Coronavírus incendeia teorias da conspiração sobre 5G, um fenómeno com explicação

Curioso por perceber os seus contornos, e com uma certa curiosidade fetichista sobre teorias da conspiração, fui acompanhando aquilo que se ia dizendo. O que não esperava era que a teoria ganhasse tração e levasse realmente pessoas à acção como aconteceu no Reino Unido. Em menos de 24h, houve relatos de 4 torres de transmissão de sinal 5G terem sido incendiadas.

CC BY-SA 4.0 Fabian Horst
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Desde que o surto de coronavírus começou na cidade chinesa de Wuhan, que começaram pelos confins da internet as teorias potencialmente explicativas do que o havia causado. Desde cedo, o 5G foi apontado por perfis marginais, sobretudo no Twitter, como uma das causas da epidemia. Na base desta lógica estava o facto de esta cidade ter sido uma das primeiras a ter acesso a esta tecnologia e, como premissa central, a ideia de que a radiação emitida pela rede pode, hipoteticamente, enfraquecer o sistema imunitário das populações expostas.

Confesso, numa nota pessoal, que me cruzei com estas teorias desde o princípio mas sem lhes dar grande importância ou perceber o seu potencial de desinformação. Curioso por perceber os seus contornos, e com uma certa curiosidade fetichista sobre teorias da conspiração, fui acompanhando aquilo que se ia dizendo relacionando o Covid-19 ao 5G. Volta e meia pesquisava no Twitter para me confrontar com memes inacreditáveis ou explicações que se arrogam de credíveis vindas de indivíduos que se queixam de serem marginalizados pela sociedade pelas ideias que defendem. Uma dessas personagens é David Icke, conhecido criador de teorias da conspiração britânico, com um passado rico com livros sobre reptilianos e outras coisas que tais.

O que não esperava entre tantas pesquisas e tweets sobre o assunto era que a teoria ganhasse tração e levasse realmente pessoas à acção como aconteceu no Reino Unido. Em menos de 24h, houve relatos de 4 torres de transmissão de sinal 5G terem sido incendiadas pela convicção de que seriam responsáveis pela disseminação do coronavírus. Este caso concreto volta a trazer à tona a desconfiança de franjas da população sobre esta nova tecnologia que se vai preparando um pouco por todo o mundo, de tal modo que o Youtube foi obrigado a reagir anunciando que suspenderia os comentários que mencionassem uma hipotética relação entre os dois fenómenos.

A teoria em si não tem qualquer tipo de evidência científica como suporte e não existe qualquer estudo, por mais breve ou sucinto que seja, de fontes credíveis, a apontar para uma correlação entre o 5G e o surto pandémico. A verdade é que este caso, como o de outras teorias explicativas em que uma parte dos indivíduos se dedicam cegamente a acreditar, revela tacitamente o problema da desigualdade informativa que durante anos acreditámos que seria a internet a colmatar. Como se a internet permitisse não só debelar mitos com o acesso à informação, mas torná-los mais credíveis para certas pessoas por força da repetição e da construção de dicotomias contra-poder. Como resume James Bridle, escritor de Dark New Age, as teorias da conspiração tornaram-se as narrativas mais poderosas do mundo online. 

Bridle suporta esta ideia com a premissa central do seu livro, a de que o mundo se tornou extraordinariamente complexo à compreensão humana, traçando uma analogia entre este tipo de narrativa e o populismo político. O autor inglês sugere que as teorias da conspiração vêm responder a uma necessidade de compreensão do mundo e dos seus fenómenos num quadro onde tudo é demasiado complexo para ser entendido de forma simples. Assim, as teorias da conspiração servem para colmatar esse desejo perverso de percebermos o mundo para que nos sintamos minimamente em controlo sobre os fenómenos que o assolam. 

O raciocínio surge articulado no seu livro que explora de uma forma intensiva a Nova Era Negra (Dark New Age) em que vivemos, numa referência ao facto de pouco sabermos sobre a complexidade da humanidade. Bridle também identifica outra tendência, a de querermos respostas simples mesmo para os problemas mais complexos, e explica-nos que é nesta relação entre os dois fenómenos – comum à nossa vida em que nos habituamos a, por exemplo, sacar uma app para trabalhar as nossas relações pessoais – que surgem as teorias da conspiração e as narrativas poderosas, sedutoras mas infundadas.

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