‘Man Alive!’: a maravilhosa confusão de Psychadelic Post Punk de King Krule

Man Alive! é um álbum que não é para ser ouvido em todos os momentos, visto que a sua atmosfera pesada nem sempre será adequada ao nosso estado de espírito, mas sinceramente, isto não é necessariamente uma coisa má: álbuns que conseguem captar uma emoção muito forte com a qualidade com que Man Alive! o faz são de louvar.

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Archy Marshall, ou King Krule, é um artista britânico que tem vindo a ganhar bastante popularidade ao longo da última década. Sob este nome, o artista já conta com dois álbuns (6 Feet Beneath the Moon e The OOZ) que foram muito bem recebidos tanto pela crítica como pela legião de fãs que foi angariando ao longo do tempo. Apesar disto, pessoalmente, nunca tinha explorado a discografia de Krule. É daquelas coisas: como nenhuma pessoa próxima de mim me falou do artista, também nunca considerei que pudesse gostar dele, apesar de já ter ouvido falar do seu nome, seja através das redes sociais ou através de amigos menos próximos. No entanto, resolvi dar uma tentativa a este disco pelo simples facto de me apetecer ouvir algo novo e a verdade é que estou muito feliz com a minha decisão: Man Alive!, de uma maneira muito simples, é um álbum coeso, pesado (não que isso seja algo mau) e, acima de tudo, dotado de conteúdo lírico e instrumental bastante variado. Em termos sónicos, este projeto soa muito semelhantemente aos trabalhos da banda impulsionadora do Post Punk, Joy Division: os snares estão carregados de reverb, o minimalismo instrumental é rei e o tom, ao longo de cada faixa é progressivamente mais pesado e triste do que a anterior.

A primeira faixa do álbum, “Cellullar”, serve como introdução ao projeto e apesar de ser uma boa música, engana o ouvinte por ser demasiado animada em comparação com a restante tracklist: logo de seguida, em “Supermarché”, o ouvinte é largado num poço infinito e, como é teoricamente possível, Krule larga-nos num poço ainda mais infinito em “Stoned Again”, onde nos fala sobre problemas derivados do consumo de drogas. É, portanto, com estas duas faixas que somos verdadeiramente introduzidos ao álbum e à melancolia inquietante que o caracteriza.

“Comet Face” mantém-se na mesma onda das duas faixas anteriores e é uma sinergia incrível entre Psychadelic Post Punk e Jazz que, em conjunto com a voz de Krule, criam um ambiente de urgência inigualável. Ao longo da música somos surpreendidos por vários sons repentinos que fazem, de novo, um leve aceno aos Joy Division.

“The Dream” é um curto interlude que introduz “Perfecto Miserable”, uma faixa dedicada à parceira de Krule que apesar de ser um momento bonito, faz com que a energia do álbum se perca momentaneamente até ouvirmos “Alone, Omen 3” que funciona em perfeita sinergia com “Slinky”: ambas as faixas começam por transparecer uma sensação de calma, com um instrumental espaçoso e vivo, e terminam numa explosão sónica e numa confusão organizada. Esta ligação é ainda mais realçada pelo facto de ambas as músicas terem uma transição muito smooth entre si.

Chegamos então à faixa que para mim é o maior ponto alto do projeto. “Airport Antenatal Airplane” é uma faixa espaçosa e bastante dreamy. Pessoalmente imagino-me a voar por entre nuvens carregadas de chuva, com o sol a brilhar por cima de mim. Infelizmente, a partir desta faixa as músicas seguintes deixam de ter o impacto das anteriores. São boas e acrescentam mais valor ao álbum, no entanto, não são o tipo de faixas que vá ouvir muitas vezes num futuro próximo. Quero, no entanto, salientar o saxofone incrível em “Underclass” que, em conjunto com os sintetizadores que se fazem ouvir no fundo, formam uma barreira de som incrivelmente doce.

Man Alive! é um álbum que não é para ser ouvido em todos os momentos, visto que a sua atmosfera pesada nem sempre será adequada ao nosso estado de espírito, mas sinceramente, isto não é necessariamente uma coisa má: álbuns que conseguem captar uma emoção muito forte com a qualidade com que Man Alive! o faz são de louvar, visto que não é tarefa fácil.

No geral, é um excelente projecto, que puxou o meu interesse pelo artista e pela personagem envolta de mistério que Archy criou com King Krule. Com esta excelente surpresa, agora resta-me aventurar-me pela restante discografia do artista e, possivelmente, tornar-me fã.

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