RADAR #4: do Coronavírus às Primárias Democratas nos EUA

No quarto RADAR, olhamos para o impacto do vírus Codvid-19 pelo mundo, para as eleições legislativas no Irão, sem esquecer o julgamento de Julian Assange e o processo das primárias democratas nos Estados Unidos.

 
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Na nossa edição #3, olhámos para o Reino Unido acabado de sair da União Europeia e para o Trump que conseguiu manter-se à frente dos Estados Unidos da América. Passámos ainda pela Ucrânia, Venezuela, Argentina, França, Espanha, pelos Luanda Leaks, e pelo Iraque.

Neste quarto RADAR, analisamos o impacto social e económico do chamado Coronavírus (Codvid-19) pelo mundo, olhamos para a crise política na Alemanha e para a relação entre Portugal e a Venezuela que se tem desenhado conturbada nos últimos tempos. Passamos pelos Estados Unidos para acompanhar as eleições primárias do Partido Democrata, sem esquecer o julgamento sobre a extradição de Julian Assange. Reflectimos ainda sobre os resultados das eleições legislativas no Irão, na Irlanda e na Eslováquia e falamos da impugnação da candidatura do ex-Presidente boliviano Evo Morales.

Podes ler os primeiros RADAR aqui.

O impacto do Coronavírus

É sem dúvida uma das notícias que mais marcou os últimos tempos na actualidade internacional. Há nesta altura dois casos de COVID-19 confirmados em Portugal, mais concretamente no Porto, depois de muita especulação mediática em torno de “casos suspeitos” no país desde que a epidemia estalou do outro lado do mundo. Portugal é, ainda assim, um dos países com menos doentes confirmados. O número de mortes e infectados não pára de aumentar e torna-se difícil apurar os números mais recentes. Sabe-se que já houve mais de 3000 mortes ligadas ao vírus e que por todo o número os números de infectados passaram das dezenas para as centenas nos últimos dias, para os milhares em alguns casos (Irão, Itália, Coreia do Sul e China são os países mais afectados).

Foto de Macau Photo Agency via Unsplash

Recentemente, a União Europeia aumentou o nível de risco de “moderado” para “elevado”. Há escolas e museus encerrados, empresas com trabalhadores de quarentena, e o impacto económico da epidemia está ainda para ser provado mas começa a ter consequências cada vez mais evidentes.

Numa altura em que notícias sobre o tema ainda chegam ao minuto, importa que nos mantenhamos informados mas com serenidade. As autoridades de saúde portuguesa garantem que têm acompanhado as situações com atenção. A ministra da saúde declarou também que haverá um reforço da informação nos voos realizados entre Portugal e as zonas afectadas (China e Itália) e que serão feitos rastreios de contactos com todos os afectados.

Primárias Democratas nos EUA

A partir do mês passado e até Junho, altura em que devem ser conhecidos os candidatos às Presidenciais norte-americanas, a política no país será dominada pelas primárias de cada partido. Se nos Republicanos a concorrência a Donald Trump ainda não conquistou grande espaço mediático nem elevou o nível do debate nesse partido, nos Democratas são os vários candidatos em campanha têm dado que falar. Bernie Sanders parece ser um dos nomes com maior apoio popular, algo que se confirma nas urnas, mas a corrida está longe de estar ganha.

Foto de Lorie Shaull via Flickr, CC BY-SA 2.0

Depois de uma série de duas vitórias nos primeiros estados a sufrágio, foi Joe Biden quem levou a melhor no estado da Carolina do Sul. O vice-presidente da era de Obama agitou as eleições do ponto de vista dos resultados e obrigou a uma maior definição dos outros candidatos na corrida. O milionário, antigo Mayor da cidade de Nova Iorque, tem sido acusado de estar a mudar as regras do jogo através de investimento avultados em publicidade, quer nos social media quer em órgãos de comunicação social –  mas sem grandes resultados acabou por ser mais um a renunciar à corrida revelando o seu apoio a Joe Biden.

Pete Buttigieg, o candidato mais novo com apenas 38 anos e o primeiro a assumir publicamente a sua homossexualidade, tinha anunciado ter desistido da candidatura depois de um arranque promissor com uma vitória no Estado do Iowa. Tal como Buttigieg, também Klobuchar anunciaram sair da corrida deixando o seu apoio a Biden. Os candidatos em disputa são agora apenas quatro – Joe Biden, Bernie Sanders, Elisabeth Warreb e a outsider Tulsi Gabbard –, pelo que se espera uma luta cada vez mais renhida.

No dia 3 de Março deu-se a famosa Super Tuesday, com eleições em 15 estados que mostraram como está dividida a luta entre Sanders e Biden. À data e hora deste artigo, estima-se que Biden saia vencedor de 9 estados e Sanders de 3.

Julgamento de Julian Assange

Depois de sete anos exilado entre as quatro paredes da Embaixada do Equador, em Londres, e da ordem de prisão em Abril do ano passado, Assange espera agora na prisão pela decisão sobre o pedido de extradição feito pelos Estados Unidos da América. O julgamento estava previsto para o final de Fevereiro, contudo foi suspenso no dia 27 até ao dia 18 de Maio, altura em que a juíza se deve pronunciar sobre os factos. Entretanto, continuam a vir a público novos dados sobre o julgamento e as condições do cárcere do fundador do Wikileaks.

Imagem de Antonio Marín Segovia via Flickr, CC BY-NC-ND 2.0

Numa das primeiras sessões do julgamento uma das advogadas de Assange deu conta de uma proposta que terá sido feita por Donald Trump. Segundo consta, o Presidente norte-americano prometera a liberdade a Assange caso este negasse a influência russa na divulgação dos e-mails do partido democrata.

Quanto às condições, Assange continua a dizer que está privado de comunicar com os seus advogados de forma justa.

Conflito Turquia – Síria

A relação entre a Turquia e a União Europeia sempre foi, para ser breve, ambivalente. A Turquia é como que a última fronteira na chegada de migrantes à Europa, nomeadamente à Grécia, e serve-se dessa posição para exercer alguma pressão diplomática. Em 2016 celebrou-se um acordo entre as duas partes em que Erdogan se comprometeu a dificultar a passagem clandestina de migrantes em troca de ajuda financeira mas agora o presidente anunciara o fim unilateral do mesmo.

Na base desta decisão está, muito provavelmente, a sensível situação na Síria, onde os turcos apoiam os opositores ao Governo de Bashar Al-Assad, especialmente na cidade de Idlib. Esta lógica é de resto subscrita pelo timing do anúncio de Erdogan, feito um dia depois de um ataque perpetrado pelas forças sírias ter vitimado 30 militares turcos.

O Governo sírio de Al-Assad é apoiado pelos russos e a Turquia parece com esta decisão tentar pressionar os países europeus a intermediarem o conflito.

Crise na Alemanha

Considerada a protegida de Angela Merkel, a sua expectável sucessora, Annegret Kramp-Karrenbauer, anunciou no passado dia 10 que iria abandonar o cargo de líder dos democrata-cristãos na Alemanha e que não será candidata a chanceler nas próximas legislativas, marcadas para Outubro de 2021. Numa altura em que a CDU tem menos de 30% nas sondagens, a renúncia de AKK surge depois de no Estado federado da Turíngia, no leste do país, a CDU ter ajudado a escolher para primeiro-ministro um membro da Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido de extrema-direita.

Foi a primeira vez na história da Alemanha pós II Guerra Mundial que um chefe de um Governo regional foi eleito com o apoio da extrema-direita, bem como a primeira vez que facções moderadas e radicais votaram concertadas neste tipo de eleição.

Annegret Kramp-Karrenbauer (foto de U.S. Secretary of Defense via Flickr, CC BY 2.0)

A eleição no Estado da Turíngia fez ainda uma baixa no Governo central alemão: Christian Hirte, que era até à data secretário de Estado do Ministério da Economia e da Energia e comissário do Governo para os Estados do leste da Alemanha. Merkel afirmou ser “indesculpável” um partido democrático formar maioria com a extrema-direita, sublinhando a necessidade de reverter a situação – o PM eleito, Thomas Kemmerich acabou por se demitir dias depois da eleição.

Kramp-karrenbauer soma à polémica na Turíngia uma série de maus resultados eleitorais, tanto em regionais como nas europeias, e crispações internas. A alemã de 57 anos deverá continuar a ser Ministra da Defesa, cargo que ocupa desde Julho do ano passado.

Sinn Féin vence eleições na Irlanda

Depois da dissolução do Parlamento em Janeiro, a República da Irlanda dirigiu-se às urnas a 8 de Fevereiro para eleger os deputados do 33º Dáil Éireann, a câmara baixa do Parlamento irlandês composta por 160 lugares. A votação deu a vitória ao partido nacionalista Sinn Féin, encabeçado por Mary Lou McDonald, que conquistou 37 lugares, mais 14 do que em 2016. O segundo e terceiro partidos mais votados, Fianna Fáil e Fine Gael, respectivamente, viram o número de deputados diminuir. A campanha eleitoral de Mary Lou McDonald focou-se nos problemas de habitação e do serviço nacional de saúde, mobilizando os mais novos e os mais velhos. A líder do Sinn Féin já confirmou uma possível coligação com outros partidos.

Foto de Sinn Féin via Flickr, CC BY 2.0

Conservadores sobem ao poder no Irão

Os conservadores e ultra-conservadores foram os vencedores das eleições legislativas no Irão, que tiveram lugar no passado dia 21 de Fevereiro. Este foi o 11º sufrágio desde a fundação da República Islâmica em 1979 e foi aquele em que se registou o nível mais elevado de abstenção: apenas 42.6% do eleitorado se dirigiu às urnas. Os reformistas, que ocupavam o maior número de assentos no Parlamento cessante, foram os derrotados da noite. Apesar de terem concorrido ao Parlamento iraniano mais de 15 mil pessoas de 31 províncias, cerca de metade acabou por ser desqualificada, o que levou a que muitos eleitores boicotassem o seu voto. A segunda volta para eleger os restantes 14 assentos está marcada para 17 de Abril.

Partido conservador anti-corrupção vence eleições eslovacas

O partido Pessoas Comuns e Personalidades Independentes (OLaNO) venceu as eleições do passado sábado, 29 de Fevereiro, na Eslováquia. Igor Matovic, líder do partido, conseguiu o maior número de assentos no Parlamento, um total de 53 em 150. O Primeiro-Ministro Peter Pellegrini, que encabeça o partido Direcção Social-Democracia (Smer-SD), foi o derrotado da noite, totalizando 38 lugares. A campanha eleitoral de Matovic apoiou-se na luta contra a corrupção no Governo eslovaco, depois do líder histórico do Smer-SD, Robert Fico, se ter demitido face à acusação de cumplicidade no homicídio de um jornalista que investigava a corrupção do seu Executivo. Pellegrini assumiu o cargo do antecessor em 2018.

Crise Portugal – Venezuela

No dia 17 de Fevereiro, o Governo de Nicolás Maduro suspendeu os voos da TAP para a Venezuela durante 90 dias. A decisão foi tomada devido “às irregularidades cometidas no voo TP173 e em conformidade com os regulamentos nacionais de aviação civil, as operações da companhia aérea TAP no nosso território são suspensas durante 90 dias como medida de precaução para proteger a segurança da Venezuela”. O Governo venezuelano acusa a TAP de ter permitido que um familiar de Juan Guaidó transportasse explosivos durante uma viagem. 

A TAP achou a decisão uma medida gravosa e o Governo português considerou que foi uma manobra de diversão para desviar as atenções das agressões a Guaidó na chegada a Caracas. 

Foto de Eric Salard via Flickr, CC BY-SA 2.0

No dia 20 de Fevereiro, Portugal reconhece Nicolás Maduro e o seu Governo como as autoridades de facto da Venezuela. O Governo referiu que é à luz do direito internacional que é com estas instituições que vai dialogar como acontece com o diferendo da TAP. Apesar disso reconhece Juan Guaidó como a personalidade capaz de desencadear um novo processo eleitoral. Lembramos que em Fevereiro de 2019, Portugal e mais 10 países europeus reconheceram Guaidó como Presidente interino legítimo da Venezuela.

Candidatura de Evo Morales é impugnada

O ex-Presidente boliviano viu impugnada a sua candidatura a senador nas próximas eleições de Maio. Numa conferência de imprensa, Evo Morales diz que a decisão veio da Embaixada dos EUA. O Tribunal Supremo Eleitoral boliviano, reconfigurado após o golpe, decidiu recusar a candidatura de Evo Morales a senador pelo círculo de Cochabamba, argumentando que o ex-Presidente não tem residência no país. 

Morales afirma que cumpre todos os requisitos porque “não está fora da Bolívia por ser fugitivo, mas sim porque foi criada uma situação de força maior na qual o matavam se ficasse”.

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