Documentos revelam que TikTok censurou utilizadores “feios e pobres” para atrair mais público

Uma investigação do The Intercept revelou que os criadores da famosa app deram instruções aos seus moderadores de conteúdo para censurarem determinados utilizadores e discursos políticos.

Foto de Kon Karampelas/via Unsplash
 
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Não é a primeira vez que lemos TikTok e censura na mesma frase. Em Outubro do ano passado, o britânico The Guardian foi o primeiro a avançar com a denúncia de que as políticas da aplicação estariam a mudar para termos e condições mais agradáveis aos olhos do regime chinês. Em causa, estariam instruções explícitas dadas aos moderadores da plataforma para que assimilassem, nos seus critérios de moderação, a política externa chinesa, censurando, por exemplo, conteúdo relacionado com o Tiananmen Square e a independência do Tibete. Antes disso, já o Washington Post tinha chamado a atenção para a falta de resultados ao pesquisar “Hong Kong” na aplicação — na peça, o jornal norte-americano mostrava como a app estava em crescimento nos EUA, mesmo mantendo estas guidelines altamente políticas de um modo discreto (ou secreto).

Por esta altura, e passados quase cinco meses, o TikTok cresceu mais ainda, nos Estados Unidos e no mundo. Criado na China em 2016 e conhecido como Douyin (抖音, em chinês), o TikTok nasceu como Musical.ly e foi com esse nome que se tornou num enorme sucesso entre os mais jovens. Apenas um ano depois, o Musical.ly foi comprado pela chinesa ByteDance por cerca de 800 milhões de dólares e, outro ano depois, a nova dona mudou-lhe o nome para TikTok. A plataforma de partilha de vídeo tem hoje centenas de milhões de utilizadores, números que não parecem sofrer com as notícias constantes que associam a app a histórias de censura e repressão.

Desta vez, foi o The Intercept a denunciar as políticas desproporcionais do TikTok. A publicação teve acesso a documentos que revelam que os donos da app instruíram os moderadores da plataforma a suprimir publicações de utilizadores considerados “muito feios, pobres ou com deficiências”. Os mesmos documentos mostram ainda que os moderadores também receberam a instrução de censurar discursos políticos nas transmissões ao vivo feitas na app, e punir aqueles que prejudiquem “a honra nacional” ou transmitam conteúdo sobre “órgãos estatais como a polícia”.

Estes documentos da política chinesa, juntamente com conversas com várias fontes directamente familiarizadas com as actividades de censura do TikTok, fornecem novos detalhes sobre os esforços da empresa para impor restrições rígidas aos cerca de 800 milhões de utilizadores mensais relatados, enquanto tenta simultaneamente reforçar a sua imagem como um modelo global de auto-expressão e criatividade vale-tudo. A descoberta do The Intercept espelha como o TikTok tenta controlar o conteúdo da sua plataforma para alcançar um crescimento rápido no molde de uma startup de Sillicon Valley, enquanto reprova a dissidência política com o tipo de mão pesada vista regularmente no seu país natal, a China.

No TikTok, movimentos militares e desastres naturais transmitidos ao vivo, vídeos que “difamavam funcionários públicos” e outros conteúdos que poderiam ser uma ameaça à “segurança nacional” foram censurados, tanto quanto vídeos que mostravam pobreza rural, favelas, “dentes tortos, barrigas de cerveja” e quilos ou pelos a mais. Um dos documentos agora denunciados revela que a empresa chegou ao ponto de pedir aos moderadores que passassem os conteúdos a pente fino em busca de paredes rachadas ou “decorações de velhas e mau gosto” nas casas dos utilizadores — para depois punirem efectivamente esses usuários, numa tentativa de afunilar artificialmente o seu público.

A investigação do The Intercept chegou mesmo a publicar os dois referidos documentos, enviados para os moderadores de conteúdo — podes consultar aqui o que proíbe conteúdo ideologicamente indesejável nas transmissões ao vivo, e aqui o que descreve punições algorítmicas para utilizadores pouco atraentes e “empobrecidos”. Os documentos parecem ter sido originalmente escritos em chinês depois, às vezes com pouco rigor, traduzidos para o inglês para uso nos escritórios globais do TikTok — a dona da aplicação, a empresa sediada em Pequim, ByteDance, tem estado sob escrutínio atento do governo dos EUA por causa dos seus vínculos ao Partido Comunista Chinês e pelos inúmeros relatos que mostram que as táticas de censura da plataforma reflectem as de Pequim. Vários Senadores norte-americanos, como Chuck Schumer ou Josh Hawley, têm trabalhado, aliás, para limitar o uso do TikTok por funcionários do governo, argumentando que tal pode representar um risco para a segurança nacional.

O porta-voz do TikTok, Josh Gartner, disse ao The Intercept que “a maioria das” directrizes de transmissão ao vivo mencionadas na denúncia “já não estão em uso ou, em alguns casos, parecem nunca ter sido implementadas”, mas não forneceu mais detalhes. Em relação à política de censurar vídeos cujo conteúdo mostre utilizadores pouco atraentes, com deficiências, ou pobreza, Gartner afirmou que as regras “representavam uma tentativa abrupta de impedir o assédio moral, mas já não estão em vigor e já estavam fora de uso quando o The Intercept obteve os documentos”. 

As fontes da publicação norte-americana indicaram, no entanto, que ambas as políticas estavam em uso até o final de 2019 e que o documento sobre a política de transmissão ao vivo foi criado no mesmo ano. Josh Gartner não explicou porque é que um documento supostamente destinado a “impedir o assédio moral” não fazia nenhuma menção a isso mesmo, nem porque é que, ao invés disso, mencionava a justificação explícita de atrair utilizadores, e não de os proteger.

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