Colónia Calúnia: um coletivo com “personalidade” e “sem grandes interferências”

Definir quem são os Colónia Calúnia pode ser uma tarefa complicada mas isso é algo que eles também nunca pediram.

Screenshot via YouTube
 
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Definir quem são os Colónia Calúnia pode ser uma tarefa complicada mas isso é algo que eles também nunca pediram. Fundados em 2016 pelo produtor Vulto, Colónia Calúnia tem vindo a dar que falar como um caso sério no hip-hop português, explorando uma estética própria, à margem dos tops e tendência. Editora, projeto, coletivo ou movimento? Para que não haja dúvidas deixamos que Vulto responda a essa pergunta:

Colectivo artístico. Somos todos pessoas com visões próprias e com necessidade de ver essa visão posta em prática sem grandes interferências. É óbvio que acabamos por fazer um bocado de papel de “label”, digamos, por sermos uma plataforma associam-nos automaticamente a esse conceito, mas não somos. Apoiamos pessoas que precisam e/ou querem uma plataforma livre para o que fazem e, claro é, isto tudo dentro de estéticas com as quais nos identificamos.”

E neste coletivo artístico aparecem novas caras, novas sonoridades e novas ideais, com Vulto como mentor e impulsionador deste movimento que tanto tem arriscado por novos caminhos sónicos. Mas o produtor não está sozinho neste projeto, L-ALI, Jota, Secta e Tilt compõem a base. Quatro artistas que anseiam o corrosivo material sonoro que Vulto produz e que trazem para os beats rimas estonteantes capazes de fazer soar os ouvidos dos contemporâneos.

O repertório é extenso e numa pequena visita ao Bandcamp do coletivo conseguimos perceber o trabalho desenvolvido ao longo destes 4 anos. Tudo começou com Café, um álbum nascido do trabalho entre L-Ali e Vulto, o primeiro de longa-duração entre os dois e o primeiro com a trademark do coletivo. Após isso seguiram-se vários projetos e singles a fazer ode ao rap experimental e independente. AJUNTAMENTO uniu 8 produtores numa compilação de instrumentais carregados de diferentes sonoridades e com o auxílio das ferramentas desta era digital, os singles da temática “Logo” que foram saindo ao longo dos anos e agora chegam ao LOGO #05 com a participação de Pedro Mafama e Pedro, O Mau, DILÚVIO chegou com Tilt e L-ALI a refletirem sobre o atual momento do hip-hop e a debitarem sobre os instrumentais fortes de Pesca, Yarikata veio como uma nova experiência a solo por parte de Vulto, que envolveu todo o tipo de sonoridades que idealiza na sua cabeça, CONSÓRCIO veio como sucessor de AJUNTAMENTO e reuniu novamente produtores numa compilação de instrumentais e uma discussão sobre os avanços estéticos do hip-hop nacional, e [caixa], possivelmente o projeto mais aclamado e focado numa estética e sonoridades exigentes, com a participação de nomes como Nerve, Secta ou Metamorfiko

É numa sonoridade inovadora em torno da cultura de produção de música eletrónica adaptada à cultura do hip-hop que os Colónia Calúnia se afirmam, e as tendências sónicas vão sendo cada mais vez diferentes, juntando um leque de liricistas, produtores e designers que com pensamentos diferentes são guiados para o mesmo caminho. Criar tendências, produzir um catálogo sólido e explorar novos caminhos são apenas algumas das apostas de Colónia Calúnia e de Vulto, que em entrevista ao Shifter nos falou um pouco mais sobre o projeto. 

 

De onde nasceu a ideia para a criação deste projeto e quais são os vossos objectivos de um modo geral?

Vulto: Há muitos anos eu tive um projecto com uma amiga, a Íris, com o nome MAPAMUNDO que, com o tempo e enquanto fui mostrando as demos a pessoas de vários ramos das artes, as mesmas interessavam-se e queriam contribuir para o projecto à sua maneira e todo esse espírito comunitário para mim começou a fascinar-me mais ainda. Vindo de um background de bandas, a criação da “peça” era sempre conjunta, e [MAPAMUNDO] rapidamente se transformou num projecto-protótipo semelhante a Colónia em que várias pessoas iriam trabalhar para um nome comum, onde os egos ficavam à porta e fazer as coisas acontecerem é que importava. Infelizmente, por um decorrer de acontecimentos esse projecto acabou por não se concretizar, então, assim que comecei a encontrar malta com um mindset semelhante ao meu, é que percebi que seriam pessoas com a mesma sede de coisas novas. O principal objetivo de Colónia seria criar uma plataforma onde malta que tem trabalho mais explorativo de culturas com estéticas semi-estabelecidas pudesse sentir-se confortável e onde ninguém fosse colocar barreiras ou entraves.

A nível da produção, a sonoridade entra sempre por um novo caminho experimental ou procuram ter um estilo solidificado que vos identifique?

Vulto: Tem sido sempre um dos factores mais importantes, trabalharmos sempre com pessoas que tentam passar a barreira imaginária do “convencional”. Existe efectivamente um esforço por apresentarmos trabalhos que desafiem certas coisas, não estou a falar de coisas super fora ou completamente experimentais mas sim questionar certas nuances nas sonoridades. É fácil ver que temos uma grande parte do espólio associada a cultura/sonoridade mais hip-hop/rap mas acho que também nos podemos orgulhar de estarmos sempre a fugir à norma mesmo dentro desse mini-nicho.

Ao escutar algumas das vossas músicas nota-se que a influência de jazz e soul que é frequente no hip-hop acaba por não ser o vosso registo, sendo a eletrónica experimental, e por vezes o rock progressivo, a tomar conta dos beats, isso é um trademark que pretendem manter?

Vulto: Acho que nesse sentido o trademark que se vai manter para sempre é a  experimentação/desafio de padrões. O resto é muito relativo e sujeito ao que se passa, principalmente com a situação em que estamos temos de perceber que temos de ser muito mais flexíveis do que achávamos, mas a ver vamos com o tempo.

No último single que lançaram, “Logo #5 (Lado Nenhum)”, o vosso espírito avant-garde é notório, com Sérgio Faria mais uma vez na parte visual a contribuir para isso. Sentem que as ideias do Sérgio, e esse cruzamento entre música e vídeo, são uma parte fundamental daquilo que criam? A nível gráfico planeiam colaborar com outros artistas?

Vulto: Sim, claro. Ainda agora cá chegámos, temos muita coisa para fazer e há muita gente com talento por aí.

Nota-se, na maior parte daquilo que criam, um certo mistério tanto na sonoridade como nas vossas identidades, o que vos leva a explorar essa vertente? Acham que o mundo artístico atualmente está demasiado saturado de personalidades e egos?

Vulto: Acho que a tua pergunta se responde a ela mesma, não é? Não acha toda gente que o mundo artístico está demasiado perdido em egos? Personalidades venham elas, egos é que já chega. Nem tudo é competição, colaborem mais compitam menos.

Shifter: Qual é o critério que procuram nas músicas que vão fabricando? De que forma os diferentes rappers que convidam encaixam nos projetos, como são ‘selecionados’?

Vulto: Acaba por ser um misto de quem acho que encaixa melhor nas sonoridades com projectos que acontecem osmoticamente e com pessoas que nitidamente se distinguem dos seus demais em estilo ou universo de escrita por exemplo.

Shifter: Acham que há alguém da nova escola que pode ser comparável a vocês ou procuram ser precisamente um ‘espaço’ para cultivar sistematicamente a diferença?

Vulto: Honestamente duvido que existam, eu pelo menos não dispenso assim tanto tempo a ver o que se passa, sou muito mais focado no que se passa dentro de mim e no meu trabalho. Que CC sirva pelo menos para que a malta que se sente constrangida porque acha que o que faz não seria assim tão aceite nas massas, se sinta com coragem para sair do buraco e fazer outra plataforma semelhante ou que entre em contacto connosco e nos mostre esse trabalho. No entanto, sim, somos uma casa onde se “cultiva sistematicamente a diferença”. Tudo o que se faz por aí na cultura é necessário para que exista um equilíbrio. Nós assumimos este lado da balança, da electrónica de dança ao rap ou a musica popular portuguesa, vamos tentando pôr o dedo na ferida e questionar convenções à nossa maneira.

Têm planos enquanto colectivo?

Vulto: Um dos meus grandes objetivos neste momento é procurar pessoas que estejam mais viradas para a cantiga portuguesa, renovar a estética que se associa a música “popular” portuguesa. Cancioneiros, cantautores ou simplesmente cantores. ONDE ESTÃO AS ANABELAS DESTE TEMPO =)

 

Vulto concebe as ideias que surgem como pontos criativos que vão desde a produção, ao design e à estética que os Colónia Calúnia pretendem representar, assumindo uma postura raw e estabelecendo uma melodia que é própria e já vista como característica do grupo. A criação das capas que compõem cada projeto está a cabo de Sérgio Faria, designer gráfico que tem vindo a trabalhar com o coletivo desde os primórdios e que encaixa na ideologia que Vulto projeta para este grupo, mencionada em cima: “…trabalharmos sempre com pessoas que tentam passar a barreira imaginária do “convencional”. Em entrevista ao Shifter, Sérgio Faria falou-nos um pouco mais do seu processo de criação e de como é a relação com os Colónia Calúnia. 

Atendendo à importância do aspecto visual em grande parte dos trabalhos, conta-nos, as tuas ideias entram em cena em que parte do processo? Participas na parte conceptual de cada release ou entras depois e reflectes sobre a música?

Sérgio Faria: Recebo um email do Vulto com o nome da peça e uma data (ideal) de entrega, e faço o que me apetece. Nunca ou raramente oiço o álbum/faixa antes de o fazer, Peter Saville, fazia o mesmo com Joy Division. artwork/música, criando relações inesperadas que as tornam interessantes. Todos sabemos que no movimento rap/hip-hop/trap existe uma enorme tendência para agir de certa forma, ter capas com determinado tipo de estética e vestir de certa forma. Penso que Colónia Calúnia quer chegar a um público não conformado com este tipo de fórmulas.

Apesar dessa importância, os teus trabalhos são mais complementos visuais do que videoclipes, como em “L0G0 #03” em que vemos durante o tempo da faixa uma escultura em 3D. Sabes à partida que tipo de output procuras ou acabas por ir explorando?

Sérgio Faria: Os meus trabalhos são peças de arte e a música outra peça de arte. Agora pensa que Colónia Calúnia é uma galeria de arte que organiza exposições de artistas onde cada exposição é um group show e não um solo show, ou seja, o importante é a total autonomia e independência de cada artista e a sua visão.

Como é trabalhar durante alguns anos com um colectivo? É como um projecto paralelo onde podes experimentar coisas que no teu trabalho corrente não têm espaço?

Sérgio Faria: Trabalhar em colectivo, sobretudo em tempos de crise causada pelo Covid-19, é algo que em Portugal nunca fizemos muito bem. As pessoas falam muito do sucesso da Rosalía por exemplo, e como se tornou dos maiores sucessos exportados para os EUA e para o resto do mundo. Rosalía é um projecto colaborativo de grandes produtores de música espanhóis (El Guincho e C.tangana) e grandes directores de arte (LAWEBDECANADA), e só assim conseguiram elevar o projecto. É urgente explorar este lado colaborativo dentro da comunidade artística e não competir entre artistas mas sim apoiar, organizar e sobretudo dinamizar uma área precária que enfrentará um desafio gigantesco daqui para a frente.

Tens experiência como designer, entre Lisboa e Londres, como é para ti trabalhar em projectos culturais deste género? Sentes que é uma forma de expressares um lado mais pessoal e com que te relacionas mais?

Sérgio Faria: Em Londres, trabalhei como designer para galerias de arte, marcas de roupa, ateliers de design produto, e em Lisboa trabalhei provavelmente com um maiores ateliers de arquitectura e agências de design. Embora sejam áreas muito distintas e com objetivos muito diferentes, o final é sempre o mesmo, elevar o negócio/arte com comunicação visual. Colónia Calúnia é igual, nada é pessoal, porque no final o meu trabalho é público.

Os Colónia Calúnia são um grupo irreverente no segmento alternativo da cultura urbana. Sentes que o teu trabalho se enquadra nesta perspetiva?

Sérgio Faria: Não enquadro o meu trabalho em qualquer segmento senão a expressão artística.

Podemos esperar mais colaborações no futuro?

Sérgio Faria: Até me despedirem…

 

Por agora, não sabemos o que reserva o futuro para Colónia Calúnia mas sabemos que o caminho é longo e promissor, os beats estão de olhos postos no futuro, as melodias estão misturadas de cliques e glitches com o pensamento no subsolo e o caminho segue imperial, no lado mais industrial do hip-hop e no lado mais característico de Vulto e dos que o acompanham nesta nova forma de arte. 

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!