Literacia digital como chave para a adaptabilidade

Hoje, termos como “trabalho remoto”, “videoconferência”, “acesso remoto” ou ainda nomes como “Zoom”, “Trello” ou “Slack” estão na ordem do dia. A situação e contexto atual obrigou a uma aprendizagem rápida sobre vários temas do digital. E é sobre este aspeto em concreto que quero refletir.

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Deveria estar a escrever sobre o Coronavírus? Sinto que, como alguém que já trabalha remotamente há cinco anos, devia tentar ajudar mais. Ainda mais. Mas a verdade é que precisei de parar e fugir um dia inteiro das notícias, dos feeds do Twitter e do Slack que não parava de me notificar de novas partilhas, para refletir de que forma posso ser efetivamente útil. No final, o que me surgiu foi esta reflexão sobre literacia digital.

Obriguei-me a fazer um exercício que nos é ensinado em Futures Thinking que é o Look Back to Look Forward. Esta técnica, desenvolvida pelo Institute For The Future, permite-nos, através da reflexão do que fizemos e do que aconteceu, desconstruir as crenças e visões que nos fazem ter uma visão limitada do futuro.

Explico. Quando tentamos pensar no futuro ou responder à clássica pergunta “Onde é que te vês daqui a 5 anos?”, as visões e respostas que damos têm como referências coisas que nos aconteceram. O que é absolutamente normal, pois não existindo dados sobre o futuro, os dados utilizados como referência são os do passado e os do presente – que se vai tornando passado, ainda mais nesta fase de mudança tão rápida.

Se já tinha aplicado esta técnica em exercícios maiores durante o meu estudo de Futures Thinking, com o presente que estamos a viver e esta fase de quarentena achei bem interessante fazê-lo novamente.

As referências que tínhamos do passado, há um mês por exemplo, eram drasticamente diferentes daquelas que temos hoje. Poucos acontecimentos da era moderna nos moldaram tanto como esta pandemia. Como muitos dizem, haverá um mundo antes e um mundo depois do Covid-19. Levo isto mais longe, dizendo que haverá um “eu” antes e um “eu” depois do Covid-19.

Profissionalmente, grande parte da população teve de agir drástica e rapidamente perante a situação de quarentena. Muitos não sabiam há dois meses metade das coisas sobre digital, online ou tecnologia que sabem hoje. Hoje, termos como “trabalho remoto”, “videoconferência”, “acesso remoto” ou ainda nomes como “Zoom”, “Trello” ou “Slack” estão na ordem do dia. A situação e contexto atual obrigou a uma aprendizagem rápida sobre vários temas do digital. E é sobre este aspeto em concreto que quero refletir.

Há seis meses comecei a estudar Futures Thinking focando-me nas temáticas da Adaptabilidade e do Futuro do Trabalho. Enquanto trabalhadora remota desde 2015, o trabalho remoto é um dos pilares da minha vida. Mas mais do que tentar evangelizar todas as pessoas e empresas, a minha abordagem nos últimos anos foi a de tentar mostrar que o trabalho remoto deve ser uma componente presente nas empresas – não precisam de ser uma empresa 100% remote; mas acho crucial nesta era todas as empresas terem preparação e abertura para o trabalho à distância.

Essa presença do trabalho remoto tem, no entanto, que ser preparada para ser bem sucedida. Não vejo o trabalho remoto como uma imposição, mas sim como uma alternativa. Aos meus olhos, imagino um trabalhador que queira ir viver três meses para outro país devia poder fazê-lo e continuar a trabalhar. Isto é possível porque a sua empresa tem procedimentos internos para ter um membro remoto e tem todas as pessoas treinadas para entenderem essa dinâmica.

Este último ponto é um dos mais cruciais. É muito difícil implementar um trabalho digital, que alcance resultados e metas, se as pessoas que o fazem não entendem o digital. Se não têm a sua literacia digital desenvolvida.

E por literacia digital não falamos apenas de “saber abrir o Slack e conseguir aceder remotamente por VPN à rede do escritório”. Não.

Competências de literacia digital incluem:

  1. Pensamento crítico
  2. Comunicação digital responsável (a chamada netiquette)
  3. Comportamento e utilização segura
  4. Destreza e facilidade na pesquisa, investigação e confirmação de informação online
  5. Entendimento da cultura digital
  6. Aplicação de princípios colaborativos e criativos

Na Estratégia Nacional para a Inclusão e Literacia Digitais, desenvolvida para os anos 2015 – 2020, organizou-se estas competências em cinco grandes áreas de atuação:

  1. Informação
  2. Comunicação
  3. Criação de Conteúdo
  4. Segurança
  5. Resolução de Problemas

A falta de literacia digital é um parâmetro de exclusão social. Quem não sabe usar, comportar-se, entender e adaptar-se ao digital, tem um grande handicap em relação a quem sabe.

Entender o que é o digital, como funciona uma rede, como funciona a comunicação entre dois computadores, o que é realmente uma VPN, o que é uma ligação encriptada ou ainda como avaliar a veracidade da informação online, são apenas alguns exemplos que deveriam ser um pilar essencial da educação moderna.

O coronavírus provocou uma situação urgente e que obrigou à adoção rápida ao digital por parte dos profissionais, das empresas, das escolas, dos professores e dos alunos. Nesta fase, defendo que cada um de nós deve tentar fazer o que funciona, da melhor forma que se conseguir, com os recursos existentes.

Contudo, deixo esta reflexão para que cada um de nós, que está a ler este artigo num dispositivo ligado à Internet, tenha um papel ativo não só no aumento da sua própria literacia digital, mas também na disseminação de aprendizagens e conhecimentos tecnológicos.

A tecnologia é o que nos permite hoje em dia, felizmente, adaptar-nos a situações pandémicas ou urgentes. Mas para que consigamos torna-la ainda um maior e melhor aliado, é importante que ela seja também o centro da nossa aprendizagem.

Texto de Krystel Leal

A Krystel Leal é freelancer desde 2015, especializada nas áreas da estratégia digital e marketing de conteúdo. Com background académico na área da Comunicação e do Digital, trabalha sobretudo com empreendedores digitais que procuram posicionar-se de forma otimizada no online. Hoje reside em Palo Alto (Silicon Valley) na Califórnia de onde trabalha remotamente para clientes no mundo inteiro. É, também, a fundadora do projeto Nomadismo Digital Portugal.

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