Voluntários ligam impressoras 3D para produzir material para os hospitais

Em casas, fablabs, universidades e empresas de diferentes partes do país, está a ser produzido material hospitalar para proteger os profissionais na frente de combate ao Covid-19. Voluntários unem esforços, assumem custos e mesmo assim têm de entrar pela porta do fundo.

Foto de Tiago Charters Azevedo/DR
 
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Voluntários espalhados pelo país estão a ligar as impressoras 3D que têm por casa, em fablabs ou nas suas universidades, e a imprimir viseiras de protecção individual para darem a médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros e outros profissionais que delas precisem. Trabalham isolados e conversam em grupos organizados através da internet. Usam um modelo 3D criado por uma empresa checa, chamada Prusa Research, que cada um vai ajustando ao seu gosto e às suas condições de produção.

Da República Checa para Portugal

Jo Prusa é a cabeça por detrás da Prusa Research, uma empresa de Praga que produz e desenvolve as impressoras 3D com o mesmo nome. O modelo 3D de uma viseira de protecção individual que a Prusa Research desenvolveu correu mundo a partir do fórum onde foi originalmente disponibilizado em modo aberto. Seguindo a filosofia de partilha inerente ao open source, qualquer pessoa pode descarregar o ficheiro de impressão e as respectivas instruções, e criar em sua casa uma viseira igualzinha àquela que a Prusa concebeu a quilómetros de distância.

Qualquer um pode também pegar no desenho original e adaptá-lo, seja para criar um produto mais apelativo, seja para optimizar a sua produção. Na página da Prusa onde é possível descarregar o ficheiro-molde, há também uma centena de versões que pessoas e entidades decidiram partilhar com o resto da comunidade. Mas haverá muitos outros modelos – até porque nem toda a gente tem impressoras da Prusa e pode ter construído a sua a partir das instruções da RepRap, uma iniciativa que o engenheiro e matemático britânico de 68 anos, Adrian Bowyer, bastante activo no Twitter, ainda mantém viva.

O caos organizado em tempos de pandemia

A viseira que a Prusa criou na República Checa está a servir de base ao trabalho de inúmeros e incontáveis voluntários em Portugal, espalhados pelo país e organizados em diferentes forças de trabalho. 3D Mask Portugal é um desses grupos – o maior deles – e nasceu em Lisboa com o intuito de ajudar a colmatar as necessidades de material dos profissionais de saúde, tendo ganho entretanto uma maior abrangência geográfica. Tendo como ponto de encontro o site 3dmask-portugal.eu e grupos de WhatsApp, mais de uma centena de voluntários de diferentes cidades está a imprimir localmente viseiras para distribuir de forma gratuita pelas unidades de saúde da sua zona. Estão a usar um modelo 3D criado a partir do original da Prusa mas modificado para que a sua impressão seja mais rápida e eficiente.

Residente em Lisboa, Tiago Charters Azevedo está nos grupos de WhatsApp da 3D Mask Portugal, mas decidiu criar o seu próprio modelo de viseira e partilhá-lo num repositório aberto online. Nas horas que tem livres em casa, entre os filhos e o trabalho como matemático e professor do ensino politécnico, Tiago imprime viseiras para depois distribui-las consoante os pedidos que vai recebendo pelo Twitter. O molde que desenhou num software chamada OpenSCAD permite a impressão em camadas e, assim, consegue produzir 15 viseiras de cada vez. O que imprime é apenas a armação; o resto é uma folha de acetato normal furada com um furador normal de papel e presa com um elástico à armação – o processo é semelhante ao de outros voluntários.

Foto de Tiago Charters Azevedo/DR

Nas Caldas da Rainha, André Rocha usa o modelo que Tiago criou – e a que elogiosamente chama o “modelo do matemático” –, e também já experimentou o desenho da Prusa, entre outros. Ao todo, distribuiu cerca de 60 viseiras a unidades de saúde da zona Oeste e diariamente por diariamente por videochamada (dentro do grupo dirigido pelo Lab Aberto de Torres Vedras) ajuda na coordenação das diferentes iniciativas voluntárias – quem está a produzir o quê, quanto, o que é preciso distribuir… Vai sendo tudo organizado em cima do joelho e dentro o que é possível, porque este é um tempo de emergência.

Todavia, apesar do envolvimento na comunidade local, André, também professor no politécnico, está mais interessado em olhar de fora para tudo o que está a acontecer: para todo o esforço colectivo de produção doméstica de viseiras que está a acontecer de norte a sul do país, para projectos que fablabs estão a montar, para as ideias mais disruptivas. De repente, diz, as impressoras 3D que as pessoas tinham em casa para brincar, ganham um propósito social.

Subir o nível

Entre a organização dos grupos de WhatsApp e a desorganização que esta pandemia causa, por todo o país, quem pode e se voluntariou está a tentar ajudar com o que tem, assumindo os custos do material e de energia associados à impressão. Mas não é sempre assim. Para produzir em escala e produtos de maior qualidade, é preciso financiamento.

Exemplo disso é a Dholetec, um laboratório equipado com máquinas de corte a laser, impressoras 3D e outros equipamentos de prototipagem rápida, fundado por Jorge Guimarães, em Lisboa. Através de uma campanha de angariação de fundos, Jorge e a sua equipa procuram 5 mil euros para produzir cerca de 5 mil viseiras; criaram um modelo próprio, de boa qualidade e baixo custo, num material mais adequado chamado PETg, e que é produzido a corte a laser em vez de numa máquina de impressão 3D. Cada viseira fica a 0,95 € + IVA; já têm mais de 2 mil euros angariados, e no fim-de-semana produziram 1200 unidades para entrega imediata.

Também na mesma lógica de escala, o VIVALab, no Porto, também um laboratório de fabricação digital, está a produzir viseiras, máscaras e óculos para entregar às unidades de saúde da zona. Em três dias produziram cerca de 1400 viseiras e 200 óculos de protecção, e mobilizaram 24 costureiras para criarem máscaras pessoais. Os receptores são o Hospital de Santo António e o Hospital de São João, ambos no Porto, uma das regiões mais afectadas pela pandemia do Covid-19. Têm uma campanha de angariação de fundos a decorrer para ajudar a suportar os custos de produção, mas o apoio de fornecedores e parceiros na indústria local tem sido fundamental para a solidariedade da VIVALab.

Pela porta do fundo

A impressão 3D não é o método mais rápido de produção de viseiras nem aquele que permite produtos de melhor qualidade, mas é o que domesticamente é possível colocar à disposição. Afinal, enquanto Governos adquirem material a preços especulativos e fábricas automóveis são revertidas em fábricas de viseiras e ventiladores, a fabricação local, descentralizada e doméstica pode ter um potencial muitas vezes esquecido mas importante nas cadeias de fornecimento estabelecidas na economia global e globalizada, especialmente em tempos de emergência.

Nos hospitais e restantes unidades de saúde, as doações dos voluntários que estão a imprimir viseiras têm de entrar pela ‘porta do fundo’, porque a narrativa oficial é a de que não falta material, as administrações não se querem comprometer, mas os profissionais de saúde aceitam de bom grado todos os materiais de protecção – apesar de desadequados enquanto material hospitalar (não são certificados por uma entidade que os reconheça como tal), são adequados perante esta crise pandémica. Em Madrid, por exemplo, os hospitais deixaram de aceitar doações.

Entretanto, por cá, vai-se continuando a fazer o que se pode. Não menos activo tem estado o Movimento Maker – Portugal. Este movimento – que é uma comunidade de fazedores já habituados à fabricação digital e com acesso fácil a impressoras 3D – não tem dado descanso ao grupo de Facebook que serve de ponto de encontro. Os chamados fazedores (ou makers) têm as suas impressoras ligadas, usando moldes e técnicas diferentes, que vão partilhando no grupo de Facebook, onde há vídeos e fotos que parecem chegar de diferentes cantos do país; cada um está a trabalhar por si, não parecendo existir um esforço de colaboração para colectivamente se optimizar a qualidade e quantidade de produção.

De resto, há diferentes universidades a juntarem-se a este esforço colectivo. Do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, até à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, passando também pelos Politécnicos de Leiria ou Viseu, por exemplo. É difícil perder a conta a tantas iniciativas ou sequer contá-las. Portugal não é caso único no que toca a este tipo de solidadariedade. Por outros países, como em Espanha, também estão a ser feitos esforços de produção de viseiras de protecção individual em impressoras 3D.

Voltando a Portugal, importa referir que a solidariedade não se esgota nas viseiras: um projecto chamado Project Open Air pretende trabalhar em soluções open source para reparação de ventiladores. Tudo começou num tweet, como conta esta reportagem do Observador.

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