SafeMask: comércio online num mundo globalizado e em pânico

Em Abril, o BuzzFeed News revelou uma história impressionante sobre máscaras vendidas online, que envolve milhares de milhões de e-mail enviados, empresas espalhadas pelo mundo, um cidadão português e muitos clientes insatisfeitos.

Imagem via Shifter
 
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Escrevemos aqui há algum tempo que as crises abrem oportunidades para muitos e que a criatividade é essencial para resolver problemas. Em hackathons, maratonas de desenvolvimento como aquela que aconteceu na Estónia, procuram-se soluções e possibilidades para preparar o futuro. Empresários buscam a melhor forma de subsistir e na sua extensa maioria criar um negócio que responda às necessidades da população de uma forma consciente, legal e ética. De facto, podemos dizer que a criatividade e o espírito de iniciativa são super-poderes incríveis. Mas como em todas as histórias de banda desenhada, nem todos os super-poderes são usados da melhor maneira.

Uma empresa vendia máscaras protectoras contra a transmissão de vírus através de e-mail enviados em massa. Uma investigação do BuzzFeed News contém tudo o que mostra as inter-relações do mundo de hoje – um cidadão americano resolveu comprar uma máscara de protecção numa loja online porque toda a gente estava em pânico e a máscara garantia ter a certificação N95 (que não tinha). A máscara nunca chegou e após uma análise mais cuidada verificou-se que outras máscaras semelhantes custariam 0.75 dólares. Outro detalhe: havia 9,99 dólares de garantia de três anos, mas as máscaras são descartáveis, logo, induz à reutilização errada. Seguindo o rasto dos e-mails enviados sobre a SafeMask, encontrou-se o método.

Qual o método?

Segundo o BuzzFeed News, a partir da Estónia, uma empresa que curiosamente tem um português como proprietário, foi coordenado o envio de mil milhões de e-mail para listas de clientes, neste caso seguidores de web-sites relacionados com sectores conservadores e grupos de sobrevivencialistas dos Estados Unidos. Em alguns dos e-mail encontravam-se também bonés de apoio a Trump, licenças de armas de fogo ocultas e remédios.

O milionário Ricardo de Souza Coelho, com empresas nas Seychelles, Malta, Hong Kong, Emirados Árabes Unidos e na Estónia, executa estratégias de marketing de afiliação, ou seja, manobras agressivas de promoção de produtos, coordenadas com outros vendedores online. Esta estratégia de marketing é usada por várias empresas mas as maiores empresas seguem um código de conduta. Por exemplo, os pesos pesados da indústria online Facebook, Google, Amazon e outras plataformas baniram o comércio de máscaras irregular, com governos dos Estados Unidos, Canadá e outros a proibirem a manipulação de preços para aumentos excessivos. Todos os pedidos de reembolso deveriam ser enviados através do envio do produto de volta para empresas com morada fictícia na Estónia, Eslováquia, Malta, e China. No artigo é revelado que a matrícula do Ferrari do proprietário da empresa ser 404 LOL, ironia das ironias.

Após o contacto do BuzzFeed News, Ricardo Coelho garantiu que não tinha conhecimento deste processo e que o aumento exponencial dos preços foi executado por afiliados. Após o contacto, o site da SafeMask foi retirado e agora direcciona para o site Max Deals e os preços caíram exponencialmente.

Conclusão, o truque é não entrar em pânico

O artigo original mostra todo o rasto a seguir e encontra vários outros pontos onde falta o controlo de proteção do consumidor. A verdade é que em períodos de crise haverá sempre a tentativa de manipulação dos sentimentos de insegurança das populações. Populações mais vulneráveis ao medo e desconectadas são os alvos ideais para vendas agressivas e mensagens de urgência.
O número de esquemas possíveis é imenso. Já em Abril, no Shifter falamos de domain spoofing, e, em Março, o Público alertava para diferentes formas de fraude online. Também a Europol revelou um relatório mais técnico sobre os perigos do momento.

Num tempo em que o imediatismo do mundo online nos impele a tomar decisões em poucos segundos, o melhor é respirar fundo. É necessário promover atenção e vigilância e avisar que quando uma coisa parece boa demais para ser verdade, provavelmente não o é.

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