Srećko Horvat: “Os desastres da história também tiveram consequências positivas”

Falámos com o filósofo croata Srećko Horvat sobre o que poderá trazer o futuro depois do vírus e a reacção que agora toma conta dos estados.

Fotografia de Oliver Abraham / Adaptada por Shifter

Vivemos tempos como nunca antes a maior parte das gerações vivas tinha vivido. O surto pandémico de Covid-19 apresenta-se como uma situação única e exige respostas desesperadas por parte dos estados, bem como uma resposta sólida das comunidades que por ele são fustigasdas. Com milhares de mortos espalhados por todo o mundo e o auto-isolamento recomendado por quase todas as entidades de saúde dos países onde o vírus chegou, o momento é histórico e as suas consequências são para já imprevisíveis. Nesse sentido, importa tanto pensar na resposta directa e objectiva ao surto pandémico, quanto imaginar e reflectir sobre o que pode ser ou será o mundo quando tudo passar. Historicamente, é nos momentos de crise que a essência dos sistemas vem ao de cima e este caso não deve ser excepção. Motivados por essa vontade de perceber o que poderá trazer o futuro depois do vírus e em questionar a própria reação que agora toma conta dos estados, falámos com o filósofo croata Srećko Horvat.

Srećko é um filósofo, activista e fundador do partido político pan-europeu DiEM 25. Entre a sua actividade destacam-se as publicações de livros traduzidos em diversas línguas como Poetry from the Future, The Radicality of Love, Subversion! e What Does Europe Want?, em colaboração com Slavoj Zizek, onde o filósofo se indaga sobre o potencial revolucionário das sociedades, bem como a sua presença e reflexão sobre momentos de activismo históricos como o protesto dos estudantes na Croácia em 2009, o movimento de ocupação de Wall Street, ou a constante reinvenção do que podem ser métodos de trazer o público para a reflexão. Estreou o Teatro Filosófico no Teatro Nacional de Zagreb, fundou o festival Subversão e até apresentou um programa de televisão, dando a cara por uma corrente de reflexão que pretende representar o futuro, com esperança mas sem optimismo.

Numa conversa por e-mail falámos sobre o potencial deste momento histórico e o que pode acontecer num futuro próximo, numa análise reflexiva que traz para cima da mesa uma série de considerações sobre fenómenos históricos que nos convidam a perspectivar e enquadrar o fenómeno pandémico de uma outra forma, menos reactiva.

No livro “The Radicality of Love” abordas o potencial revolucionário do amor num mundo em que a tecnologia domina as nossas relações e a cultura visual tende a pôr o sexo debaixo de foco. O surto de coronavírus, por sua vez, exige uma resposta comunitária em que diferentes formas de amor, tais como a empatia, são extremamente valiosas. Achas que este tipo de fenómenos pode revelar o potencial de que falavas no livro? 

Em tempos do coronavírus, o amor é essencial. E quando digo amor, não quero dizer apaixonarmos-nos por alguém ou fazer sexo, por muito belos que sejam estes eventos, especialmente em isolamento. Penso num compromisso a longo prazo de redefinição radical do mundo. Lembrem-se das lindas palavras de Rimbaud: “O amor tem que ser reinventado!”

O coronavírus, mesmo que mate milhões, mesmo que (especialmente se não quisermos milhões de mortos) implique um auto-isolamento sem precedentes e “distanciamento social”, oferece a possibilidade de redefinir o mundo, de construir um mundo melhor. Mas temo que o termo “distanciamento social” seja enganador – obviamente que precisamos de uma distância física para abrandar a pandemia global, mas precisamos de mais cooperação social do que nunca. E isto não é apenas cooperação global e solidariedade sem precedentes mas também cooperação micro-local e local.

Se o movimento climático dos jovens mostrou alguma coisa, é que os adultos têm de começar a pensar sobre o futuro das crianças. Se o coronavírus mostrou alguma coisa, é que os membros mais jovens das nossas sociedades têm de proteger os mais velhos, ao protegerem-se a si mesmos.

Espero que isto abra a primeira verdadeira possibilidade histórica de solidariedade inter-geracional – e solidariedade transnacional, uma possibilidade de “recomeçar” e construir um mundo pós-capitalismo justo, com seguro de saúde universal e gratuito, para que todos possam estar protegidos; automação, para que os nossos coletores de lixo, assistentes de loja e outros grupos vulneráveis não tenham que trabalhar; rendimento básico universal, para que todos possam ter uma vida decente; e, por último mas não menos importante, um Green New Deal que não só salvará o nosso planeta mas que também minimize chances de futuros vírus mortais, mortes derivadas de poluição do ar, perda de habitats, migração. Mas isto parece algo demasiado otimista, desculpa. Odeio otimismo, a minha filosofia é mais “esperança sem otimismo”.

Slavoj Žižek escreveu recentemente um artigo em que descreve o surto como uma oportunidade crucial para repensar o capitalismo como ele é. Partilhas desta ideia ou, em sentido contrário, achas que o fenómeno pode ser usado pelos estados para jogar de novo a carta da austeridade, como vimos anteriormente?

Falei com ele ainda no outro dia. Está em auto-isolamento há alguns dias, tal como eu. E eu acho que ele tem razão. Mas acho que acontecerão as duas coisas ao mesmo tempo, o momento que vivemos é provavelmente o primeiro momento global em que o momento histórico está completamente em aberto. Pode ir em qualquer direção. Pode ir para além daquilo que podemos imaginar que pode acontecer. Pode acabar numa ditadura completa, como a Hungria que já está a usar a crise coronavírus para alimentar os sonhos molhados de Viktor Orban. E o mesmo pode acontecer noutros países, onde há líderes como Trump ou Bolsonaro no poder. Mas mesmo países como Alemanha ou França estão agora sob “Estado de Excepção” com recolher obrigatório e o exército nas ruas. Será que este momento nos vai conduzir para uma espécie de ditadura ou uma versão pós-moderna do “eco-fascismo” social democrata? Isso ainda está por ver. Ao mesmo tem, o que era inimaginável há algumas semanas, agora parece possível. De repente os estados conseguem investir milhões em infraestruturas públicas, suspender o pagamento de empréstimos ou das contas de serviços públicos, providenciar uma espécie de ‘rendimento básico universal’, nacionalizar hospitais, oferecer educação grátis, e por aí. Já para não falar na mudança climática – nunca nas últimas décadas tivemos um decréscimo tão grande na poluição atmosférica. De acordo com um estudo recente, desde o surto de coronavírus na China, cerca de 77 mil pessoas não morreram por problemas relacionados com a poluição atmosférica – porque as fábricas pararam de funcionar e os aviões de operar. Isto mostra que por muito assustador que seja o vírus, ele não é necessariamente um inimigo. Às vezes é, como disse o filósofo francês Maurice Blanchot, o desastre mais negro que traz a luz.

Mencionaste que é importante falar de isolamento físico e não social – e esse não é o único mau uso de palavras para interpretar esta crise, como aqueles que falam dele como o “vírus da china”. O nosso ecossistema mediático está preparado para nos ajudar a ultrapassar esta crise de uma forma progressiva ou, pelo contrário, está enviesado pelas estruturas de poder pré-existentes, agravante os efeitos da crise ao usar expressões irreflectidas e ao disseminar o pânico?

O Coronavírus é um fenómeno extremamente interessante. Sabes, nos bons velhos tempos antes do vírus, para além da filosofia eu estudei linguistica. E recentemente voltei à linguistica, abordando este vírus também de uma perspectiva semiótica, não só como uma entidade biológica, mas como uma entidade que está directamente conectada ao que na teoria dos sinais se chama “semiose”, nomeadamente o processo pelo qual se constrói o significado. Eu lembro-me que assim que o vírus chegou a Itália foi imediatamente apelidado de “Vírus da China”, depois quando os italianos o apanharam, os alemães chamaram-lhe “Vírus Italiano”, houve ódio e racismo em relação a todos os que já eram vítimas da epidemia. E podes ver que o Donald Trump continua a falar do “Vírus da China”. O que é interessante agora é como os líderes mundiais começaram a falar de “guerra” e de “inimigo invisível”. Eu não aceito que um vírus seja um inimigo. Chamar ao vírus “inimigo” é em si uma ideologia. O vírus simplesmente não quer saber do que lhe chamamos. E não está em guerra connosco, ficaria muito feliz se nós ganhássemos imunidade de grupo e pudesse viver connosco até ao próximo apocalipse.

No artigo publicado na Versopolis, escreveste que tossir é hoje em dia visto quase como um acto terrorista. Achas que esta suspeição permanente imposta pelo surto pode ser uma espécie de nova realidade? O que achas que vai prevalecer: a unidade das comunidades ou a desconfiança no contacto físico? Isto pode tornar-nos mais próximos ou afastar-nos ainda mais?

Ao dizer que “tossir se tornou quase num acto terrorista” eu queria alertar para o facto de a “guerra ao vírus” se poder tornar numa “guerra ao terror”. Temos testemunhado que algumas das liberdades civis que tomámos por garantidas estão a desaparecer uma por uma. Temos testemunhado vigilância mais apertada, restrições ao movimento, monitorização de geolocalização, reconhecimento facial e até recolher obrigatório em vários países. Mas nada disso tem de necessariamente separar indivíduos ou comunidades. Todos os desastres da história também tiveram consequências positivas, desde a Peste Negra que destruiu o feudalismo, até à Erupção do vulcão Laki que, provavelmente, levou à Revolução Francesa. Mesmo que os vulcanologistas geralmente evitem fazer esta espécie de vulcanologia política, podemos inferir que a erupção do supervulcão Laki, na Islândia em 1784 foi, de facto, um exemplo de Apocalipse enquanto evento político, não enquanto o fim do mundo, mas como uma “revelação” que conduziu a uma revolução. Não só os seus efeitos contribuíram para aumentar a pobreza e a miséria por toda a Europa – no final das contas a super-erupção pode ter contribuído para os eventos que levaram à revolução francesa em 1789. E há outros exemplos na história. O vírus não é o inimigo, o neoliberalismo e o capitalismo global que impuseram décadas de austeridade e arruinaram sistemas de saúde, habitação, segurança social e, por último mas não menos importante, destruíram o clima porque o lucro privado era mais importante do que o bem estar das comunidades e das outras espécies – esse é o verdadeiro inimigo.

Alguns estados estão a responder ao surto declarando estado de emergência – hoje, mais do que nunca, falamos de vigilância e inteligência artificial como formas de lidar com o problema. No passado, algumas crises foram o combustível para algum progresso ‘diabólico’; pode ser esse o caso novamente? Ou não devíamos pensar nisso agora? 

Se já estás em auto-isolamento, isso é a principal coisa em que deves pensar. Se ainda não estás, devias pensar em como proteger os outros e também em como te proteger. Obviamente, nem toda a gente tem uma casa. Ou meios de se proteger a si próprio, quanto mais aos outros. O que a ‘crise-corona’ mostra é precisamente o problema com o conceito capitalista de “progresso”. Sabes, a ideia de que se construirmos mais, produzimos mais coisas, tivermos mais voos e mais turismo global, isto significa que a humanidade está a “avançar”. Às vezes avançar é andar para trás. E o mesmo é válido para a questão da vigilância, agora em crescendo, que pode continuar connosco mesmo depois de a pandemia passar. E vai passar, quer seja dentro de alguns meses, ou alguns anos, isto vai desacelerar e os homens vão arranjar de novo uma forma de viver com isto. Tal como o capitalismo. É por isso que é crucial que neste momento aberto da história percebamos o que está acontecer e não reagirmos apenas, mas antes agir de uma forma, enquanto humanidade, como nunca fizemos antes. Enquanto a Internet estiver funcional, devemos usá-la como nunca antes. Para educação gratuita, para nos conectarmos, para nos organizarmos, para imaginarmos e construirmos um Mundo Melhor Depois do Coronavírus.


A entrevista com o filósofo levanta mais perguntas que respostas e revela-nos a abertura histórica deste momento. Perante uma crise global como os sistemas vigentes nunca antes viveram, as reações e reflexões sobre o vírus poderão ser determinantes na definição de uma sociedade depois de tudo passar. Organizações comunitárias como temos visto em Portugal, como a tech4Covid, a disponibilidade de hackers e investigadores para produzir materiais de forma não convencional oferecendo uma resposta rápida para situações de escassez, ou o simples acto solidário dos mais novos que se disponibilizam para ajudar os mais velhos indo às compras são pequenas pistas para o que de bom podemos tirar desta crise. Como diz Srećko, se estamos em auto-isolamento, protegidos e protegendo os outros, este é o momento ideal para escrutinarmos e questionarmos o progresso tecnocrático, reflectindo sobre o que essencial e supérfluo na nossa sociedade, não olhando para o vírus como um inimigo mas antes como um catalisador da história. Afinal de contas, o vírus é um resultado do progresso da história natural, tão orgânico quanto a morte, uma entidade ubíqua e inalienável da nossa vida na terra.

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