“Assange deve ser libertado imediatamente”, escreve a sua companheira, Stella Morris

Num artigo de opinião, Stella Morris usa os episódios que relata para ilustrar aquilo que considera ser uma tendência para violação dos direitos consagrados às pessoas, apontando o dedo às grandes instituições.

Via GUE/NGL Flickr / CC BY-SA 2.0
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Stella Morris é um nome relativamente desconhecido do grande público. Se o procurarmos no Google e se selecionarmos entre os primeiros resultados a imprensa portuguesa ficamos reduzidos a um pobre artigo da Revista Flash sobre os dias de Julian Assange durante o seu asilo na Embaixada do Equador com o titulo, no mínimo irónico, ‘Os dias loucos de Julian Assange na embaixada. Teve dois filhos em segredo’, indexado à categoria ‘Surpresa’. Stella Morris é a mãe desses dois filhos e uma das personagens mais importantes do novo capítulo da vida Julian Assange. Depois de uma relação discreta que começara em 2015 e que resultara em dois filhos, mantidos à margem da espiral mediática, Stella resolveu falar sobre o seu companheiro e publicou este fim de semana no El País um apelo para que Assange fosse libertado.

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Num artigo de opinião publicado no jornal espanhol com o título “Porque Assange deve ser libertado urgentemente”, Stella, natural da África do Sul, que passou a infância entre a Suécia e o Botswana, articula as suas memórias do apartheid  e relaciona-as com a situação de Julian – explicando no texto algumas das histórias por que passou, desde a mudança de nome (originalmente Sara Gonzalez Devant) até ao aviso feito por um dos responsáveis de segurança da embaixada para que não voltasse a levar consigo Gabriel, o seu primeiro filho com Assange. No artigo, Stella descreve esse conselho amigável como o aviso de um denunciante que, de dentro da própria organização, decidira partilhar consigo que tinham recolhido amostras de ADN da criança, ainda durante os seus primeiros meses de vida. 

Stella partilha estes episódios catalogando-os como uma encruzilhada num vazio ético e legal, onde a sua gravidez se tornou em algo próximo do ilegal. Depois dos primeiros meses de Gabriel engravidou novamente, desta feita de Max; um processo gestacional que por decisão do casal foi passado à distância depois do 6º mês. Stella conta no artigo ter decidido em conjunto com Assange que o melhor seria que ela não o visitasse para que não sofresse na pele qualquer tipo de pressão mais agravada, que pudesse pôr em risco a gravidez. A advogada conta que só o viu novamente na prisão de Belmarsh, para onde Assange seguiu depois de tido na embaixada, em Abril do ano passado. 

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Stella conta o desenrolar de um dos casos mais marcantes dos últimos anos; depois da prisão da Assange, como se sabe de notícias anteriores, o Supremo Tribunal Espanhol abrira uma investigação à empresa de segurança – espanhola – que havia sido contratada para o serviço. Com o depoimento de vários denunciantes – de dentro e de fora da organização – percebera-se então a dimensão da vigilância a que Assange era sujeito, algo que Stella recorda na primeira pessoa, acrescentando que os pedidos de segurança mais estranhos, como que perseguissem a sua mãe ou recolhessem o ADN do bebé, viriam do cliente norte-americano da empresa e não do Equador, responsável pela embaixada. Segundo conta Stella, os planos entre as partes teriam um objectivo ainda mais avançado, matar Assange. 

Nada do que nos conta é novo ou o tema do seu artigo, conciso e com um objectivo claro. Morris usa os episódios que relata para ilustrar aquilo que considera ser uma tendência para violação dos direitos consagrados às pessoas, apontando o dedo às grandes instituições. Encerra assim a sua reflexão, em tom de apelo, com uma espécie de desejo de escrutínio das democracias para que não sejam coniventes com tratamentos desiguais e desumanos – dizendo que tudo o que quer é que os seus filhos cresçam com essa esperança, tal como ela cresceu mesmo conhecendo injustiças além-fronteiras. Morris contrasta assim tempos e lugares históricos, convidando-nos a pensar sobre o vazio legal na oposição aos mais poderosos, terminando a sua exposição relembrando a intervenção de Mike Pompeo, em que este se dirigiu a membros do Tribunal Penal Internacional que estão a investigar crimes de guerra no Afeganistão, uma situação descrita pela Humans Rights Watch como uma ameaça séria e que surge um ano depois de os EUA terem revogado a um procurador do mesmo tribunal o seu visto.

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