Nem o Reno sobrevive às alterações climáticas

Os níveis da água no rio que é uma das principais artérias industriais da Alemanha estão a diminuir cada vez mais, provocando no país grandes preocupações de que os principais bens essenciais não possam chegar ao seu destino.

Foto de Enrico Strocchi via Flickr, CC BY-SA 2.0
 
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Ano após ano, o rio Reno, um dos mais importantes da Europa, continua a secar depois de não existir chuva suficiente nos meses de março e abril, e já não é a primeira vez que estes meses são demasiados secos para a época em questão. O que se vê é uma vegetação amarelada nas margens do rio, ao contrário do verde que normalmente se vê na época de primavera. Os níveis da água no Reno estão a diminuir cada vez mais, provocando na Alemanha grandes preocupações de que os principais bens essenciais não possam chegar ao seu destino.

O Reno como uma das principais artérias industriais da Alemanha

O rio Reno é uma das principais vias de transporte no centro da Europa. Pelo curso do rio transporta-se carvão, peças de automóveis, alimentos e milhares de outros produtos. Com origem nos Alpes suíços, o Reno tem mais de 1300 quilómetros de comprimento e transporta contentores de carga para algumas das zonas industriais mais importantes do centro da Europa. O Reno funciona como via fundamental para fabricantes como a Daimler, Bosch e Bayer.

Trata-se de um percurso altamente movimentado, já que num dia normal de transporte, uma balsa que transporta trabalhadores disputa espaço com barcaças de carga que levam matéria prima para as fábricas do sul da Alemanha e voltam com produtos alemães para o Mar do Norte. Além de barcos turísticos que se dirigem aos castelos medievais e às vinhas mais próximas. Quando a economia alemã prospera, o movimento pelo rio é intenso transportando gás e petróleo, por exemplo. Em verões extremamente quentes, o nível da água diminui e os barcos só vão carregados pela metade.

O Reno é circulável para navios de carga desde a fronteira com a Suíça até ao Mar do Norte, ao longo do rio temos indústria petrolífera e química na Basileia e Mannheim, Colónia e Leverkusen; ou a indústria pesada na região do Vale do Ruhr. Não é por acaso que o maior porto fluvial do mundo é o de Ruhrort, onde o rio Ruhr se encontra com o Reno.

As alterações climáticas como principal problema para sobrevivência do Reno

Em outubro de 2018, o nível da água do Reno registou uma queda de alguns centímetros, perto da vila de Kaub, interrompendo o fluxo de combustíveis e mercadorias de e para o centro industrial do sul da Alemanha. A situação foi grave e provocou um abrandamento da economia alemã e levou a questionar também o impacto das alterações climáticas mesmo nos países mais avançados. O tráfego foi interrompido pela primeira vez na história, sufocando uma das principais artérias do país. A indústria da ThyssenKrupp Steel, de acordo com seus dados, produziram 200 mil toneladas de aço à menos do que o previsto.

Em 2019, o Governo alemão anunciou planos para garantir que o Reno permaneça navegável, pelo menos, os navios industriais, mesmo que o nível da água venha a cair ano após ano. As medidas incluem novos sistemas de alerta precoce e drenagem de algumas das partes mais superficiais do rio.

Os cientistas associam este efeito no Reno às ondas de calor do verão. Em 2018, a grande onda de calor que abateu no centro da Europa, na Suíça onde nasce o rio Reno aconteceu uma mortandade de toneladas de peixe, já que a maior parte das espécies não sobrevivem a mais de 23ºC e nesse ano atingiram 27ºC.

Comparando a situação com as tendências nos Himalaias, nas Montanhas Rochosas e noutras regiões montanhosas do mundo, os glaciares dos Alpes estão a encolher de forma considerável e constante devido ao aquecimento global que faz com que a acumulação de neve no inverno não seja suficiente para, no degelo de verão, abastecer o rio Reno. Um estudo da ETH Zuric prevê que metade dos glaciares dos Alpes desapareçam dentro de três décadas. As placas de gelo dos Alpes diminuíram 28% entre 1973 e 2010, de acordo com um estudo suíço, e a perda pode chegar aos 35% nos próximos anos.

O Reno é um rio natural e existem limites para o que se pode fazer para o manter ativo como uma importante via industrial.

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