Precisamos de falar sobre o novo design do Facebook

O Facebook já não quer ser simplesmente a rede social, querendo tornar-se numa espécie de portal de entrada para o mundo digital.

 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Mudar uma plataforma usada por milhares de milhões de pessoas não é tarefa fácil, e o Facebook é cauteloso sempre que muda uma ou outra coisinha no seu site desktop ou nas apps mobile. Em 2014, o Facebook tentou mudar o Facebook, mas falhou e acabou por manter mais ou menos tudo igual porque “as pessoas não gostam que andemos a mudar a sua mobília de sítio”. Em 2019, o Facebook recuperou a ideia de redesenhar o seu site, desta vez, com ideias de não voltar atrás.

O FB5 foi apresentado no final de Abril do ano passado e consiste num redesenho total do Facebook, do mobile ao desktop, com foco em produtos como os grupos, os eventos, o vídeo (Watch) e o Marketplace. Em Maio, o Facebook começou por levar o FB5 até às plataformas móveis, de onde desapareceu a icónica barra azul para dar lugar a uma interface branca de alto a baixo, que a qualquer momento poderá ganhar um dark mode. No desktop, o FB5 demorou mais meses a chegar.

Mark Zuckerberg está a ser cauteloso porque as mudanças no desktop são mais significativas do que foram no mobile. A empresa passou os últimos meses a desenvolver o novo design dentro da complexidade em que o site do Facebook se tornou ao longo de mais uma década da sua existência. Testou-o primeiro com um grupo de pessoas restrito, e agora está pronto para receber feedback de um modo mais alargado.

Só neste mês de Março é que a equipa de Zuckerberg começou a disponibilizar o FB5 no desktop de modo opcional. Quem quiser o novo design, pode aceder às definições e clicar na opção para testar o novo Facebook – e se não gostar da nova interface, pode voltar à antiga a qualquer momento.

O que vemos de positivo no novo design?

Quem acede ao Twitter no computador e no telemóvel, vai encontrar uma experiência muito idêntica. A interface é a mesma, só que ajustada a ecrãs de diferentes tamanhos e com diferentes formas de interacção. Os botões estão no mesmo sítio. E os menus são iguais. Entre o Instagram no telemóvel e o Instagram na app, não existem também diferenças substanciais, até porque o site desktop foi desenhado depois e a partir da aplicação móvel. Com o Facebook, o caso é bem diferente e o FB5 procura uniformizar as experiências no desktop e mobile.

Com o FB5, o Facebook no computador passará a ser igual ao do telemóvel. Os menus estão mais simples e a interface fica, no geral, mais limpa de ruído. A barra azul também desaparece e todo o site passa a ser substancialmente branco, existindo dark mode para quem prefere interfaces mais escuras. No geral, parece que não dá para não gostar do novo Facebook. Está mais simples, perdeu a complexidade de menus, separadores e opções que o anterior tinha. Está também mais rápido, seja a mudar de página ou a aceder ao site. E gosto das interfaces brancas com pequenos toques de cor aqui e ali, e com um modo escuro disponível.

O Facebook precisava desta limpeza, que não é fácil. O novo site, juntamente com as novas aplicações móveis, preparam a rede social para os desafios dos anos que seguem, ao mesmo tempo que procuram focar a atenção dos utilizadores no melhor que o Facebook actualmente tem: grupos e eventos, mas também o Watch e o Marketplace. Os amigos, as personalidades e marcas que queremos seguir, os projectos de que gostamos… esses estão no Instagram e também no Twitter. Agora, a melhor agenda cultural continua a ser o Facebook, e os grupos são também fortes espaços de comunidade e discussão.

O que vemos de negativo?

Analisar a interface de um dos sites mais visitados do mundo não pode ser uma simples reflexão sobre os conceitos de gosto. O Facebook não é um objectivo feito para contemplação nem apreciação e, portanto, a sua análise deve ser feita, como analisamos, por exemplo, um edifício. Se quisermos, podemos mesmo assumir que o design de uma estrutura com esta a complexidade se aproxima mais da arquitectura do que de uma disciplina puramente visual. E essa aproximação não se dá por acaso, mas pela forma como, obrigatoriamente, nos relacionamos com o site.

Ao contrário da análise que nos habituámos a fazer dos sites, nivelando-os pelo utilizador médio e sem medirmos o seu impacto social, o escrutínio ao Facebook não pode passar sem que essa dimensão social e política das suas alterações seja tido em conta. Uma mudança no design do Facebook implica e conduz uma mudança na forma como as pessoas se comportam e se relacionam, como a informação circula, em geral, como parte da sociedade se desenrola. Apesar do declínio por muitos anunciados, o Facebook continua a ser uma das redes sociais mais visitadas e mesmo com a saída dos mais jovens, os mais velhos continuam por lá a trocar comentários, a partilhar notícias e a reunir-se em grupos, conferindo à empresa uma relevância social inalienável.

Assim, o escrutínio ao design do Facebook deve ser acompanhado de perto por uma inferência sobre as alterações de comportamento que a plataforma pretende induzir, bem como por uma articulação com fenómenos que lhe são externos mas não podem ser alheios. Comecemos pelo princípio: o novo design da aplicação substitui a organização habitual dos websitesheader, navegação, conteúdo – por uma organização ao estilo dashboard. Esta alteração representa a mudança de posicionamento da aplicação que já não quer ser simplesmente a rede social, querendo tornar-se numa espécie de portal de entrada para o mundo digital. Isto explica o ganho de preponderância dos atalhos e a diminuição dos número de elementos no ecrã – ao estilo de um sistema operativo, o Facebook reduz-se ao essencial, permitindo-nos circular pelos seus meandros com um clique mas sem nos assoberbar com o seu conteúdo. O foco deixa de estar no conteúdo e passa a estar nas interações – isto explica porque ganham destaque secções como o Marketplace ou até mesmo os grupos.

Se antigamente o rei era o News Feed, agora o Facebook quer diluir este reinado, tentando aglutinar uma série de outros serviços online, como a venda de produtos, o vídeo ou os jogos, abrindo espaço a que no futuro inclua ainda mais serviços.

Por outro lado, o ganho de preponderância dos grupos também merece uma nota concreta neste texto. O Facebook assume-os como parte da sua estratégia de crescimento e penetração, ignorando os sinais de que a criação de núcleos fechados de pessoas podem ter um lado negativo. Os grupos de Facebook, fechados, que juntam pessoas com filiações próximas, podem ser células de radicalização do discurso e perigosas concentrações, que agravam ainda mais o problema das bolhas online, dificultando o exercício social de escrutínio e contraditório que qualquer pessoa podia exercer sobre um post público.

Tal como mostrou o escândalo em torno do Cambridge Analytica, um dos grandes problemas da redes sociais, como são actualmente, prende-se com a possibilidade de micro-segmentação de mensagens. Esta nova interface focada nas interações individuais ou em grupos tendencialmente fechados parece querer retornar um certo espírito de intimidade, mas numa rede tão vasta e com potencial de crescimento exponencial de grupos restritos, pode não ser a melhor abordagem a esse problema.

Além do mais, esta normalização de uma interface com um conjunto limitado de funcionalidades perde, ao emular os dispositivos móveis, uma das grandes vantagens que a interface desktop nos oferecia: a gestão da nossa atenção de forma mais granular e personalizada. Assim, enquanto dantes rapidamente se copiava texto para várias conversas ou se limpava de uma assentada todos os círculos vermelhos que clamavam pela nossa atenção com notificações que pouco nos diziam mas convinha não desactivar, precisamos agora de abrir uma conversa de cada vez, passando, no entretanto, os olhos pelas distrações que as ladeiam, ou de dar mais cliques para sentirmos que não temos mais assuntos por resolver.

Em que é que ficamos?

Tal como na metáfora utilizada sobre os edifícios, o resultado do novo Facebook perceber-se à ao longo do tempo e com o desenrolar da actividade na plataforma. É impossível ter um veredicto quanto a uma interface tão complexa e sobretudo, desaconselhável. Temos de nos recordar que mais do que avaliar a aparência de um simples site da internet, estamos a reflectir sobre o produto de uma das empresas mais valiosas do mundo, onde decorreram importantes modulações sociais, para o bem e para o mal.

Texto de Mário Rui André, João Gabriel Ribeiro e Henrique Vasconcelos

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!