A minha viagem em busca do propósito do tédio: de Peter Toohey a Susan Sontag

Há quem aprecie a inércia do tédio, há quem conviva com ele de forma saudável e o transforme em produtividade, nem sempre quem está aborrecido precisa de outro estímulo, há quem veja no aborrecimento o próprio estímulo.

Rita Pinto/Shifter
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Como alguém que desde cedo se aborrece facilmente, desde cedo senti necessidade de perceber esse sentimento, o de nunca estar satisfeita com nada, de me fartar rapidamente do que estou a fazer, de precisar constantemente de estímulos novos. Fui percebendo ao longo dos anos — porque pessoas mais experientes mo disseram várias vezes — que ser assim era meio caminho andado para me sentir infeliz com frequência, que a vida não é fácil para os “eternamente insatisfeitos”, que devia aprender a contentar-me, pelo menos às vezes. Daí terá nascido a minha aversão à ideia de contentamento, que sempre me soou mais a submissão que a satisfação da vontade própria. Mas a verdade é que também as minhas experiências pessoais me foram mostrando que ser assim não era sempre bom. Aquilo que poderia até ser uma fórmula para o sucesso, querendo sempre mais e melhor, mostrou ser uma fórmula para a indecisão, para projectos inacabados e ideias interrompidas e, pior, para procurar contentamento nos sítios e momentos errados.

Eu tinha um problema. Para mim, o tédio era mesmo entediante, só o bolsar da palavra “seca” soava a enfado, fazia-me contorcer de desprazer. Este cocktail de sentimentos nem sempre tem a mesma receita para todos, e perceber isso foi meio caminho andado. Há quem aprecie a inércia do tédio, há quem conviva com ele de forma saudável e o transforme em produtividade, nem sempre quem está aborrecido precisa de outro estímulo, há quem veja no aborrecimento o próprio estímulo.

Por isso, parte do meu processo foi procurar quem partilhasse destas emoções, perceber que personagens inspiradoras se debatiam com o propósito do tédio. Guardei parte dessa minha pesquisa ao longo dos anos, numa pasta chamada Coisas Minhas, que o meu disco externo me diz que criei em 2009.

Entre frases soltas, livros para ler, filmes e vídeos para ver, guardei esta entrevista da autora e ilustradora Maira Kalman onde compartilhou alguns pensamentos astutos e maravilhosamente humanos sobre existência e felicidade, sobre a diferença entre pensar e sentir, sobre o poder de caminhar (literalmente, de andar) como uma força geradora de intelecto, consciência e criatividade, e sobre a importância de não nos deixarmos ficar entediados por muito tempo, não mais de um minuto.

Outro dos tesouros descobertos que melhor guardo deste processo de aprendizagem, é a versão PDF do livro de Peter Toohey, Boredom: A Lively History, de 2011, uma exploração rica e estimulante daquela que é “uma das emoções mais oprimidas e denegridas da vida humana” e como ela nos pode ajudar a florescer. Tal como na minha vida, o autor australiano mostrou-me que o tédio nunca gozou de uma reputação admirável e que, na era da incessante estimulação online, parece ao mesmo tempo uma emoção anacrónica e anti-ética, uma condição particularmente patética de se confessar aos outros, como se fosse uma espécie da falha pessoal.

Segundo Toohey, o tédio é um mecanismo adaptativo. O estudioso de clássicos esclarece o mito de que o aborrecimento se trata de uma emoção infantil ou um mal-estar existencial, tipo a Náusea de Sartre. Explica-nos que o tédio é, de facto, uma das nossas emoções mais comuns e construtivas e que é por isso uma parte essencial da experiência humana.

Recuando mais de 3 mil anos na história, Toohey explora as raízes, os sintomas e o simbolismo do tédio através da história da arte, da psicologia e da neurologia para examinar o que revela sobre nós, tanto como indivíduos quanto como cultura. O seu estudo mostra que o tédio é uma emoção universal experimentada pelos mais variados seres humanos ao longo da história: dos aborígenes australianos aos romanos, passando por Camus e os primeiros cristãos, Durer ou Degas.

Os aspectos que Toohey racionalizou para meu descanso e melhor compreensão? Que os nossos métodos reflexivos para aliviar o tédio – a busca pelo novo, drogas, comportamentos extremos – são, como todos nós com consciência intelectual sabemos, mas em algum momento preferimos não saber, notavelmente ineficazes: “Assim que o novo é experimentado… É provável que se torne chato. O novo torna-se uma variante do infinito. Recua infinitamente.” E isto toca naquele que talvez seja o aspecto mais hipnotizante do tédio: a sua relação com o tempo: “O infinito é, obviamente, temporal e também espacial. O tempo tem uma relação muito interessante com o tédio e as suas representações. Todos nós experimentamos a lentidão do tempo quando ficamos confinados em situações chatas. Se decidir deixar de fumar, beber e amar, na verdade não vai viver mais tempo, apenas vai parecer mais tempo.”

“A cultura popular está repleta de exemplos deste processo de quebra de regras como uma maneira de escapar do tédio crónico da vida moderna. O problema com essa desobediência às regras é que é uma acção que rapidamente se torna previsível, prosaica e chata. O movimento Avant-Garde e o rock’n’roll, para dar dois exemplos, ambos encenaram revoltas contra o status quo precisamente por meio de uma novidade deslumbrante e intensa, mas ambos rapidamente se tornaram tão previsíveis quanto aperitivos de milho.

[…]

Pior ainda, essa violação de regras confunde-se com o que é a Moda e ser moderno, e isso rapidamente se torna antiquado também.'”

Ao olhar para tudo, desde a linguagem corporal nas pinturas clássicas aos estudos de alguns dos melhores laboratórios de neuro-ciência do mundo, Boredom: A Lively History pinta um retrato do tédio que é, ao mesmo tempo, uma observação cultural abrangente ao longo do tempo e espaço, e uma análise muito pessoal e relacionável, sobre este, tão vilificado mas universal, aspecto do que significa ser humano.

Foi o seu livro que também me apresentou ao Boredom Proneness Scale (BPS), um teste projectado em 1986 pelos psicólogos Richard Farmer e Norman Sundberg como uma forma de distinguir aqueles que sofrem de tédio como um estado transitório, dos que sofrem de tédio crónico. No teste, são-nos apresentadas declarações como “É fácil para mim concentrar-me nas minhas actividades”, ou “Preocupo-me frequentemente com outras coisas quando estou a trabalhar”, ou ainda “Acho fácil divertir-me”. São 28 no total, e devem ser respondidas usando uma escala de 7 pontos em que 1 significa Discordo Totalmente, e 7 Concordo Totalmente. O teste é replicado com regularidade em sites e revistas que desvirtuam o sistema de pontuação para os meros “Concordo”/”Não concordo”, mas ainda é possível consultá-lo no formato em que foi criado. Segundo os investigadores, para descobrires a tua propensão ao tédio deves somar o total de pontos atribuídos a cada afirmação. Se o teu cálculo deu um valor acima de 117 ficas entediado com facilidade e se pontuaste abaixo de 81, a tua resistência ao tédio é muito alta.

Na altura, os investigadores concluíram que aqueles que sofrem apenas do chamado tédio transitório têm um desempenho melhor em aspectos da vida como trabalho, educação e autonomia pessoal que as pessoas do outro lado do espectro. Segundo os psicólogos, algumas pessoas têm uma propensão metabólica para o tédio crónico, relacionada com desequilíbrios de neurotransmissores e riscos mais elevados de depressão, ansiedade, dependência, distúrbios alimentares e muito mais. Toohey evita assumir essa causalidade, ressalvando que o tédio crónico é apenas um sintoma desses desequilíbrios químicos, juntamente com a procura de sensações novas e o correr riscos, e não um agente causador.

Lembro-me como se fosse hoje de ficar assustada com o meu resultado do teste e de, ao fim de algum tempo a pensar nisso, me refugiar na ideia de Peter Toohey de que o mundo de 1986 em que Farmer e Sundberg teorizaram sobre o tédio que me assolava era já muito diferente do mundo de 2011 em que lançou o seu livro. Mais diferente será ainda agora do mundo de 2020. Junto ao PDF de Boredom: A Lively History, tenho uma nota com outros artigos seus sobre o tema: “You Look Bored” publicado na revista Slate mostra alguns dos exemplos de pinturas clássicas que retratam o tédio, dados no seu livro; “The Thrill of Boredom” publicado no The New York Times é um ensaio sobre os benefícios do tédio, com o mesmo tom ligeiro mas elucidativo do seu livro, onde defende, por exemplo que “o tédio merece respeito pela experiência benéfica que é”, ou que se virmos um jovem atenuar o seu aborrecimento com graffitis, “não devemos culpar a era da Xbox”, mas sim equipará-los aos seus antecessores romanos que agiram literalmente da mesma forma.

A sua observação mostra-nos o papel que o tédio desempenha na cultura popular e intelectual e como, ao longo dos séculos, provou ser um estímulo para a arte e a literatura — a história do tédio mostra-nos que o tédio tem uma função essencial na história da arte.

E assim chegamos a Susan Sontag. Mais ou menos na mesma altura em que deambulava — entediada — entre pesquisas sobre o tema, li o meu primeiro livro da escritora norte-americana que viria a tornar-se uma das minhas favoritas. Era uma edição portuguesa chamada Renascer (da tradução Reborn), que continha os seus diários e apontamentos entre 1947 e 1963, e que me fez ficar obcecada com a sua vida e obra – em grande parte por causa da sua curiosidade quase sôfrega e apetência pela vida. Tempos mais tarde, quando procurava outros livros seus para ler, dei de caras com As Consciousness Is Harnessed to Flesh: Journals and Notebooks, 1964-1980, que me pareceu ser a sequela de Reborn: Journals and Notebooks, 1947-1963, e continuava a sua senda de ensaios sobre escrita, censura e aforismos e o amor. E, num feliz acaso, deparei-me com uma análise sobre o propósito criativo do tédio como uma forma de atenção. Chama-se “Função do tédio. Bom + mau”. Nessa pequena meditação, o seu raciocínio discorre sobre a arte ser, e dever ser, chata.

As pessoas dizem “isto é aborrecido” – como se nenhuma obra de arte tivesse o direito de nos aborrecer. Mas a maior parte da arte interessante de nosso tempo é chata. Jasper Johns é chato. Beckett é chato, Robbe-Grillet é chato. Etc, etc.

Talvez a arte deva ser entediante. (O que não significa que a arte chata seja necessariamente boa – obviamente). Não devemos esperar que a arte nos entretenha ou distraia. Pelo menos, não alta arte.

O tédio é uma função da atenção. Estamos a aprender novos modos de atenção (…) mas enquanto trabalhamos dentro do antigo quadro de atenção, achamos X chato… Por exemplo, ouvir uma música à procura de sentido, em vez de procurar apenas som (sermos muito orientados para a mensagem). Possivelmente após a repetição da mesma frase ou nível de linguagem ou imagem por um longo período de tempo – num determinado texto escrito ou peça de música ou filme, se ficarmos entediados, devíamos perguntar-nos se estamos a pensar no quadro certo de atenção. Ou, talvez estejamos até a operar sob um quadro correto, quando devíamos estar a operar em dois simultaneamente, reduzindo pela metade a carga de cada um (como sentido e som).

Tentar explicar um sentimento tão entranhadamente invisível não é fácil. Explicá-lo, dar-lhe sentido e sugerir formas de lidar com ele nem sequer é difícil, é quase heróico. Se nos diários de Susan Sontag aprendemos por via do voyeurismo, detectando o embrião de ideias que a acompanharam durante a vida, é nos documentos onde materializa as teorias que veio a explorar mais tarde, que continua a dar-nos respostas para dúvidas que ainda hoje persistem. A sua missão em vida parece ter sido precisamente fornecer respostas lúcidas para todas as questões de um mundo que não pára de ser sacudido por mudanças profundas. Com a sua morte, em 2004, parece ter deixado vaga essa função de guia, parece ter-nos deixados órfãos desse esclarecimento.

Agora mais do que nunca, num momento atípico e de adaptação como o que vivemos, reflexões como a que aqui partilho sobre o tédio, podem ser o empurrão que precisamos para nos compreendermos neste contexto, para nos conhecermos e respeitarmos, sem nunca deixar de querer compreender o mundo. E porque foi essa a sua missão, Sontag deixou-nos num dos seus mais famosos ensaios, A Doença como Metáfora (1978), uma leitura ultra pertinente, escrita muito antes de se saber o que era este vírus, que mostra como o enquadramento certo (a atenção de que falara até então) é fundamental para entendermos os fenómenos que nos rodeia.

Sontag, que enfrentava à época um cancro, analisou o uso da doença como metáfora do ponto de vista cultural, com os exemplos das metáforas que acompanharam a tuberculose e o cancro na história (no século passado dizia-se que os doentes de tuberculose contraíam a doença por “paixão excessiva”, um século mais tarde dizia-se que se contraía cancro por causa de repressão psicológica ou “paixão a menos”); do ponto de vista linguístico, criticando o uso de terminologia médica fora do campo da medicina, em especial no debate político; e da sua perspectiva de paciente, como um apelo a que se encare a doença como questão científica e terapêutica, não como uma alegoria ou moralidade. Tratar a doença como uma metáfora era, para Sontag, evitar ou atrasar – ou até impedir – o tratamento da doença literal.

A nossa situação actual é diferente, mas relacionada. Em vez de aplicarmos metáforas sociais às doenças, temos vivido em sociedade com interpretações metafóricas do coronavírus – o Covid19 como metáfora do consumismo/capitalismo, como uma resposta da natureza ao mal que lhe temos feito, como um castigo divino pela forma como vivemos. Partindo da teoria de Sontag, poderá até pensar-se que a nossa predileção para retratar o vírus como uma metáfora tenha dificultado o entendimento do vírus como fenómeno biológico potencialmente perigoso e até letal, e que, por sua vez, não ver a doença na sua literalidade pode ter-nos impedido de insistir em observar os padrões e práticas que impediriam a sua propagação, interferindo com a nossa vigilância.

Em A Doença como Metáfora, Sontag nota ainda que “como qualquer situação extrema, terríveis doenças põem em cena tanto o lado pior quanto o lado melhor das pessoas”. Se sobre o tédio, Susan Sontag pode ter-nos dado dicas indirectas sobre como lidar com o nosso isolamento, o sentimento de incerteza e a pressão de produzir, em toda a sua vida e trabalho encontramos ensinamentos antigos úteis para momentos que ainda nem vivemos. Por experiência própria, defendo que aquela que é uma das intelectuais mais influentes da segunda metade do século XX, pode ajudar-nos a atalhar o caminho para descobrirmos o nosso tal “lado melhor”, o lado que, agora como nunca, todos devemos tentar trazer ao de cima.

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