Ruído Social: a desinformação também é contagiosa

A pressa de informar primeiro, muitas vezes, desinforma. O desespero pela notícia em primeira mão ultrapassa o impulso da notícia completa e verdadeira, deixando o cenário à criatividade do público.

 
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Ruído é um substantivo masculino que, entre os diversos significados do dicionário, se define por um som de muitas vozes, som desarmónico ou um som continuado.

É natural que quando estamos num local muito populado sintamos dificuldade em conversar com uma ou duas pessoas em particular, face ao ruído que se faz sentir. Por exemplo, numa discoteca é impossível ter uma conversa com alguém, graças ao ruído provocado pelo somatório da música, das outras pessoas a conversar, dos copos e garrafas, e de muitos outros sons indecifráveis.

A comunicação, seja de que tipo for, é um processo cíclico que se divide em etapas, entre as quais o essencial processo de codificação e descodificação. Enquanto emissor, eu estou a codificar a minha mensagem em texto. Ou seja, estou a transpor o que estou a pensar para um código que neste caso é a escrita. O leitor será o recetor da mesma que, por um processo de descodificação, irá interpretar aquilo que eu escrevi e na melhor das hipóteses compreendê-lo. Para se estabelecer o ciclo, cabe ao leitor enviar o seu feedback através do mesmo processo mediado pelas caixas de comentários ou outra forma análoga.

Se pelo meio existir ruído, este ciclo será afetado e o processo de descodificação poderá ser enviesado, remetendo-nos a interpretações incorretas e respostas desajustadas.

Dentro dos quatros tipos de ruído que existem, aqueles sobre os quais este artigo pretende incidir são o psicológico, que se trata de uma interferência mental gerada pelo emissor ou recetor (o divagar sobre o tema, as ideias pré-concebidas, a ironia e/ou o sarcasmo); e o ruído semântico, quando existe diferente compreensão do código (por exemplo, o uso de calão ou de palavras com diferentes interpretações).

A base da comunicação assenta sobre este ciclo. É desta forma que ao longo dos séculos a humanidade e a sociedade tem vindo a evoluir. O mesmo sistema de comunicação aplica-se às conversas em família, de café com os amigos, na publicação do jornais e revistas, na rádio e na televisão, e em todos as restantes plataformas de difusão. O ruído tendia a ser reduzido e a retórica e a eloquência da mensagem transmitida cada vez mais aprimorada consoante o número de recetores alvo. Até que surgiu a internet e as redes sociais…

As redes sociais são um dos fenómenos mais impactantes na história moderna. A par da radio ou da televisão, as redes sociais são um breakthrough para a indústria da Comunicação e a sua dimensão social é imensa. Só no Facebook, é estimado que um quarto da população mundial tenha conta. São aproximadamente 1.75Bi de pessoas a partilhar informação — ou num sentido mais lato, conteúdo — de toda a génese.

A proporção de comunicação tem crescido incessantemente até que hoje temos (possivelmente) a maior abrangência alguma vez conseguida. Entrámos na casa dos centenas de milhões. Hoje temos users que, sozinhos, conseguem levar a sua mensagem a um número estratosférico de pessoas. Por exemplo, o tweet com mais partilhas de sempre chegou as 4.3Mi de retweets e conta com mais de 1Mi de likes (pertence ao bilionário japonês Yusaku Maezawa, em janeiro de 2019). No Facebook, uma publicação de Vin Diesel atingiu os 8 milhões de likes, 243M comentários e mais de 600M partilhas.

Hoje, é mais fácil que nunca partilhar conteúdos. Quer para users individuais, empresas ou páginas noticiosas. É, aliás, a nova forma de consumo de informação. Um estudo nos Estados Unidos, de 2018, demonstrou que para os jovens com idades compreendidas entre os 18 e 29 anos, a principal fonte de notícias são as redes sociais, à frente das fontes tradicionais como a televisão, a rádio ou o jornal.

A facilidade de partilha de informação (quer seja esta informativa, lúdica ou comercial) trouxe uma nova realidade e, logicamente, prós e contras. Se por um lado temos informação instantânea sobre qualquer parte do mundo, por outro temos demasiada informação impulsiva, imponderada e, muitas vezes, não correspondentes à verdade. Ou seja, temos ruído.

As motivações de cada um são o motor do ruído existente. Se for a favor, irei ver o copo meio cheio, se for contra, irei ver meio vazio. Conforme as minhas intenções, tenho a liberdade e as plataformas certas para demonstrar a minha posição perante toda e qualquer situação.

Hoje abrimos o Facebook ou o Twitter e, ao longo do feed, vemos partilhas de notícias ou imagens que estão no top dos trending topics. Cada partilha pode ter uma interpretação diferente. Podem haver criticas positivas ou negativas sobre o conteúdo, desabafos sobre o tema, memes ou piadas… Cada uma destas partilhas pode ser alvo de resposta e gerar uma nova trend. A situação pode ser tão exaustiva que, muitas vezes, o tema deixa de ser o conteúdo e passam a ser os debates paralelos que são gerados.

Exemplos recentes – como por exemplo a situação do jogador do Porto, Moussa Marega, a Eutanásia ou o Luanda Leaks – tornam-se objeto de guerra dos fanáticos a favor e contra. Os temas que despoletam a discussão, passam para segundo plano e o ruído sobrepõe-se à mensagem. Pelo meio surgem ainda descontextualizações criadas por users parciais, que são partilhadas vezes sem conta, até que assumidas como verdade. Assim se criam fake news, as piadas de bom ou mau gosto, e assim se gera ruído e se desviam atenções dos assuntos realmente relevantes para fait divers e discussões fanáticas.

Basta abrir as redes sociais para presenciamos estas situações. Nestas não vinga o que é verdade. Vinga aquilo que gera mais buzz, muitas vezes sem filtro de verdade.

Vivemos a era premium da informação. Hoje temos informação imediata. A uma distância de três cliques no telemóvel consigo saber mais informações sobre, por exemplo, uma aldeia no interior da China do que os meus avós souberam/sabem da sua própria terra. Há 15 anos isto seria inimaginável.

Mas se isto é verdade, também o contrário o é. Vejamos o exemplo do Coronavirus (COVID-19). Todos os dias surgem notícias casos novos, ou de que aumentaram o número de infetados. No entanto, também surgem notícias a indicar que as contagens são mal feitas ou que se calhar não são assim tantos os doentes afetados pelo vírus. Numa situação desta dimensão, a informação verdadeira e fidedigna é altamente valiosa. Falamos num caso de preocupação à escala mundial, onde a população merece obter informações claras e credíveis. No entanto, a pressa de informar primeiro, muitas vezes, desinforma. O desespero pela notícia em primeira mão ultrapassa o impulso da notícia completa e verdadeira, deixando o cenário à criatividade do público.

A banalização destes temas através de memes, de piadas, descontextualizações ou de discussões paralelas, faz com que a sua importância de dilua pelas publicações cheias de nada.

Se é verdade que vivemos na era da informação, perante o contexto da comunicação social, das redes sociais e da necessidade de aprovação social do próprio indíviduo, vivemos em simultâneo numa era onde se destaca a desinformação.

Os impactos da “desinformação” são tantos quanto os da “informação”. E, enquanto este ruído permanecer no espaço público, as repercussões podem ser demasiado perigosas para a vida em sociedade.

“Information is power. Disinformation is abuse of power.” Newton Lee, Cientista da Computação

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