McMillions: a história da maior fraude num “jogo de monopólio”

Uma das mais recentes séries da HBO conta uma história de crimes e esquemas fraudulentos em torno do jogo do jogo promocional da McDonald's inspirado no Monopólio.

Via HBO/divulgação
 
Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

É a mais recente aposta da HBO, McMillions, uma série documental dividida em 6 episódios estreou no dia 3 de Fevereiro. Mafiosos à antiga, detalhes peculiares, prémios absurdos, contrabando estatal e um strip-club “religioso”, quem diria que pedir umas batatas ou refrigerante nos anos 90 levaria a um enorme esquema fraudulento?

Se recuarmos uns bons 10 anos, e tendo em conta aquilo que eu me lembro, com os meus 12 anos era provável que estivesse a entrar num McDonalds, com a novidade de que o denominado “Monopoly Volta ao Mundo” tinha acabado de chegar. Menus grátis, carros, câmaras de vídeo e viagens eram alguns dos prémios que se podiam arrecadar em território nacional, um concurso que nas suas edições anteriores também tinha tido um enorme sucesso, mais pequeno em termos de prémios e sem qualquer hipótese de ter o mesmo desfecho que o concurso original teve nos EUA.

Imagem do jogo em Portugal / Via http://portugal.mcdonalds.pt/monopoly2010/

A história data de 1987, naquela que foi a promoção mais bem-sucedida da McDonalds. O jogo promocional do monopólio passava por incentivar os clientes de todo o país a comprar fast food para conseguirem peças com temas do monopólio (o jogo de tabuleiro). Os prémios variavam de umas simples batatas fritas grátis a 1 milhão de dólares, no entanto, as probabilidades de ganhar o grande prémio eram de 1 em 250 milhões, algo que não fazia prever que houvesse tantos vencedores como houve na altura; é aí que entra Jerome Jacobson.

Jerome Paul Jacobson, conhecido como “Tio Jerry”, era um aspirante a polícia que, devido a alergias e lesões infelizes, não chegou aos cargos que ambicionava. Jerome sempre teve ‘azares’ durante a sua vida e em 1980 entrou em colapso com uma severa paralisia, mais tarde diagnosticada como um distúrbio neurológico raro, e a sua esposa, Marsha, tirou licença para cuidar dele. Em 1981, o casal mudou-se para Atlanta, Geórgia, onde Jerome Jacobson recuperou o suficiente para trabalhar como mecânico. Marsha recebeu um emprego como auditora de segurança da empresa de contabilidade Arthur Young, tendo sido designada para trabalhar com um cliente específico, a Dittler Brothers. Nesse mesmo ano, recomenda o marido para um emprego no mesmo sítio e Jacobson começou a subir na hierarquia de tal forma que começou a supervisionar toda a produção do cliente da Dittler Brothers, a Simon Marketing, que era, nada mais nada menos, que a produtora das peças de jogo da McDonalds — as peças eram produzidas pela empresa e impressas pela Dittler Brothers, tudo responsabilidade de Jerry Jacobson.

Durante cerca de 12 anos, Jerry foi responsável por montar um esquema de roubo, contrabando, bilhetes falsos e ganhos ilegais superiores a 24 milhões de dólares. Jerry selecionava os vencedores a dedo e dividia o prémio com aqueles que entravam no esquema. Agora, em 2020, a HBO dá-nos um insight neste esquema denunciado em março de 2000 e que foi inicialmente considerado pelo FBI como um caso sem importância. A série desmascara lentamente o esquema e pode não nos prender ao ecrã desde o início, com encenações fracas, por exemplo, deixando-nos a questionar se vale a pena isto ter 6 episódios. Mas à medida que vamos avançando, percebemos que é o seu conteúdo é muito mais do que reconstituições cheesy, para além da perseguição undercover do FBI ao longo do desenrolar do tempo, o elenco de personagens dá outra integridade à série. Desde o agente do FBI, Doug Matthews e a sua persona quase ficcional, a AJ Glomb, um dos envolvidos no esquema e um verdadeiro criminoso dos anos 90, a Gennaro Colombo, um autêntico homem da máfia italiana que é também o autor da “brilhante” ideia de criar um strip-club/igreja.

McMillions acaba por ser uma série que nos vai conquistando pouco-a-pouco, consegue juntar suspense com comédia, a ação (não violenta) com o drama, a ingenuidade com o desespero, e tem a particularidade de ir mudando a sua forma à medida que nos aproximamos do final. A série mostra como um escândalo tão grande pode criar uma justaposição divertida, juntando a “falsa alegria” que os “vencedores” do prémio mostravam a público e nos anúncios em que participaram, com o pesadelo que foi serem seduzidos pela perspetiva de dinheiro grátis, levando-os a situações perigosas e stressantes. Quanto à história real, o famoso “Tio Jerry” viu o seu reinado chegar ao fim quando o FBI montou uma operação gigantesca com o nome de “Resposta Final”, com 25 agentes envolvidos que, após ouvirem mais de 200 cassetes com chamadas entre mais de 20 mil números de telefone, se empenharam em apanhar todos os intervenientes e responsáveis, num caso que se viu abafado pela tragédia do 11 de Setembro, visto que o julgamento aconteceu no dia anterior, a 10 de Setembro. Uma história que ditou o fim de Jerome Jacobson, condenado a 37 meses de prisão, pena noticiada na altura com uma originalidade louvável, com títulos tipo: “Jacobson recebeu um cartão Go to Jail”.

A série, produzida pela empresa de Mark Wahlberg, vai passar ao grande ecrã produzida pela Fox. O filme já tem nome, chama-se How an Ex-Cop Rigged McDonald’s Monopoly Game and Stole Millions e conta com Ben Affleck como director e Matt Damon como actor principal.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.