Génios que elevaram a fasquia em período de quarentena

Neste artigo, contamos-te como William Shakespeare escreveu uma das suas melhores peças, Isaac Newton criou as bases da Física clássica e Albert Camus assinou um Prémio Nobel, bastião do Existencialismo – todos em isolamento.

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Pode ser difícil lutar com o fantasma da produtividade durante este tempo de quarentena. No meio do trabalho que temos para fazer a partir de casa, um passeio pelo Instagram mostra-nos que há quem consiga encaixar na sua rotina 100 agachamentos antes do almoço, quem tenha aproveitado o fim-de-semana para lançar um podcast, e mais uns quantos exemplos do género que, pensados da forma errada, podem deixar qualquer um desanimado. Tentar usar esses casos como inspiração pode ser uma forma mais positiva de ver a coisa, porque a verdade é que, se formos à procura de exemplos de produtividade em tempos de quarentena, há uns bem mais avassaladores que praticar yoga no chão da sala ou fazer bolos dia sim, dia não.

Há cerca de uma semana, começaram a aparecer memes e tweets, alegando que Shakespeare usou um período de quarentena para escrever uma das suas mais famosas peças, O Rei Lear. Terá sido quando um surto de peste – segundo a história, derivado da chamada peste bubónica – chegou a Londres em 1606 e levou ao encerramento do teatro onde as suas peças eram representadas, o Globe, obrigando Shakespeare a isolar-se em casa para escapar ao contágio.

Posto isto, agora sim, se calhar vais tirar o pó ao romance que andas a escrever há anos… Mas Shakespeare não foi o único génio a elevar a fasquia da produtividade em tempos de isolamento. Em baixo contamos-te como Isaac Newton terá aproveitado outro surto de peste em Londres e a consequente quarentena para melhorar os seus cálculos e criar a Teoria da Gravidade e as bases da Física clássica e como Albert Camus se inspirou no surto de cólera em Oran, na Argélia, para escrever A Peste, um dos bastiões da filosofia existencialista.

William Shakespeare e O Rei Lear

Depois da avalanche de tweets sobre o feito de The Bard, e a resposta até saudável dos internautas, Andrew Dickson, especialista em Shakespeare e no Teatro Globe, investigou a veracidade da história e publicou um artigo no The Guardian onde analisa os efeitos da quarentena na produção literária do autor.

Refere que o efeito dos surtos de peste que invadiram a Europa entre os séculos XIV e XVII naqueles que viviam do teatro teve muito impacto, e foi imediato, tal como hoje. Para piorar a situação à altura, acreditava-se que os atores e todos os envolvidos na área da representação estavam no centro da vida desregrada de parte da população e eram a causa “dos castigos divinos”. “Como um pregador da época disse: ‘A causa das pragas é o pecado, e a causa do pecado são as peças’.”

A peste que atingiu Londres entre 1603 e 1613 fez com que os teatros estivessem fechados a maior parte desse tempo, altura que coincidiu com o apogeu da escrita de Shakespeare. O teatro onde o autor costumava apresentar as suas peças foi abrindo e fechando conforme a gravidade do surto na capital britânica e foi em 1606, antes de o Globe voltar a ser encerrado por causa da doença, que Shakespeare apresentou pela primeira vez uma peça sua perante o rei Tiago I. A peça em questão tinha muitas referências à vivência em quarentena, e às histórias que o bardo ouviu ao crescer contadas pelo seu pai, sobre o “apocalíptico” surto do verão de 1564, que matou um quarto da população de Stratford-upon-Avon, a cidade onde nasceu.

A peça era O Rei Lear, peça que foi escrita um ano antes, durante os tempos que Shakespeare viveu em quarentena, e inclui um texto onde o autor explora o caos vivido à época, os milhares de mortes e o desespero vivido naqueles tempos e que, para Andrew Dickinson, são o espelho de quanto o período de isolamento marcou Shakespeare.

As pragas são um tema presente noutras peças de Shakespeare como Romeu e Julieta ou Macbeth – esta última escrita durante a epidemia de 1606 – mas é em O Rei Lear que Shakespeare refere, por exemplo, que a transmissão do vírus se pode dar por via aérea e fala de outros sintomas e situações que agora ecoam na cabeça de todos os que vivem a pandemia do novo coronavírus.

Dickinson defende até que as epidemias ocorridas durante a vida do autor foram responsáveis pelos seus melhores trabalhos: O Rei Lear, Romeu e Julieta, Hamlet, Macbeth e António e Cleópatra. A primeira foi a única que foi escrita em isolamento obrigatório como o que vivemos agora, mas segundo o especialista, o seu sucesso vem, mais do que do período de quarentena, do frenesi criativo que Shakespeare sentia quando dela se libertava.

Isaac Newton, cálculos e teorias

Segundo o biógrafo Philip Steele, foi entre os anos de 1665 e 1667, na época da Grande Praga de Londres, que o “génio de Newton foi libertado”. “O material precioso que disso resultou foi uma nova compreensão do mundo.”

Num artigo do The Washington Post, esta história é-nos contada com a ajuda do escritor e biógrafo do cientista, e pelo escritor Stephen Porter, autor do livro “The Great Plague”. Steele refere que estes anos da vida de Isaac Newton são mesmo conhecidos em latim como anni mirabilies, ou “anos maravilhosos”. Essa fase do seu trabalho começou em junho de 1665, quando um surto de peste bubónica eclodiu em Londres, levando ao encerramento da Universidade de Cambridge, onde Newton estudava. Foi no seu regresso a casa, em Woolsthorpe, e durante uma sessão de “meditação no jardim”, que a famosa história da maçã-na-cabeça terá acontecido – uma história apócrifa mas que ganhou fama após o relato do assistente do físico, John Conduitt, que contava que o próprio Newton terá usado a história da queda da maçã como um exemplo, para ilustrar a sua ideia sobre a Teoria da Gravidade.

Esses tais “anos maravilhosos” foram-no para Newton, mas foram também cenário de dois dos piores desastres da história do Reino Unido. Além da peste em 1665, que apenas num mês fez 70 mil mortes apenas na capital, no ano seguinte aconteceu o Grande Incêndio de Londres, que deixou a cidade ainda mais devastada. Em “The Great Plague”, Stephen Porter conta que, por mais horríveis que os dois eventos tenham sido para os milhares de pessoas que os viveram, “alguns dos que foram obrigados a deslocar-se por causa da epidemia conseguiram fazer com que a interrupção forçada das suas rotinas normais tivesse um bom resultado”. Provavelmente, ninguém mais que Isaac Newton, que “conduziu experiências refletindo a luz através de um prisma triangular e desenvolveu a teoria das cores, inventou o cálculo diferencial e integral e concebeu a ideia da gravitação universal, que testou calculando o movimento da lua em redor da terra.”

Albert Camus, a sua praga e os seus diferentes significados

A literatura sempre foi terreno fértil para relatos sobre epidemias – da ficção científica com aliens e zombies aos acontecimentos reais. E o que é certo é que, em tempo de novo Coronavírus, em vez de tentar esquecer, há quem queira ler sobre surtos e doenças de outros tempos. A Peste de Albert Camus, considerada a obra-prima do autor, é agora best-seller em vários países do mundo. Lançado em 1947 e Prémio Nobel da Literatura em 1957, o livro saltou das estantes empoeiradas para os tops de vendas e, segundo o The Guardian, a editora “Penguin teve de organizar uma nova impressão em massa da sua tradução para inglês para responder à procura”. Em Itália, noutro exemplo, as vendas do livro triplicaram.

A Peste segue os habitantes de Oran, uma cidade argelina que é isolada pela quarentena e devastada pela peste bubónica. Camus escreveu a obra cinco anos depois do seu trabalho mais conhecido, “O Estrangeiro”, e apenas três anos após um surto real de cólera em Oran. E como todas as suas obras, também A Peste permite mais do que uma interpretação, tendo a sua representação literária de uma comunidade isolada sob um cerco invisível sido elevada à qualidade universal de mito.

É que apesar de Camus contar uma história que se passa numa cidade real e sobre uma doença específica, cada época foi tendo a sua própria leitura do livro, à luz do contexto que vive. O escritor sul-africano J.M. Coetzee sugere, por exemplo, que quando lermos o romance devemos pensar na peste como “aquilo a que os franceses chamaram ‘a peste castanha’ da ocupação alemã e, mais geralmente, sobre a facilidade com que uma comunidade pode ser infectada por uma ideologia como se fosse um micróbio”. Em 2003, noutro exemplo, a crítica Marina Warner referiu-se ao livro como um “estudo sobre o terrorismo”, e no artigo do The Guardian mencionado em cima, a directora editorial da Penguin Classics, Jess Harrison, é citada a dizer que “Embora seja geralmente considerado uma alegoria para a experiência francesa da ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial, [o livro] não poderia ser mais relevante para o momento actual.”

A relação entre o livro de Camus e a situação de quarentena que vivemos é mais profunda que o simples facto da narrativa girar em torno de uma epidemia. Cada personagem da história exemplifica um arco diferente de reação individual à crise: o incansável médico Rieux, o suicida sociável Cottard, o humanista Tarrou. No meio dessa viagem pessoal que o livro nos propõe, e que em tanto se assemelha à que temos tentado navegar nos últimos dias, não deixa de ser caricato encontrar tantos pontos comuns com a praga de 47 e a de 2020. Um dos mais consideráveis será a relutância das autoridades argelinas em chamar “praga” à “praga”, para não “alarmar o público”, numa espécie de déjà vu sombrio de reconhecimento da actualidade.

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