Arquitecto Rem Koolhaas reflecte sobre o espaço público e as cidades em tempo de pandemia

Para Rem Koolhaas, arquitecto da Casa da Música, as cidades tornaram as zonas rurais num espaço negligenciado, que agora se torna apetecível por ser mais vazio, propício a modos de vida mais simples e ao cultivo do próprio alimento.

A Casa da Música, no Porto, foi um projecto do arquitecto holandês Rem Koolhass (foto de Rosan Harmens via Unsplash)
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Embora nem sempre surjam no espaço público com uma voz activa na discussão dos fenómenos, os arquitectos têm uma tendência e uma capacidade particular para pensar e criticar a forma como vivemos. Pelo seu amplo conhecimento e experiência com a forma como as coisas são feitas, em primeira instância, e experienciadas, em segunda, desenvolvem o seu sentido apurado para detectar a forma como os nossos ambientes modelam os nossos comportamentos. Como dizia anteriormente, durante a inauguração da sua última exposição no Guggenheim, Rem Koolhaas reconhece como a sua profissão está intimamente relacionada com “os valores, os desejos e as necessidades dos seres humanos” e, por isso, tem uma palavra a dizer sobre a forma como actualmente nos organizamos.

Num artigo da Time, o arquitecto holandês, autor do projecto da Casa da Música, no Porto, partilhou alguns pensamentos sobre o momento em que vivemos e só por piedade poupou os leitores a um sintético e cáustico “eu avisei”Countryside é o título da sua última exposição, entretanto suspensa pelo surto de coronavírus, e um convite à reflexão sobre os espaços deixados vazios por uma população que se concentrou de uma forma massiva. Conforme explica, 50% das pessoas ocupam 2% do espaço nas metrópoles e, se essa problemática se apresentava como perfeitamente casual e praticamente inofensiva, o vírus e a sua correlação com a densidade populacional mostraram o cenário inverso. Para Koolhaas, o problema não é necessariamente o culto das cidades, mas aquilo em que elas se tornaram e em que tornaram as zonas rurais: num espaço negligenciado que agora se torna apetecível por ser mais vazio, propício a modos de vida mais simples e ao cultivo do próprio alimento.

Rem Koolhaas (foto de Johannes Dietschi/Zhdk via Flickr)

Para o arquitecto holandês, a arquitectura materializa as transformações que o mundo vai vivendo e, para si, é preocupante a perda de identidade a que as cidades estão a ser sujeitas pela pressão crescente do mercado criado pelo turismo – Koolhaas aponta neste capítulo para o surgimento, nas últimas duas ou três décadas, de cidades sem propósito a não ser a atracção de visitantes estrangeiros como um mau sinal dos tempos a que pouco se tem prestado atenção.

Noutra crítica, já habitual no seu repertório, o arquitecto debruça-se sobre um importante marco da vida contemporânea, os aeroportos, criticando a forma como se deixaram moldar, mais do que pela sua função, por uma lógica de maximização das oportunidades de consumo, em que somos obrigados a mergulhar num percurso que nos leva a passar por um sem fim de lojas.

No mesmo tom, Koolhaas desafia os seus pares a focar o seu pensamento e a reiterar a importância de um pensamento crítico sobre o espaço e as relações que este contempla, atendendo às evoluções que o mundo vai vivendo, para que a evolução da cidade não seja acrítica e, de certo modo, alienada, não respondendo aos desafios do tempo. Nesse particular, refere a importância de ir pensando o futuro; o arquitecto fala tanto do espaço de que a crescente digitalização da tecnologia precisará – sobre a forma de centros de dados –, como da forma como humanos e robôs podem conviver em cidades contemporâneas e em relações igualitárias, sem cultivarem múltiplas dependências ou imposições. Koolhaas reflecte sobre o habitual carácter destas relações, com a tecnologia rectangular e hermética, sugerindo que esta relação deve ser repensada com o crescimento da importância e da centralidade do universo digital no nosso modo de vida contemporâneo.

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