Com baixa adesão a isolamento, Brasil sofre com aumento de mortes e incerteza na retoma

Festas e atividades não essenciais marcam o país e geram revolta; falta de coordenação entre líderes dificulta planos.

Foto de Marcos Corrêa/Palácio do Planalto via Flickr, CC BY 2.0
 
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“Culturas frouxas, em países como Estados Unidos, Itália e Brasil, têm regras mais fracas e são muito mais permissivas”, escreveu Thomas Friedman, experiente analista de questões internacionais do New York Times, numa coluna de opinião no dia 17 de março. Comparava a capacidade de cumprir as restrições impostas pelo combate ao Covid-19 em diferente países. À época, Estados Unidos e Brasil ainda não enfrentavam um alto número de mortes, e o Presidente brasileiro chegou a chamar o vírus de “gripezinha”. Hoje, cada um lidera a contagem de vítimas fatais em seus respectivos hemisférios, e o isolamento social é alvo de protestos em ambos, incluso com contactos físicos.

Um estudo do Imperial College de Londres detectou o Brasil como o país com a maior taxa de transmissão do vírus dentre 48 nações na última semana. O índice nacional é de 2,81 pessoas a quem a doença é repassada para cada um infectado, número que é de 0,78 para Portugal. O isolamento social no país, que não declarou quarentena completa, pode ser chamado no jargão popular de “para inglês ver”. Pouco após a independência, sob pressões inglesas, decretou-se no Brasil uma lei para proibir o tráfico de escravos. Sabendo-se que a lei não seria cumprida, criou-se a expressão de que a mesma seria apenas “para inglês ver”, amplamente utilizada até hoje quando existe algum regimento, mas sem adesão.

Nas redes sociais, são comuns os relatos de bares que abriram parte das portas para o serviço delivery, mas que ao mesmo tempo abrigam clientes de maneira a burlar as restrições, o que é visto pelas autoridades com preocupação. Por sua vez, influenciadores causaram polémicas recentes ao defender o isolamento social, e realizarem festas privadas logo depois. Em alguns casos, perfis em redes sociais foram criados para expor aqueles que não cumprem as recomendações, conhecidos popularmente no país como “furões”.

Eduardo Kaehler é morador de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, cidade considerada de porte médio, cerca de 600 mil habitantes, e até ao momento a menos afetada pelo vírus. Aos 25 anos, Kaehler restringiu as saídas ao máximo, e tem uma grande preocupação: a avó de 95 anos com quem compartilha a moradia. Na cidade, em especial aos fins de semana, os casos de desrespeito ao isolamento são abundantes. “É uma mistura de tristeza com raiva para com as pessoas que têm furado a quarentena com serviços não essenciais, festas, e situações que não são adequadas ao momento”, desabafa o jovem.

Em Blumenau, no Estado de Santa Catarina, cidade de porte semelhante, a abertura do comércio é apontada por especialistas como responsável pelo aumento do número de casos confirmados em 174% no espaço de uma semana. O vídeo da reabertura de um shopping na cidade com um saxofonista a tocar, sem máscara, revoltou muitos na internet ao fim de abril. O jornal Folha de S. Paulo avançou com a informação de que Santa Catarina é visto como o potencial novo epicentro da doença no Brasil. O Estado, governado por Carlos Moisés, do PSL – partido pelo qual foi eleito Jair Bolsonaro -, contou com grande pressão para o fim de restrições ao isolamento.

No Estado de São Paulo, que concentrou o maior número de casos no começo da crise, o isolamento chegou a 59% das pessoas, segundo a plataforma de medição oficial, mas o nível depois caiu aos 46%. Em nenhum momento chegou perto dos 70% observados como ideais por especialistas. Na capital, autocarros lotados circulam, já que a operação reduzida levou a maior pressão nos veículos disponíveis.

Com muitos a depender do transporte público para seguir o trabalho, os mais afetados foram justamente os moradores da periferia. Em Brasilândia, onde apenas 4,7% contam com emprego formal, o bairro avançou ao posto de maior número de mortos pela doença na cidade, com mais de 103 casos confirmados ou suspeitos. O jornal O Globo assinalou que na região não há isolamento social, e que “boa parte do comércio de rua segue aberto e com filas na parte externa”, e informou que na última semana foi realizada uma feira com 50 barracas.

Criado para ajudar os mais vulneráveis, o auxílio de emergência de R$600 (cerca de 95 euros), virou preocupação sanitária para as autoridades. Por todo o país, filas enormes se formaram para sacar o valor em agências bancárias. Nas primeiras estimativas do governo, ao menos 54 milhões de pessoas teriam direito ao auxílio. A retirada presencial não é obrigatória, mas com cerca de um terço dos brasileiros sem contas bancárias e déficit nos cadastros, um caos se criou.

Em 7 de maio, o Brasil é o sexto país com mais mortes pelo Covid-19 no mundo, com 9143 confirmadas, número que especialistas avaliam, com consenso, ser subestimado. As mortes por razões desconhecidas e problemas respiratórios, em parte suspeitos, aumentou em diversas localidades. A vizinha Argentina, que registou a primeira vítima pelo Covid-19 na América Latina, até o momento tem 273 mortes. O país adotou medidas duras de quarentena, inclusive com violadores detidos, e atualmente registra uma taxa de infecção de 1,32, segundo o Imperial College, menos da metade do Brasil.

Planos de retoma

No Estado do Maranhão, governado por Flávio Dino, do PCdoB, e opositor tradicional de Bolsonaro, foi decretado lockdown a partir do dia 5 de dez dias na capital São Luís e outras cidades da região, medida das mais duras no país. No vizinho Pará, um dos estados mais atingidos, a medida também foi declarada, mas nas dez cidades atingidas, os níveis de isolamento seguem abaixo das expectativas. Por sua vez, no Estado de São Paulo, o governo avalia uma retomada gradual a partir do próximo dia 11, mas apenas em caso de não haver queda nos níveis de isolamento.

Em diversas cidades, os decretos municipais, equivalentes aos concelhos, confundem os moradores. Algumas adotaram revezamento entre quais serviços poderiam funcionar em cada dia da semana, e outras fizeram o mesmo sobre horários. Não há nenhuma coordenação central sobre quais planos de abertura seguir, como o que começou a ser realizado em Portugal e Espanha.

Envolvido em uma grave crise política, que derrubou dois de seus principais ministros, inclusive o da Saúde, Bolsonaro se vê em poucas condições para coordenar esforços contra o vírus. Ainda assim, estudo da Fundação Getúlio Vargas junto à Cambridge University nomeado “More than words”, apontou que, após os discursos de Bolsonaro contrários ao isolamento social, foram nos locais em que o mesmo teve melhor desempenho eleitoral que as medidas mais caíram. Dentre as declarações, estão quando chamou o Covid-19 de “gripezinha” e que o vírus não o preocupava devido ao seu “histórico de atleta”.

Na sondagem do instituto de pesquisa Datafolha mais recente, a percentagem de apoio ao isolamento social caiu 52%, número que chegou aos 60% no começo de abril. Por sua vez, 46% pensavam que o país “deveria sair para trabalhar”. Uma menor parte de quem concorda com a afirmação realiza frequentemente manifestações pedindo o retorno das atividades, sem seguir nenhuma medida de prevenção.

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