O projecto do aeroporto não foi cancelado e eu tentei avisar

Hoje, pelas 11h41, chegou ao e-mail do Shifter, como de outros órgãos de comunicação social, uma mensagem com o título "MIH - Nota à Comunicação Social" e um PDF anexado em que, alegadamente, o Governo dava conta do cancelamento do projecto do Aeroporto do Montijo, bem como de qualquer projecto de expansão do Aeroporto da Portela. Era falso.

 

Hoje em dia, especialmente numa altura em que estamos confinados às nossas casas e dedicados ao tele-trabalho, grande parte das notícias chegam às redações pela via do e-mail. Assim, o trabalho de apuramento dos factos que muitas vezes se fazia por recolha in vivo de declarações é trocado pela atenção com que se lêem os e-mails e os pequenos pormenores que os compõem. Esse exercício é de uma importância extrema, especialmente no dia das mentiras.

Hoje, pelas 11h41, chegou ao e-mail do Shifter, como de outros órgãos de comunicação social, uma mensagem com o título “MIH – Nota à Comunicação Social” e um PDF anexado em que, alegadamente, o Governo dava conta do cancelamento do projecto do Aeroporto do Montijo, bem como de qualquer projecto de expansão do Aeroporto da Portela.

Depois de ler o e-mail, abrir o PDF em anexo, e ficar estupefacto com a notícia hipotética dediquei-me a procurar algo que pudesse soar estranho. Não foi difícil. Ao olhar para o remetente do e-mail percebi facilmente que não se tratava de uma conta oficial do Governo. O endereço mih.gov.pt@gmail.com não deixa dúvidas de uma tentativa de usurpação da identidade do ministério na replicação do domínio .gov.pt feita por alguém externo.

Face a esta perigosa notícia resolvi correr ao Twitter e deixar uma mensagem avisando os jornalistas de que este e-mail estava em circulação. Não foi preciso mais do que enviar o tweet e esperar que a página actualizasse para me confrontar com notícias publicadas sobre o tema citando o referido comunicado e sem confrontação com outras fontes.

As notícias, no Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Revista Sábado, TVI24 e Sic Notícias, citam o comunicado sem questionar nem as afirmações mais surpreendentes, como a referência a uma alteração estratégica do Governo baseada na perceção da solidariedade na sociedade civil. De resto, a mesma notícia chegou à Agência Lusa que fez o confronto com as fontes oficiais, ligando para o Ministério das Infraestruturas e Habitação que prontamente negou a notícia.

Contudo, este caso mostra como a nossa relação com as notícias está fortemente subvertida. A pressa da publicação leva não só a uma inexistência de dupla confirmação de factos — mesmo em anúncios tão determinantes como este — como também a uma muito pobre confirmação dos elementos básicos de um e-mail, nomeadamente o remetente. Se é verdade que o e-mail está minimamente bem construído, isso não deve servir de atenuante numa notícia deste contexto.

Todos os profissionais erram, é facto, e nós mesmos já errámos antes confiando em traduções ou afirmações de outros media que não se revelaram inteiramente verdade. Ainda assim, é dever de cada um desenvolver critérios que os tornem impermeáveis a este tipo de estratégias, sobretudo quando se citam decisões governamentais de tão elevado impacto.

Actualização 12:52: Entretanto no site do Governo português já se pode encontrar um comunicado reiterando a falsidade das informações veiculadas no e-mail.

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