A quarentena vivida fora de casa: um retrato global da nova forma de trabalhar dos profissionais em risco

O impacto nos trabalhadores que saem de casa.

 
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São muitos os profissionais que todos os dias estão expostos ao novo coronavírus. De Portugal, Espanha, França, Suíça, Itália, Reino Unido e Estados Unidos chegam-nos relatos de como tem sido trabalhar e viver sob o medo de uma pandemia.

Embora não ao mesmo nível dos profissionais de saúde na linha da frente, muitos trabalhadores que não podem refugiar-se em casa, por obrigação ou necessidade, estão mais vulneráveis à Covid-19. São eles os assistentes de saúde domiciliar, farmacêuticos, operadores de caixa de supermercado, empregados de limpeza, condutores de transportes públicos, coletores de lixo, entre outros.

Além de estarem mais susceptíveis ao contágio, quer seja durante o trabalho ou deslocações, podem ser vítimas de mais pressão, medo, rotinas mais duras e incerteza financeira.

Turnos com pouco tempo para respirar

Até há algumas semanas, Gema Jaraíz entrava normalmente no Hospital del Henares, em Madrid. Agora no local destinado apenas para doentes com Covid-19, a auxiliar de ação médica veste uma roupa de proteção improvisada para atravessar os corredores cheios de pacientes; despe o fato, entra na “zona limpa” e veste o equipamento de proteção pessoal.

Gema Jaraíz/Madrid

“Vestimo-nos como se fosse para a guerra”, conta Gema. Os turnos de sete horas, passaram a ser de “oito, nove horas e estão a começar a dobrar, 12 horas”. Informa que faltam médicos, enfermeiros, auxiliares; que triplicou o número de pacientes e que criaram mais duas unidades de cuidados intensivos.

Noutra frente, ainda que a um nível totalmente diferente, também logo se sentiu a correria, o pânico, a falta de pessoal e materiais de limpeza e proteção nos supermercados.

Às 8h15 do primeiro dia de estado de emergência em Portugal, Isabel Rodrigues, operadora de caixa de uma das maiores cadeias de supermercado do país, contou mais de 80 pessoas na fila, à espera da abertura da loja. As últimas semanas têm sido duras.

“Tenho feito à volta de cinco mil, seis mil euros. Em apenas quatro horas! Costumava fazer dois mil, três mil. Três mil já era muito”, diz Isabel. No entanto, não são as dores nas costas que a afligem, e sim o medo de levar o vírus para casa, onde vive com os pais, que integram o grupo de risco. “Sinto-me mesmo vulnerável”, com medo de que a barreira de acrílico e as luvas que vai desinfetando com regularidade não sejam medidas de proteção suficientes.

Num pequeno supermercado de produtos importados, em Lisboa, o número de clientes que por ali passam é muito menor. Mas, mesmo assim, o receio de contrair o novo coronavírus era tão grande que levou Diana Dantas a decidir não se apresentar para o trabalho.

“Devia existir mais respeito e incentivos pelo serviço que se está a prestar numa altura como esta”, explica a agora ex-operadora de caixa. Sentiu falta de apoio da gerência e até de união dos colegas.

Diana Dantas/Lisboa

Até ao momento, apenas a cadeia espanhola Mercadona, que emprega cerca de 900 pessoas em Portugal, anunciou que irá pagar mais 20% do salário bruto aos seus colaboradores como compensação pelo grande esforço.

De resto, as medidas adoptadas pelos supermercados têm sido mais ao nível da proteção de clientes e trabalhadores. As recomendações de distanciamento e redução de pessoas a circular são seguidas com rigor. Já a distribuição de luvas e pausas para lavar as mãos, pelo menos na loja onde trabalha Isabel, têm sido regras difíceis de cumprir: “Nós quase que temos de pedir por favor para ir à casa de banho porque não há ninguém para nos substituir”.

No hospital, Gema também mal pára e comenta que as pausas ou idas à casa de banho tornaram-se quase impossíveis. Depois de colocado o equipamento de proteção, não se deve retirá-lo para evitar a contaminação do material. Além da falta de espaço, existem poucos recursos.

“Estamos sobrelotados e protegemo-nos com máscaras que nos doam, tocas que costurámos a partir de calças velhas, e viseiras protetoras que comprámos com dinheiro do nosso bolso”, conta a auxiliar espanhola.

Atender doentes fora dos hospitais

Apesar de Alessandra Macari estar em Roma, longe do terror que caiu sobre a Lombardia, viu a sua rotina diária num consultório de pediatria drasticamente alterada. Agora, atende as suas crianças de fato branco, máscara, óculos e luvas.

Alessandra Macari/Roma

“Atendia cerca de 30 pacientes. No momento, só os casos prioritários, nove crianças”, conta, acrescentando que deixa para o telefone quem pode ser tratado à distância. “Há sempre um risco, mesmo tendo reduzido significativamente o número de pacientes que atendo. Nunca sei onde os pais e as crianças estiveram e se já são portadores do vírus”, sublinha Alessandra.

Numa farmácia em Salamanca, Espanha, Carmen Garcia protege-se atrás de uma barreira de acrílico. Tem trabalhado sozinha de manhã ou à tarde, atendendo quase o mesmo número de pessoas, a maioria idosos.

Sente-se mais vulnerável à pandemia e, diz, há falta de medidas para proteger os farmacêuticos espanhóis. Para além do medo, nos turnos solitários, também tem de ir lidando com clientes que acusam as farmácias de estarem a lucrar com a crise.

“Se este tipo de estabelecimentos fechasse, aumentariam os casos mais graves de determinadas doenças em pessoas com doenças crónicas, que não teriam acesso à medicação”, expõe.

É um esforço essencial, como o da enfermeira Catarina Pereira, em Lisboa, que passou de serviços de rastreios em escolas para os cuidados domiciliários. A instituição privada para a qual trabalha reestruturou, de acordo com os conselhos da DGS, os cuidados de saúde diários, que passam a ser prestados apenas aos doentes prioritários e urgentes.

De casa em casa, com máscara, luvas e óculos, Catarina toca a cada companhia com um par de luvas e trata o paciente com outro. “Os idosos e doentes crónicos que estão em casa estão em risco porque nós podemos levar o vírus, e os familiares que os visitam ou vivem com eles também”, explica.

A mudança na rotina de trabalho estende-se aos horários de refeições e idas à casa de banho. Desde que Catarina sai do carro até ao último doente, a máscara e óculos cobrem-lhe o rosto. No final do turno, a máscara é deitada fora, os óculos são desinfetados e a farda lavada.

“Neste momento de estado de emergência, atendemos menos pessoas e assim conseguimos fazer os domicílios durante a manhã. Depois, na parte da tarde, ficamos no escritório a fazer atendimentos por telefone”, conta.

Na equipa onde Catarina está agora são seis enfermeiros, mas só quatro estão escalados para fazer os domicílios. Os restantes ficam de prevenção em casa. Para salvaguardar os profissionais de saúde, faz-se, quando possível, a rotação de pessoal.

O mesmo acontece na Suíça, onde Rita Avelar desempenha as mesmas funções, mas para o sistema público. A enfermeira, que vive em França, atravessa a fronteira todos os dias para cuidar de doentes em Genebra.

Rita Avelar/Genebra

Para além do uso de máscaras, luvas, atenção redobrada e o tratamento dos doentes prioritários, as deslocações diárias para o trabalho tornaram-se mais longas desde o fecho das fronteiras. “Tenho colegas que não conseguiram passar a fronteira a tempo porque as filas são enormes”, explica Rita.

Como em Portugal, não poderá gozar férias por enquanto, contudo receberá um subsídio na Páscoa para compensar este cancelamento. “Não poderei ir a Portugal, mas terei as férias reembolsadas”, conta.

Numa das muitas linhas de trás – a restauração

Jean-Albert Lanne vive na região Grand-Est, em França, uma das mais afetadas pela pandemia. Trabalha na cozinha do Centro Social de Argonne, onde prepara 130 refeições por dia.

O contato com aqueles que entregam os ingredientes e os que servem as refeições reduziu significativamente. Desinfetam embalagens, utensílios, maçanetas, usam luvas e máscaras, lavam aventais e jalecas todos os dias. Prevê que dentro de pouco tempo comece a faltar material.

“É mais stressante e temos de ser ainda mais vigilantes”, assume Jean-Albert. Sente mais a responsabilidade de continuar a servir bem e de forma segura as crianças e os adultos que ali vivem ou beneficiam de outros apoios do centro.

Enquanto em França já todo o país adotava medidas rígidas de controlo da pandemia, no Reino Unido, o governo tardava em tomar decisões. O primeiro-ministro, Boris Johnson, apenas apelava ao bom senso das pessoas, sem saber que ele mesmo seria um dos milhares de casos de infetados do país.

Gregory Fernandes/Londres

Gregory Fernandes, gerente de um pub no centro de Londres, também não se preocupava muito. Notou diferença no movimento, mas a maioria continuou “a fazer a rotina diária como se nada se passasse”.

No estabelecimento, tinham tomado algumas medidas de segurança, como limpezas mais constantes e profundas. “Percebo que algo tem de ser feito, mas também é importante podermos ver a luz ao fundo do túnel”. Por agora, Gregory não sabe até quando o pub continuará fechado.

A falta de garantias para muitos trabalhadores

Em Nova Iorque, o estado onde a Covid-19 mais ganha terreno nos Estados Unidos, o mecânico Leo Valverde protege-se da melhor forma que pode com luvas e desinfetante. Não sabe ainda como irá preparar-se para o impacto financeiro da pandemia.

“Tudo aqui é muito caro. Se não trabalhas, não recebes”, conta. Já tinha sido dispensado uma vez numa semana. É menos um dia de sabe-se lá quantos não irá receber. A única garantia que o pai de três filhos tem é que a mulher, que trabalha numa escola, terá direito a receber, pelo menos, 1200 dólares do governo.

Do outro lado do país, na Califórnia, um dos grandes focos de pandemia, Sergio Arreola tem uma família ainda maior parcialmente dependente do seu rendimento. Limpa escolas, ginásios, empresas mas, no momento, apenas apartamentos recentemente desocupados.

“Há um pouco de perigo”, confessa, explicando que há sempre o risco de os ex-moradores estarem infetados. “Não estamos com medo, mas se não enfrentarmos isto, se não sairmos para trabalhar, como vamos pagar a renda?”.

O pacote de estímulos de dois mil milhões de dólares aprovado pelo Congresso, o maior da história dos Estados Unidos, ajudará 90% dos agregados americanos, de acordo com o think tank Tax Policy Center.

Sergio, no entanto, sendo imigrante sem papéis já sabe que não será abrangido pelo programa. Mesmo que recebesse os 1200 dólares, o valor não o confortaria: “Mil dólares dá para o quê neste país?”

Em Lisboa, Maria Serrão, empregada doméstica, também não sabe quanto irá receber nos próximos tempos. Desde que se instaurou o estado de emergência, recebeu ordem de uma das patroas para não ir trabalhar. “Ela paga-me o subsídio de férias em Agosto”, explica, “disse que faz de conta que fui de férias”.

Preocupa-a o dinheiro no futuro, mas mais ainda a sua saúde e a do marido, doente crónico. Nas últimas semanas, apenas tem ido com regularidade a casa de um casal de 71 e 73 anos. Pedem-lhe para dar um jeito no apartamento, passear o cão e ir às compras. “Não me querem lá muito tempo para não os infetar”, diz, “mas eu também posso apanhar.”

A maior incerteza de todas

De volta ao Hospital del Henares, Gema conta que a sua equipa criou uma iniciativa para animar os doentes

Maria Serrão/Lisboa

internados. Organizaram e encorajam uma forma de comunicação com familiares e amigos dos pacientes – escrevem cartas. “Desta forma, eles ficam em contacto com o mundo lá fora e ficam mais animados”, diz.

Estar isolado e longe de quem queremos por perto tem-se revelado o maior obstáculo desta pandemia. Dos países mais arrasados pela Covid-19, chegam-nos inúmeras histórias de profissionais de saúde que não têm mãos nem meios para travar esta batalha; doentes que morrem sozinhos nos hospitais, por não se poder dispensar equipamento de proteção para visitantes; camiões frigoríficos a serem usados como morgues; pessoas que já fazem fila para pedir comida.

No meio deste caos, o que mais preocupa a auxiliar espanhola é o facto de ainda haver quem não leve isto a sério. “É muito frustrante”, comenta, “estou preocupada com os meus colegas, que a cada dia são menos por estarem a ser contaminados”.

Quando fazia este desabafo, Gema não sabia que ela própria seria mandada para casa por suspeita de estar infetada. O resultado do teste acabou por ser negativo. A espera deu-lhe alguns dias de descanso, mas também muita incerteza. Afinal, logo voltaria para o campo de batalha, onde profissionais de saúde e dos outros setores essenciais lutam para que a nossa vida em quarentena continue a ser confortável.

Texto de Alexandra Guerreiro e Mikhaela Anjos

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