Devs: uma mini-série sobre a exploração moderna do livre arbítrio

O mais recente trabalho do realizador britânico Alex Garland passa-se num mundo tecnológico quasi-futurista, regido pelo poder quase soberano que as companhias Big Tech exercem sobre nós com os seus intermináveis produtos, ideias, likes e retweets.

Foto de Miya Mizuno/FX
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Ao longo das décadas, inúmeras premissas de ficção científica partiram duma dualidade. Deixem-me então fazer o mesmo aqui.

Dum lado, a “Interpretação de von Newmann–Wigner”, teoria resultante dos trabalhos complementares dos físicos John von Neumann e Eugene Wigner. Esta dita que num universo composto por incontáveis variações a nível atómico, é a percepção que um sujeito deriva de algo (como um evento, objeto ou ideia) que o irá condensar como tal; ou seja, todo o espectro de possibilidades desse algo é achatado como que pelas nossas mãos e gravado no trajeto histórico humano.

Do outro, a “Interpretação de Muitos Mundos”. Hugh Everett III, o autor da teoria, expõe o universo como um sistema totalmente determinista. Isto é, uma ação desencadeia uma reação concreta e exata, que por sua vez desencadeia uma outra reação e mais outra e mais outra, desde a criação do universo até ao seu eventual definhar. Mas todo o espaço de possibilidades dos infinitos pares ação-reação estende-se por infinitas variações que se sobrepõem umas às outras, caminhos progressivamente mais divergentes quanto mais longe do momento em que se bifurcaram.

Na primeira, o sujeito dita a evolução do universo através da ação. Na segunda, o seu trajeto é predeterminado do berço ao caixão. Livre arbítrio ou determinismo? Dois possíveis lados da moeda teórica que pesa no bolso do ser humano desde os longínquos tempos da Grécia antiga. Sendo Devs um exemplo digno de como se deve fazer ficção científica nos tempos de hoje, a série pega nesta moeda e decide atirá-la ao ar, deixando-nos tanto maravilhados com a sua ascensão, como a tremer pela sua queda.

A ficção científica nunca serviu somente para fantasiar sobre carros voadores, metrópoles flutuantes ou planetas longínquos populados por humanóides. Sempre foi um terreno fértil para semear ideias que tocam diretamente na essência daquilo que atormenta o ser humano, tanto no quotidiano sociopolítico como na sua mente. H.G. Wells, o tão badalado “Pai da Ficção Científica”, compreendia isto melhor que ninguém. Veja-se O Homem Invisível (impunidade moral), A Guerra dos Mundos (insignificância do ser humano perante o cosmos) ou A Ilha do Doutor Moreau (Homem vs Natureza).

Nos tempos correntes, obras de escritores como Ted Chiang e Andy Weir, trazem um sci-fi tanto cerebral quanto humano de volta às páginas, enquanto realizadores como Christopher Nolan e Denis Villeneuve exploram de formas grandiosas — e por vezes bombásticas — as profundezas do íntimo humano.

Entre estes novos porta-estandartes está Alex Garland, cujos trabalhos ao longo da década passada cimentaram-no como um dos mais interessantes artistas a operar no ramo, usando ao máximo as capacidades do meio cinematográfico para discursar sobre os fascínios e perigos da inteligência artificial (Ex Machina), ou esboçar uma alegoria hipervisual sobre o trauma infligido pelo cancro (Annihilation).

Devs, o mais recente projeto do escritor e realizador britânico, assenta as já referidas ideias de von Newmann, Wigner e Everett num mundo tecnológico quasi-futurista, regido pelo poder quase soberano que as companhias Big Tech exercem sobre nós com os seus intermináveis produtos, ideias, likes e retweets. Embora longe de perfeito, o resultado é uma uma colisão de ideias que tanto tem de cativante como de bizarro.

Durante oito episódios, seguimos os passos de Lily Chan (Sonoya Mizuno) enquanto investiga o que se esconde por detrás do véu da Amaya, gigante tecnológica para a qual trabalha. O seu namorado Sergei (Karl Glusman) é contratado por Forest (Nick Offerman), CEO da Amaya, para trabalhar na divisão secreta da empresa, a Devs, acabando por nunca regressar a casa ao fim do seu primeiro dia na sua nova posição.

Foto de Raymond Liu/FX

Admito que esta minha pequena sinopse possa indiciar que a minissérie se move principalmente sobre as bases de um thriller. Isto é absolutamente verdade para a primeira dose de episódios, servindo como um pretexto bem pensado de Garland para deixar a audiência molhar os seus pés na verdadeira essência que se move pela narrativa: a já referida exploração do livre arbítrio, que obviamente se justapõe com um mundo em que a monitorização e autoexposição atingiram o seu pico máximo, onde um ciclo infinito de pedidos de ajuda se disfarçam de microsugestões e julgamentos de valor alheios que condicionam tudo e todos. Eu até diria que Garland se podia ter focado mais fortemente nestes aspetos logo no primeiro troço da série, mas isto resultaria certamente em algo mais ponderado que, à vista de certos sujeitos mais irrequietos, significaria bocejos. Tendo em conta aquilo que é conquistado tematicamente nos últimos cinco episódios, parece-me um tradeoff perfeitamente razoável.

Aí, a narrativa entra num modo de efeito dominó que é soberbamente montado por Garland, em que as personagens seguem por percursos totalmente alheios à sua capacidade de os controlar. “Ação” e “consequência” são as palavras de ordem aqui, impostas por um percurso narrativo que consegue a proeza de ser tanto imprevisível como — e assim entra o determinismo na equação metatextual — inevitável. Uma narrativa é toda ela premeditada, os seus intervenientes incapazes de quebrar o seu desenvolvimento estático e exato. Quando uma personagem sente que tem em mãos as rédeas do seu caminho, algo ao virar da esquina está mais que pronto a quebrar essa ilusão. Sem querer revelar muito, há até um mecanismo diegético embutido na própria carne da narrativa que expõe esta mesma inevitabilidade. Tendo isto em consideração, percebemos que a “Interpretação de Muitos Mundos” é vista em Devs como o roubo da esperança ao ser humano: todas as (poucas) alegrias e (muitas) tristezas do futuro tornam-se inevitáveis porque, neste mundo, o nosso caminho é fixo sobre carris. As outras linhas pertencem a outros mundos, a outros universos, a outros nós.

Porém, há uma luz que a certo ponto trespassa todo o poço existencialista até aqui descrito. Falei de como as ideias de Everett se intrometem na narrativa, mas ainda não mencionei como o ponto de vista optimista de von Newmann e Wigner se reflete aqui. Parece-me incauto da minha parte entrar em detalhes sobre o assunto porque quero evitar ao máximo spoilers, mas posso dizer que esse otimismo mantém algum poder sobre a narrativa que se vai manifestando com progressiva força. O seu apogeu coincide com o episódio final, aquele que imediatamente se tornou numa das mais ambiciosas horas de televisão que vi na minha vida; a moeda finalmente cai e mostra-nos algo que vai para além da mera cara ou coroa.

Até ao momento, ainda não decidi se o último episódio da série resulta por completo em teoria ou execução, mas é realizado um salto de fé que é absolutamente essencial para imortalizar uma obra de ficção científica nos catálogos do género. Não sei se tal destino aguarda Devs, mas sei que todos os fãs do género deviam dar pelo menos uma oportunidade à obra de Garland. Se acham que têm ou não escolha, não sou eu quem o dirá com certeza.

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