A arte do Sampling: o boom histórico dos anos 80 e o diggin’ em Portugal com Madkutz

Fizemos uma viagem à história dos samples na música e falámos com o produtor português Madkutz sobre a arte de roubar e homenagear melodias.

Foto de Jason Mowry/via Unsplash
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“A música é minha no momento em que a estou a criar, quando sai para a rua e a mostro ao mundo, é de todos, se mexeu contigo ao ponto de seres criativo com ela, não tem mal nenhum! Se a editora me perguntar eu digo que está tudo em ordem.” — José Mário Branco

Já alguma vez ouviram uma música na rádio e acharam que vos era familiar? Não, não estou a falar de um cover mas sim uma guitarra ou conjunto de drums que conhecem de algum lado. Este tipo de alterações e mexidas chama-se sampling, que numa tradução directa significa “amostragem” ou “o acto de tirar amostras”.

É um conceito que pode ser aplicado a várias áreas, como por exemplo uma amostra de sangue, uma amostra que recebemos de forma gratuita num evento ou, para o foco principal deste artigo, uma amostra de uma música que é usada para fazer manipulações criativas noutra música. O primeiro uso de samples data dos anos 60, mas foi no final dos anos 70 que as raízes do sampling começaram a surgir. Artistas como Pierre Schaeffer e Pierre Henry, James Tenney e até mesmo os Beatles começaram a dar os primeiros toques no mundo dos samples através da captação e manipulação de sons. O verdadeiro boom do sampling surgiu no género rap/hip-hop, quando DJ’s começaram a usar e manipular os vinis que tocavam em festas. A ideia de tocar e repetir as melodias em música funk era algo que agradava ao público e rapidamente se tornou popular, não só dentro do hip-hop (que é ainda hoje o género que mais “depende” de samples) mas também dentro de outros géneros. Mas com a sua normalização surgiu também o debate acerca da sua legalidade.

Problemas de plágio e de direitos autorais surgiam com maior facilidade porque envolviam, e ainda hoje envolvem, gravações reais de artistas que servem de alinhamento e adição aos compositores. Este tipo de casos é recorrente porque os bocados usados são de mais alguns segundos, ou seja, são mais fáceis de reconhecer, porque no sampling vale tudo, desde extrair uns acordes, a um conjunto de drums ou 2 segundos de voz, até ao uso de mais de 10 ou 20 segundos de uma música que depois é repetida ao longo de outra criada de raiz. No entanto, nos anos 80 e com a popularidade do sampling e dos samplers digitais, tornou-se comum entre os produtores de discos de música popular, onde era considerado justo “roubar” até mesmo um único som de outro disco (reza a lenda que um produtor fez sample da bass drum de outra pessoa e acabou por descobrir que, por sua vez, essa linha já havia sido extraída de uma gravação anterior). O sampling, em geral e no caso particular do rap, obriga-nos a repensar as bases da doutrina de direitos autorais por razões tecnológicas e culturais — tecnológicas, porque a reprodução digital acentua os entendimentos existentes sobre “copiar” e apresenta o próprio desafio na maneira pela qual temos que pensar no processo de produção; culturais, porque o rap nasce de diferentes formas e tradições culturais que são fundadas em diferentes entendimentos de criatividade e originalidade.

Tanto antigamente como em pleno século 21, os artistas não pedem, na maioria dos casos, a permissão dos donos de copyright e também não a recebem. A ideia está implícita na citação usada no início deste artigo, de José Mário Branco, um dos maiores nomes da música portuguesa que nos deixou no ano passado e que foi a influência de muitos artistas do nosso país. A ideia é que são as editoras quem muitas vezes tenta impedir esta circulação de samples; da parte dos artistas existe geralmente um maior à vontade com o facto de verem a sua música usada e remisturada passados vários anos — até porque muitas dessas manipulações acabam por se tornar icónicas.

Dentro do mundo do hip-hop, a influência por funks clássicos começou com os breakbeats de James Brown em “Funky Drummer” nos anos 80, que forneceu ritmos aos B-Boys e que, 20 anos depois, emprestou a espinha dorsal ao incendiário “Fight The Power” dos Public Enemy.

Avançamos à década de 90 para destacar dois singles que ainda hoje permanecem bem actuais no nosso ouvido, falo de MC Hammer e Vanilla Ice. O primeiro, com o seu single “Can’t Touch This”, que recebeu inúmeros prémios na altura e chegou a Nº1 dos tops da Billboard, com um sample de Rick James, famoso cantor de soul e funk norte-americano que escreveu “Super Freak”. De Vanilla Ice, falamos obviamente do também clássico “Ice Ice Baby” que, curiosamente, não foi registada com os créditos de “Under Pressure”, a música dos Queen e David Bowie que o rapper americano decidiu samplar. Após o seu sucesso, Vanilla Ice acabou por dar o devido crédito.

Moby, músico e produtor norte-americano, também se “apropriou” de alguns clássicos do passado, um deles que merece destaque pelo facto de ter sido inesperado e ao mesmo tempo genial. Em 1960, um compositor que dá pelo nome de Ernest Gold compôs a soundtrack de Exodus, um filme americano baseado na fundação do moderno estado de Israel. Uma das músicas, “Fight For Survival” foi revertida por Moby e assim nasceu o seu hit mais conhecido “Porcelain”. De “Porcelain” nasceu no ano passado a parte 3 desta apropriação de samples, vinda de A$AP Rocky com o seu single “A$AP Forever”.

Sampling na primeira pessoa com Madkutz

Hoje em dia, a tecnologia da amostragem digital está presente no trabalho por detrás dos hits de muitos dos nossos artistas favoritos e embora seja relativamente nova, noções artísticas de apropriação como criatividade certamente não são. De referências musicais a alusões literárias, passando por trocadilhos visuais, a humanidade traz inúmeros exemplos de autores baseados nos fundamentos dos seus antecessores. A utilização de uma sample popular de riddim ou “em loop” significa reconhecer o trabalho e legado do músico que é “samplado”. A verdade é que o sample vai do artista mais conhecido ao menos conhecido, e tanto pode ser feito com poucos ou vários recursos. Por cá, o uso de samples tem o mesmo impacto que no estrangeiro, com vários produtores a escavar pelas profundezas dos vários géneros musicais, sejam uns drums, uns acordes de guitarras ou uns loops que nos façam abanar a cabeça. Um deles é Madkutz, produtor português que já trabalhou com grandes nomes do hip-hop tuga como NGA, Dengaz, Mundo Segundo, Valete ou Carlão. Em conversa com o Shifter, falou um pouco sobre o processo de sampling na sua música e de que forma vê o trabalho desta arte de “roubar” melodias.

Como sabes, o hip-hop é dos géneros que mais utiliza samples, sendo que hoje em dia é quase raro o produtor que cria um instrumental de raiz. Achas que o uso de samples é por necessidade ou por gosto?

Eu uso samples por gosto e por necessidade, porque sem samples teria de tocar tudo de raiz. Nada contra tocar de raiz, mas não sei tocar nenhum instrumento bem, ia faltar muita alma no beat. Os que toquei de raiz são coisas muito à base de sintetizadores, coisas que vês bem que são virtuais. Há uma grande cultura anexada ao Sampling, sabes? Para muitos é simplesmente levado como “roubar outro artista”. Eu acho que é das maiores homenagens que se pode fazer, manter a música desse artista viva e é uma arte que é bastante complexa e criativa. Se seguires o Sam The Kid no Instagram, ele por vezes mostra como fez um beat específico na parte do Sample, aí tu vês, que certas músicas, com o Pitch completamente alterado (subindo ou descendo a tonalidade do mesmo), podem levar-te a um mood completamente diferente, mas como é que irias pensar nisso? Como é que sabias que aquela parte ali, aos 3 minutos e qualquer coisa, com mais 10 semitons fica uma malha do caraças? Como é que sabias que ao juntar uma nota com bastante dinâmica que só aparece no início do tema e juntar 3 notas que estão no final desse mesmo tema criam um Loop maravilhoso? Como é que sabias que se meteres o sample a tocar ao contrário e juntares notas soltas que estão no meio da música fazes alto instrumental dali? Isso é genial. ‘Tás a ver? Ao ver esses videos do Samuel, eu fico picado (no bom sentido) a evoluir a minha maneira de ouvir a música, maneira de cortar o sample, procurar fontes que não sejam tão batidas/procuradas. Não é fácil, mas lá está, é uma cultura e já que estou numa de romantismo – é uma forma de vida.

Sentes que o trabalho dos produtores em Portugal e o uso que fazem dos samples devia ser mais valorizado ou achas que já existe um certo reconhecimento?

É uma guerra, é um assunto bastante desconhecido para muita gente. Tens músicos que não deixam que uses a música deles, tens outros que não querem saber, tens uns que é na boa e até participam no tema se for preciso! Mas os que eu gosto mais são os que tu samplas algo deles, mostras e eles não sabem que foi samplado da discografia deles. (risos) Quer dizer que fizeste um bom trabalho a nível de Sampling. Acho que há uma boa percentagem que nos leva como ladrões da música dos outros e outra boa percentagem livre de preconceitos e que nos leva como músicos. Sinceramente? Não quero saber. Quando me dizem que faço beats através da arte de outras pessoas eu mando-os ver a série Everything Is A Remix.

E como “Everything is a remix”, a música portuguesa também já teve os seus momentos de reconhecimento em terras vizinhas, sendo o caso mais notório em 2017 por parte de Jay-Z. O rapper norte-americano lançou o álbum 4:44 e curiosamente a música “Marcy Me” teve um toque português. No I.D, um dos produtores do álbum, samplou “Todo o Mundo e Ninguém”, canção de 1970 do Quarteto 1111, uma banda portuguesa formada por José Cid e Tozé Brito. Um momento verdadeiramente inesperado e aplaudido pelo grande trabalho desenvolvido pela banda formada no Estoril. Mas recuemos no tempo até 2009 e encontramos outro momento lusitano. J.Cole também se aventurou pela música portuguesa, ainda que num som praticamente desconhecido dos fãs do criador da Dreamville Records. Em 2009, lançou a música “Losing My Balance”, uma música bónus da segunda mixtape lançada pelo rapper, “The Warm Up”. Cole samplou um loop de guitarra acústica mellow que pertence a Sara Tavares e ao seu single de 2005 “Balancê”.

No entanto, e apesar de não haver quaisquer intenções de ser uma competição, a música portuguesa não foi “samplada” tantas vezes por produtores americanos como, por exemplo, a brasileira e o último exemplo também merece destaque. Foi no ano passado que Bas lançou o seu álbum Milky Way. “Tribe”, uma faixa que conta curiosamente com o já mencionado J.Cole, inclui os relaxantes acordes de guitarra tirados de “Zum-Zum”, música do cantor e compositor de bossa nova Edu Lobo (1970) e que foi “transformada” pelo produtor Childish Major.

A verdade é que o sampling veio para ficar e não tem necessariamente de ser visto como uma oportunidade de “roubar” a ideia inicial ou recriá-la de outra forma, mas sim como um momento de diggin’ a clássicos que marcaram uma geração e que tiveram o seu momento artístico, seja através da melodia, das vocals, das letras utilizadas ou até dos drums. Hoje em dia é cada vez mais notório que a maior parte dos artistas que sampla clássicos enaltece a obra e contributo do artista samplado. Afinal quantos de vocês é que não ficaram com curiosidade de saber quais os samples originais das vossas músicas preferidas?

Existem, como é óbvio, mais músicas icónicas com samples ainda mais memoráveis e para vos dar a oportunidade de descobrir os que não foram aqui mencionados, criámos uma playlist que está disponível no Spotify, com uma espécie de Top 20 de mais momentos notórios de sampling luso e internacional. A playlist chama-se “Escolhas Shifter (samples icónicos)” e está disponível no Spotify. Podem seguir através do link ou do nosso QR code.

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