O futuro pós-pandemia sem utopia

Entre o individualismo e a imunidade a grupos.

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O ano de 2020 ficará marcado pela prática do distanciamento social espoletado pela pandemia de Coronavírus, que em vários países redundou em confinamento quase forçado. Com os humanos dentro de casa, o consumo e a produção a descer, surgiram logo os primeiros relatos idílicos de que a Terra estaria a aproveitar este momento para se curar dos maus tratos de que tem sido vítima. Há até quem acredite que, quando tudo passar, todos abrirão os olhos e não se voltarão a incorrer nos mesmos erros do passado, principalmente para enfrentar a crise económica que se começa a ver formar no horizonte. No novo mundo vai ser possível colocar o sistema capitalista em causa e construir uma alternativa melhor.

Apesar da esperança iludida de muitos, a pandemia não servirá o propósito benigno de abrandar o ritmo consumista da sociedade, nem recentrará o ser para viver em harmonia com uma comunidade heterogénea. Este estado suspenso catalisará uma ansiedade latente e exacerbará o individualismo. A ansiedade crescerá mais quanto maior for o prolongamento da paragem do tempo dito útil, consequência máxima de viver uma era sem referências para além da vida. O individualismo alimentar-se-á da imagem caricaturada do outro cuja presença é superlativada pelas redes sociais que exigindo atenção sem cessar permitem uma escolha a dedo de quem está á vista. Poderá então esperar-se que esta situação tenha um efeito similar ao da crise de 2008, que tornou a juventude bastante desconfiada do futuro, trocando qualquer expectativa de melhoria por uns punhados de vida presente. Um desapego do futuro poderia em teoria ser benéfico, mas a maior parte das pessoas não fez as pazes com a sua mortalidade e vive com esse receio constante a massacrar.

O desalento que leva a renegar um ente próprio futuro desconhecido é o mesmo que ergue muros que criam um isolamento dos outros propriamente ditos. Esta dimensão futura do ser está intimamente relacionada com a dimensão racional do humano, de onde provém a capacidade de protelar o prazer imediato com temperança, privilegiando a preservação da saúde física e mental, o desenvolvimento intelectual e outras actividades edificantes em prol do seu crescimento. Só com o equilíbrio entre o estado instintivo e racional é que o humano se assume como membro discreto autónomo pertencente ao contínuo da sociedade, ao invés de apenas pertencer a ajuntamentos de pessoas extremamente individualizadas escolhidas por proximidade e projeção. Estes ajuntamentos são estruturas que, pela semelhança dos seus participantes, parecem comunidades fortes, mas na realidade funcionam como apenas um indivíduo de vários corpos que se entrincheira contra outros ajuntamentos semelhantes. O ambiente político polarizado, demonstrado nas discussões nas já referidas redes sociais, é ilustrativo deste fenómeno.

Eliminando os outros da equação, nada resta senão a afirmação incessante do Eu presente. Não merece grande discussão que o presente deve ser aproveitado, mas a tentativa de encaixar o máximo de experiências a cada momento cria um ciclo vicioso de hedonismo que não se consegue quebrar. Manter esse ciclo em funcionamento, como o rato que mantém a roda a girar, é uma obrigação para quem se entrega aos estímulos momentâneos incentivado pelo final que pode vir a qualquer instante.  É por isso que em tempos de pandemia vemos tantas pessoas a meterem-se em bicos de pés para não serem esquecidas, expoente máximo dessa vontade os múltiplos directos de Instagram de diversos artistas que procurando manter os seus ajuntamentos produzem ruído avulso que por sua vez faz os seus consumidores sentirem-se validados dentro desse ajuntamento ao consumirem-no. Mas tanto cabe neste afã de reconhecimento o artista com o seu concerto em casa como o anónimo que conta o seu enésimo dia a julgar quem fez uma volta higiénica, enquanto fez a sua broa caseira, ao invés de procurar na reclusão a libertação da necessidade de receber aceitação do seu eu projectado.

Vivendo tentando ignorar a existência do futuro, principalmente um futuro além da morte (temática não necessariamente espiritual a discutir noutra reflexão), o ser humano integrado no sistema capitalista sem bússola de valores comuns, procura no consumismo a validação da sua existência. A ostentação dos produtos consumidos ou do seu valor, é uma forma de adoração a ídolos, ditos falsos se houvesse um referencial comum, que asseguram a manutenção do estatuto e sucesso do indivíduo que batalha a todo o instante para aproveitar o dia com medo que estes acabem e não tenham sido bem aproveitados.

Por muito que haja gente a afirmar a máxima Carpe Diem, o seu entendimento desajustado fica-se por um contemporâneo “YOLO”. Este erro é um responsável pelo consumismo voraz e pela ansiedade galopante. Na procura da realização pelo prazer o indivíduo serve de alimento ao presente voraz, na vez de aproveitar o dia é aproveitado por ele. Pode-se viver libertos do peso das obrigações futuras, mas a maior parte das pessoas não consegue chegar a esse ponto. Afirmam-se despreocupados, mas não aceitam o presente incondicionalmente. Ao invés de se focarem na mitigação da dor, correm desesperados atrás do máximo possível a cada instante com o sempre presente medo do fim, denunciando assim a sua incapacidade de viver a máxima latina em seu pleno esplendor. O desprendimento total do futuro só resulta em felicidade e equilíbrio se houver uma aceitação incondicional do presente sem obsessão com a mortalidade. Essa que Epicuro dizia que nada significava para o Homem, pois quando ele é ela não chegou e a sua chegada é o seu fim.

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