Netflix e YouTube reduzem qualidade, seguindo recomendação da UE em tempo de pandemia

Empresas estão a cumprir as recomendações da União Europeia numa altura em que a utilização da internet tem aumentado.

Foto de Thibault Penin via Unsplash
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Mais pessoas em casa, em lazer ou em teletrabalho, significará um aumento da utilização da internet a nível global. A Vodafone, operadora em diferentes mercados europeus onde tem cerca de 120 milhões de clientes, chegou a registar aumentos de 50% no uso da internet em alguns países. Em Portugal, a Altice também assinalou um aumento do tráfego na rede fixa e dos serviços de TV doméstica, apelando aos seus clientes para um uso responsável das redes. A NOS montou uma página com algumas dicas de uso responsável, que incluem privilegiar o uso da internet fixa, evitar fazer o download de ficheiros de grande dimensão, não sobrecarregar a rede no horário laboral, evitar o HD/4K e recorrer ao modo offline sempre que possível.

Conseguirá a Internet aguentar tanta gente? Segundo especialistas ouvidos pelo Politico, a infra-estrutura construída na Europa, Estados Unidos e nos países mais desenvolvidos está pensada para aguentar picos de actividade e até ao momento não existem registos de quebras nos serviços de telecomunicações. Ainda assim, a Comissão Europeia quer precaver eventuais disrupções e, esta quarta-feira, fez um apelo para que plataformas de streaming como o Netflix tomem medidas práticas, como a redução da qualidade de transmissão, para que o serviço continue disponível e a internet não quebre numa altura em que a procura é mais elevada. Thierry Breton, comissário europeu para o Mercado Europeu, conversou com Reed Hastings, CEO do Netflix, sobre este assunto.

O apelo da Comissão Europeia

“As plataformas de streaming, as operadoras de telecomunicações e os utilizadores têm uma responsabilidade conjunta em adotar medidas para garantir o bom funcionamento da internet durante a batalha contra a propagação do novo coronavírus”, disse Thierry Breton, numa declaração enviada à imprensa e citada pelo Financial Times. Através do Twitter, o comissário partilhou uma mensagem em que incentiva todos – não apenas estas entidades – a mudar para definição SD (Standard Definition) sempre que o HD (ou 4K) não seja necessário. A iniciativa até já tem hashtag: #SwitchToStandard.

As respostas do Netflix e YouTube

O Netflix ouviu os apelos da Comissão Europeia através da voz de Thierry Breton e vai reduzir a qualidade de imagem das transmissões. Escreve a BBC que a empresa vai baixar a qualidade não tirando a opção de HD aos consumidores mas mexendo no bit rate. Quer isso dizer que o streaming de filmes e séries no Netflix passará a ter um bit rate mais baixo, o que influenciará a clareza e suavidade da imagem, que poderá ficar ligeiramente mais pixelizada. A empresa diz que os espectadores vão continuar a achar a qualidade de imagem boa, mas essa redução permitirá baixar o consumo de dados em 25%. Estas alterações irão durar 30 dias e, pelo menos por agora, terão efeito apenas em território europeu.

Também o YouTube vai seguir as recomendações europeias. Segundo a Reuters, a empresa subsidiária da Google diz que até agora apenas notou alguns picos de utilização mas que vai cortar na alta definição. Numa nota, o YouTube diz que vai mudar a qualidade dos vídeos na sua plataforma para SD por defeito para os utilizadores na União Europeia. A empresa não esclarece se o HD continuará disponível na mesma, apesar de por defeito um vídeo carregar em SD, mas garante que “continuaremos a trabalhar com os governos dos Estados-membros e os operadores da rede para minimizar o congestionamento no sistema, além de oferecer uma boa experiência ao utilizador”. Youtubers e outros influenciadores contam ao BuzzFeed News que estão a ter mais audiência por estes dias.

Isto pode não ficar por aqui

Outras plataformas de streaming de vídeo além do Netflix e YouTube poderão seguir as recomendações da Comissão Europeia. Bruxelas autorizou também as operadoras a poderem limitar o tráfego das suas redes de internet. “Nos termos do Regulamento Internet Aberta (artigo 3.3 do Regulamento (UE) 2015/2120), os operadores estão autorizados a aplicar medidas de gestão de tráfego, para mitigar os efeitos de congestionamento das redes, excecionais ou temporárias, desde que categorias equivalentes de tráfego sejam tratadas de modo equivalente”, refere um comunicado conjunto da Comissão e do BEREC, o Organismo de Reguladores Europeus das Comunicações Electrónicas.

Este comunicado lembra porque é que nem estas limitações do Netflix e YouTube, nem as recomendações da Comissão Europeia, vão contra os princípios da neutralidade da internet: não só, por um lado, são os serviços digitais a tomar medidas e não operadores a tratar esses serviços de forma diferente uns dos outros, como também, por outro lado, a Comissão pede medidas de gestão de tráfego mas deixa garantias que todos os sites e aplicações têm de ser tratados por igual – ou seja, não pode tornar uns sites mais lentos e outros não.

Em alguns países, como Portugal, as operadoras estão a oferecer 10 GB de dados móveis “para que todos os portugueses continuem ligados”; já em Espanha, as empresas de telecomunicações juntaram-se para incentivar os clientes a usar os telefones fixos em vez dos telemóveis sempre que possível, conforme reporta o Politico.

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