O essencial sobre as máscaras faciais (profissionais e caseiras) no travão ao Covid-19

Em Portugal foi, esta semana, aprovada a indicação da Direção Geral de Saúde para que qualquer pessoa use máscaras em espaços interiores fechados onde estejam outras pessoas e a recomendação para que o uso em comunidade seja entendido como uma medida adicional de proteção.

Anshu A. via Unsplash
 
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Utilização de máscaras generalizada: Sim ou Não? Qual a melhor? As alternativas funcionam? Tem sido um assunto bastante debatido nos últimos dias na política do mundo, na procura da melhor forma de travar a propagação da doença Covid-19 causada pelo vírus SARS-CoV-2. A pergunta voltou no surgimento de novas informações acerca da forma de transmissão do vírus e, à medida que se vai conhecendo mais, vão sendo actualizadas as recomendações mundialmente.

Nos EUA, o CDC (Center for Disease Control and Prevention), que há alguns dias afirmava que pessoas saudáveis não precisavam de utilizar máscaras, hoje recomenda a sua utilização generalizada disponibilizando guias para que cada pessoa possa fazer a sua, uma vez que, pessoas com poucos ou nenhuns sintomas da Covid-19 podem, ainda assim, transmitir o vírus. E se nos países orientais as máscaras não são novidade e são utilizadas com alguma naturalidade mesmo fora de situações pandémicas, no ocidente a história muda e as políticas dividem-se: nos EUA, Trump reforça que é uma decisão individual e voluntária, mas em alguns países como a Áustria, Chéquia e Eslováquia, a sua utilização generalizada é obrigatória. Em Itália, por exemplo, há zonas, como a Lombardia, onde esta protecção no rosto em espaços públicos também se tornou obrigatória. E em Portugal foi ontem aprovada a indicação da Direção Geral de Saúde para que qualquer pessoa use máscaras em espaços interiores fechados onde estejam outras pessoas e a recomendação para que o uso em comunidade seja entendido como uma medida adicional de proteção.

O problema é que não há máscaras para todos, e, sendo indiscutivelmente os profissionais de saúde os destinatários prioritários das máscaras médicas, a solução apresentada por várias entidades passa por recomendações de máscaras DIY, incluindo por parte da DGS ou da CDC. Assim reacende-se o debate sobre as “máscaras para todos”. É mesmo preciso? Temos todos de usar? Funcionam? Como ? Quando? Porquê? Vamos por partes.

Como se transmite o vírus?

Para perceber a eficiência de uma máscara é necessário conhecer como se transmite este vírus e até agora o que se sabe é que o SARS-CoV-2 se propaga entre pessoas através do lançamento de gotículas de vários tamanhos, desencadeadas pela fala, respiração, tosse ou espirros. Essas gotículas podem depositar-se nos objetos ou superfícies que rodeiam a pessoa infectada e qualquer pessoa que toque nessas zonas e leve as mãos à face poderá ficar infectada. Não se sabe ao certo qual a duração do vírus sobre as superfícies mas este é o resumo básico do processo. Outro ponto que vale a pena verificar é que, segundo se sabe, a carga viral — isto é, a quantidade de vírus com que se entra em contacto — pode ser determinante no grau da infecção pelo que a proteção mesmo que não seja absoluta pode ser importante. 

Os prós e contras das máscaras

A escassez de material é um dos argumentos mais fortes na resistência ao uso generalizado de máscaras bem como a sua hipotética “má utilização” (colocação da máscara com as mãos sujas, o toque na parte frontal ou a reutilização de máscaras descartáveis) que é apontada como um factor agravante do risco de contágio. A alegada “falsa segurança”, ou seja, a ideia de que ao utilizar a máscara as pessoas tendem a descurar outros comportamentos tão ou mais importantes como a higiene das mãos, o distanciamento de segurança e o isolamento é outro ponto que sustenta a não recomendação das máscaras.

Por outro lado, há quem defenda que é precisamente a sua utilização que pode consciencializar as pessoas para a situação atípica em que estamos e dessa forma permitir que adaptem o seu comportamento, cumprindo mais rigorosamente todas as outras recomendações, e como lembrete para não tocar na cara. Fausto Pinto, presidente do CEMP e director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em declarações ao Público, recomenda a utilização generalizada de máscaras: “Se todos usarem máscara, estamos a proteger-nos uns aos outros. Eu protejo-a a si e protege-me a mim”. Diz ainda que há muitas pessoas infectadas “assintomáticas, que não sabem que estão a contaminar outras.”

No entanto, é importante referir que a disseminação da ideia de que é melhor usar máscara do que nada, só será verdade caso a máscara seja utilizada correctamente, caso contrário poderá ser mais prejudicial do que a não utilização. Lavar as mãos antes e depois da sua colocação, o seu correcto ajustamento à cara, evitar tocar na zona frontal da máscara e retirá-la sempre através dos elásticos das orelhas, são aspectos importantes a considerar.

Os diferentes tipos de máscaras

Das mais às menos disponíveis, há máscaras médicas e improvisadas e, naturalmente, não têm todas a mesma eficácia. As mais eficientes serão as máscaras do respirador N95. Ao contrário das cirúrgicas, estas máscaras têm uma vedação firme entre o respirador e o rosto, que ajuda a filtrar 95% das partículas transportadas pelo ar. 

Já as máscaras cirúrgicas são igualmente feitas de um material específico, contudo a vedação é inferior às N95. Estas funcionam na protecção do nariz e boca contra gotículas maiores de tosse ou espirros e impedem que pessoas infectadas as espalhem.

No caso das máscaras caseiras de tecido, conseguem impedir a passagem de algumas gotículas grandes, mas não das mais pequenas, também chamadas de aerossóis. Não fornecem uma vedação tão eficaz ao redor do nariz e da boca, no entanto, na indisponibilidade de máscaras cirúrgicas, estas máscaras utilizadas por pessoas infectadas podem reduzir a propagação de gotículas grandes.

Sobre as máscaras N95% e cirúrgicas, a CDC disponibiliza um documento sobre as diferenças entre elas.

O caso das máscaras de tecido

Aqui chegamos a um assunto que me é particular, uma vez que eu própria tenho confeccionado máscaras de tecido, sustentadas por muita pesquisa e informação recolhida que partilho contigo neste artigo, embora toda a informação esteja em constante actualização.

Ainda que as máscaras de tecido sejam a solução que mais dúvidas suscita, há aspectos consensuais: todos defendem que deve ser considerado como um último recurso, todos sublinham que a utilização de máscaras é complementar a outros comportamentos tão ou mais importantes e todos reconhecem as máscaras caseiras não são equipamento de proteção individual (EPI) e que a sua eficácia face às máscaras cirúrgicas ou as N95 é inferior.

Para compreender um pouco melhor a base científica que sustenta a  recomendação e até a controvérsia das máscaras caseiras, existe um estudo que merece atenção. Realizado em 2013 pela Universidade de Cambridge e publicado na revista Disaster Medical and Public Health Preparedness, o trabalho surgiu na sequência da pandemia pelo vírus Influenza A (H1N1). Na experiência foram testadas máscaras de diversos materiais (entre eles saco de aspirador, almofada antimicrobiana, linho e t-shirt 100% de algodão), e foi concluído que “uma máscara protectora pode reduzir a probabilidade de infecção, mas não elimina o risco, principalmente quando uma doença tem mais de uma via de transmissão. Assim, qualquer máscara, por mais eficiente que seja a filtração ou quão boa seja a vedação, terá um efeito relativo se não for usada em conjunto com outras medidas preventivas, como isolamento de casos infectados, imunização, boa etiqueta respiratória e higiene regular das mãos.” Na conclusão do estudo, pode ler-se: “não recomendamos o uso de máscaras faciais caseiras como método para reduzir a transmissão de infecções por aerossóis.” 

O Centro Europeu de Controlo de Doenças (CECD) considera haver algumas vantagens na sua utilização, no entanto aponta para a limitada protecção destas soluções, reiterando a importância da utilização de qualquer protecção facial correctamente.

Um documento recente de suporte científico endossado pela CEMP (Conselho de Escolas Médicas Portuguesas), realizado por Marisa Sousa e Sofia Gersão, contém muita informação importante e pertinente sobre este assunto . Sobre opções em tecido, revelam que “de acordo com o conhecimento atual, propomos a confecção de máscara caseira com duas camadas de tecido de algodão (exterior e interior), com a possibilidade de inserção de uma camada intermédia de tecido não tecido (TNT) de uso comum (por exemplo, utilizado em sacos e porta‐fatos) que funcionaria como filtro; ou então a utilização de apenas duas camadas de TNT de uso comum (ou mesmo três se o TNT for muito fino). Em alternativa, mas ainda com alguma eficácia de filtração (50‐60%), a utilização de apenas duas camadas de algodão. Ressalvamos a possibilidade de desinfeção/esterilização da máscara por forma apermitir a reutilização”. 

Considerações importantes

Como vimos, não há uma resposta certa para a pergunta inicial. No entanto, se optares pela utilização de uma máscara, seja qual for o material de que é feita, há recomendações determinantes na sua eficiência que deves reputar, tal como o seu correcto uso, mencionado acima neste texto. Quanto às máscaras de tecido, já sabes que também não há certezas na sua eficácia mas também não há certezas da sua ineficácia. Opta por elas em último recurso e, além dos cuidados de higiene, isolamento e distanciamento social já mencionados, há outros comportamentos que deves adoptar. É importante que a máscara seja respirável, o equilíbrio entre respirabilidade e filtragem é crucial. A lavagem deve ser feita sempre que possível, com detergente neutro ou água e lixívia (5%), mas é muito importante ter atenção a possíveis alergias. As máscaras estarão em contacto com a pele e nariz algum tempo e detergentes perfumados ou com muitos químicos poderão causar sintomas pouco agradáveis após longos períodos de exposição.

As máscaras são desaconselhadas a crianças com menos de 2 anos e, de acordo com a CDC, “qualquer pessoa que tenha problemas para respirar ou esteja inconsciente, incapacitado ou incapaz de remover a tampa sem assistência”. No caso de pessoas com asma, não há dados suficientes sobre o efeito da utilização de máscaras, contudo se tiveres asma, alergias ou ansiedade e sentires dificuldade de respiração aquando do seu uso, é importante removê-la e falar com um médico. Outro aspecto a considerar é a humidade facial criada pela utilização de máscaras por longos períodos de tempo que pode causar fugas na pele. 

A informação está diariamente em actualização, pelo que tudo o que se sabe hoje, amanhã pode ser diferente. Para já e com obrigatoriedade ou não, caso utilizes máscaras, tem em alta consideração a sua correcta utilização e há cada vez mais informação sobre isso. A Organização Mundial de Saúde tem alguns conselhos, a CDC também aqui e aqui.

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