Entre a morte e a nova vida do Couchsurfing

Construída numa base de confiança de que o serviço nunca iria ser pago, a plataforma Couchsurfing impôs um sistema de subscrições em resposta à crise de Covid-19.

Foto de Gregory Pappas via Unsplash
 
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Construída numa base de confiança de que o serviço nunca iria ser pago, a plataforma Couchsurfing reuniu desde 2003 uma comunidade generosa de pessoas interessadas em aproveitar os sofás dos outros para pernoitarem enquanto passavam tempo noutra cidade, podendo daí nascer inclusive novas amizades. Essa comunidade está agora de costas voltadas à plataforma que lhe deu origem porque foi imposta uma mensalidade.

Passamos a explicar. A 14 de Maio, a equipa do Couchsurfing publicou um texto no seu blogue sobre estar a ser difícil manter a plataforma na sequência da pandemia de Covid-19, que paralisou a economia por todo o mundo, incluindo o sector do turismo. Explicam que reduziram a equipa, desprenderam-se do escritório e candidataram-se a apoios estatais; mas não chega. Por isso, pedem a ajudar (forçada) à sua comunidade.

O Couchsurfing optou por instituir uma mensalidade de 2,39 euros por mês ou anuidade de 14,29 euros para alguns utilizadores, segundo se consegue depreender do texto publicado no blogue. Mais à frente lê-se, aliás, que o Couchsurfing continuará a ser de acesso gratuito para a parte da comunidade que usa o serviço em países sub desenvolvidos. “É imperativo, especialmente durante crises como a pandemia do Covid-19, que demonstremos compaixão e inclusão para aqueles que podem ser economicamente incapazes de participar.” Testado pelo Shifter, feito o registo ou login na conta aparece, de facto, uma janela a solicitar o pagamento da mensalidade ou anuidade, não deixando o utilizador avançar.

“A realidade é que mais de 96% da comunidade não oferece apoio financeiro ao Couchsurfing, porque nunca o pedimos. O Couchsurfing gera apenas alguns milhares de dólares por mês com publicidade. Claramente, isso é insustentável no contexto actual”, escreve ainda a equipa do Couchsurfing, acrescentando que a decisão foi ponderada entre a equipa e seus conselheiros, os chamados ‘Embaixadores do Couchsurfing’ e alguns membros da comunidade. “Queremos agradecer a todos que dedicaram tempo para participar do processo de tomada de decisão.”

Em 2011, o site desenhado e criado por Casey Fenton tinha deixando uma promessa bem clara: “o Couchsurfing nunca te obrigará a pagar para alojar ou ‘surfar’. É contra a nossa visão excluir alguém de ter experiências inspiradoras por razões financeiras, e isso não vai mudar só porque os nossos métodos de gerar receita mudem”. É certo que este novo modelo de subscrições surge numa situação excepcional para todos e que, mesmo assim, segundo o Couchsurfing, parece existir uma preocupação com não cobrar em países menos desenvolvidos, fazendo jus à promessa de 2011.

Todavia, alguns membros do Couchsurfing não gostaram da mudança. Um deles, James Hopest, publicou no Medium um artigo a explicar porquê. “Bem, pessoal, nestes tempos de mudança, parece que os últimos artefatos do mundo antigo foram firmemente cimentados na história, enquanto a Couchsurfing International Inc. decide cobrar unilateralmente aos seus membros, corroendo os últimos remanescentes de espírito comunitário e martelando o prego final no caixão capitalista que construiu para si”, começa logo assim o texto. “O facto de o Couchsurfing não avisar ou consultar a comunidade hospedeira que a empresa estava a mudar para um serviço pago, com vigência imediata a partir de 14 de Maio de 2020, apenas ressalta o já fraco histórico da administração.”

No texto com a interrogação ‘A morte do Couchsurfing?’ no título, James deixa claro que o problema não é pedir mas a forma como o fizeram. “Para ser justo, 15 dólares por ano não é irracional. Paguei voluntariamente muito mais, mesmo para o Couchsurfing, para manter a sua boa cena a correr. Operar plataformas como esta custa dinheiro. Mas a maneira como pediram mostra a todos exactamente aquilo que o Couchsurfing defende.”

No seu blogue, o Couchsurfing dá a entender que o novo modelo de subscrições vai continuar, até porque decidiu remover todos os anúncios do site e das aplicações móveis. Possivelmente este sistema de membros pode salvar a plataforma e dar-lhe um futuro mais estável e toda a controvérsia vai passar como outras adversidades também passaram (cof cof 2006). As críticas incidem sobretudo sobre a forma de fazer as coisas, principalmente quando se está a lidar com uma comunidade habituada a um serviço em determinados termos e condições.

A opção pelo modelo de subscrição, a retirada de todos os anúncios da plataforma, em resposta à descida do baixo retorno publicitário, e a consequente eliminação dos limites de interação entre os utilizadores e do preço de verificação das contas são as componentes estratégicas de uma empresa a mudar de perfil. Contudo, é sobre este exercício que James Hopest pede transparência e uma postura que preze a comunidade que fez crescer a plataforma que contava em 2018 com cerca de 15 milhões de utilizadores registados, 4 milhões de utilizadores activos e cerca de 400 mil sofás disponíveis. A comparação que estabelece é com a Wikipedia, aludindo à forma como este serviço baseado na comunidade pede doações aos seus utilizadores.

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