitamente posicionada no centro da tracklist, deixando-nos respirar um pouco após a intensidade daquilo que lhe antecedeu. Uma música sobre contenção física num amor recente, onde transpira uma certa hesitação propositada, como a de uma mão que treme em desespero pelo desapertar de um fecho suplicante ou por uma alça furtivamente descaída. Mas a calma é curta, e voltamos logo ao furacão da pista de dança com “Hallucinate”, cuja overdose de batidas pulsantes com a voz ecoante de Lipa nos traz a imediata visão de luzes frenéticas e muito, muito suor.

A fusão excepcional do velho com o novo que compõe o quadro sonoro do álbum é aqui a mais difícil de discernir, cada som brotando uma modernidade que mais parece eterna. Se não soubesse o ano em que a música fora lançada, juro que não conseguiria colocá-la em intervalo algum das últimas três décadas. Saltamos então para “Love Again”, cuja atração principal está nas cordas que pautam o conto de amor reencontrado no cerne das letras, com um violino dançante que faz flamejar cada fase da música, em particular o loop que apresenta no refrão, tão naughties que dói da melhor forma imaginável.

Entramos na reta final, e somos galardoados com três das melhores faixas do álbum. “Break My Heart” é das coisas mais virulentas que ouvi em tempos recentes, em grande parte por causa do sapateado que o baixo faz em conjunto com Lipa. A guitarra e os violinos também se recusam a ficar fora da festa, brandindo-se num hook que já cantarolei demasiadas vezes nas últimas 48 horas.

No entanto, “Good in Bed” não quer ficar atrás no que toca a espaço de ouvido e língua, com uma instrumentação básica que conjuga baixo e piano, mas que do nada nos intiça a dançar e saltar com repetição após repetição dentro de cada refrão. Mas é com a mais agradável surpresa que Future Nostalgia se fecha com a inesperada “Boys Will be Boys”. Violinos tocados em pizzicato (com os dedos, e não com arco) formigam de mão dada com Lipa, que desconstrói o medo que impera sobre as raparigas quando caminham para casa ao fim do dia, com medo do que os rapazes mais descabidos possam fazer. A música cresce com o surgimento de um belo piano, os arcos encontram as cordas dos violinos, o coro rompe-se pelos canais sonoros e, da voz comandante de Lipa, surge o melhor refrão do álbum: “Boys will be, boys will be, / Boys will be, boys will be boys / But girls will be women”, tornando a música que, à primeira vista, conjuga menos com o tom do álbum, no laço que unifica todo o seu ethos: a emancipação feminina que, ao conjugar os traumas e alegrias do passado, deseja a formação um futuro que se digna melhor e mais positivo para todos e, em particular, para todas.

Dua Lipa faz tudo isto com maior das classes e atitudes, sem descurar nenhuma das qualidades que tornam a sua música apelativa às massas, capitulando um álbum de meia-hora que é praticamente isento de gordura ou excessos. Aliás, acho que com Future Nostalgia, ela vai chegar a uma nova vaga de fãs que procuram algo mais sofisticado do que um mero bate-pé de música comercial. A mim já me tem certamente convertido.

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