Canal pirata mais profissional do mundo está no centro de uma disputa política

A Arábia Saudita quer deter 80% do clube inglês e a beIN Sports, canal desportivo sediado no Catar, está a opor-se à compra. A incomodar o Catar está a existência de uma cópia subversiva da beIN Sports na Arábia Saudita desde 2017.

 
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A compra de clubes de futebol por parte de conglomerados milionários provenientes do Médio Oriente já não é propriamente novidade; são exemplo disso os clubes do City Football Group, encabeçados pelo Manchester City e detidos pelo Sheikh Mansour dos Emirados Árabes Unidos; e o fenómeno está longe de se reduzir a esse caso, ou de estar parado no tempo. Pelo contrário, a entrada de empresas e fundos de investimento no mundo do futebol é algo cada vez mais comum, tanto em ligas como a portuguesa (já falámos, por exemplo, do caso do Famalicão), tanto nas principais ligas como na Premier League, de Inglaterra. Um dos casos mais recentes é o do Newcastle, que integra a Premier League, num processo que trouxe para dentro do campo uma verdadeira disputa política.

Em causa, está a intenção – prestes a ser consolidada – do consórcio liderado pela empresária britânica Amanda Staveley e financiado pelo fundo de investimento soberano da Arábia Saudita de comprar e assumir a liderança do histórico Newcastle. O negócio, que depende agora da aprovação dos gestores da liga quanto à idoneidade dos intervenientes, prevê que Mohammed Bin Salman, príncipe da Arábia Saudita, fique com 80% do clube e que os restantes 20% sejam divididos por um fundo de Amanda e dos irmãos Reuben. Mas é um interveniente no Catar que está a fazer dar que falar: a beIN Sports.

A rivalidade entre Arábia Saudita e Catar não é nova para quem acompanha a política no Médio Oriente, especialmente depois da famosa onda revolucionária que ficara conhecida como Primavera Árabe, apoiada pelos dois países, ter vincado nos dias que correm as diferenças entre os estados. Exemplo dessa rivalidade são os bloqueios ao canal do Catar, Al Jazeera, em solo saudita ou a operação em torno da beIN Sports, o canal igualmente criado no Catar e responsável por transmissão desportiva um pouco por todo o mundo. É, de resto, esse canal que assume parte do protagonismo nesta história, a par da Amnistia Internacional.

Se, por um lado, a Amnistia Internacional apelou a que o acordo fosse revogado em consequência do desrespeito pelos direitos humanos na Arábia Saudita; na pessoa de Kate Allen, directora no Reino Unido, veio alertar para o facto de a Premier League, competição prestigiada se estar a predispôr a ser utilizada por aqueles que apenas querem usar a marca para branquear as suas violações dos direitos humanos. Por outro, a beIN Sports enquanto detentora de parte dos direitos de transmissão televisiva da Premier League terá enviado uma carta a todos os clubes pedindo que também eles se opusessem ao acordo, alegando o envolvimento da Arábia Saudita num complexo esquema de pirataria. 

A beIN Sports acusa os sauditas de operarem um canal completamente pirata e que se limita a redirecionar os seus conteúdos para aqueles que estão proibidos de aceder – nomeadamente no país de MBS. O canal pirata em questão chama-se BeOutQ um nome que é frequente decomposto como uma mensagem dos sauditas como que apelando à expulsão dos cataris – “Be Out Q[atar]”. Segundo investigações feitas desde que o canal é emitido, o BeOutQ recorre ao Arabsat, um provedor satélite com centro em Riade, capital da Arábia Saudita, transmitindo a partir daí 10 canais tendo como base o conteúdo do canal BeIN – é esta proximidade ao regime saudita e a sua inoperância que tornam o caso numa derivação de disputa política. 

Cameron Andrews, responsável pelo departamento legal da BeIN, ouvido pela imprensa internacional, reforçou a sua convicção de que a Arabsat, responsável pela emissão do sinal e com ligações ao governo da Arábia Saudita, podia acabar com o BeoutQ carregando simplesmente num botão. Contudo o canal, cópia subversiva da BeIN Sports continua no activo desde 2017 mantendo aberto, e dentro das quatro linhas, uma rivalidade geopolítica entre dois dos países mais poderosos do médio oriente.

Já os adeptos do clube, parte importante na equação, parecem estar a favor do negócio: uma sondagem feita num universo de 3000 apoiantes do clube revelou que 96% é a favor. Algo que, contudo, pode ter mais a ver com o detentor actual, Mike Ashley, que há 13 anos detém o clube contando já com algumas polémicas no historial. De resto nas últimas horas surgem notícias de que um consórcio norte-americano poderá assumir a despesa caso a proposta saudita seja reprovada.

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